segunda-feira, 24 de agosto de 2015

CLAUDIO COSTA: PHILOSOPHICAL TEXTS - TEXTOS FILOSÓFICOS



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CURRICULUM:



Professor of philosophy at the UFRN (Brazil). E-mail for contact: ruvstof@gmail.com

M.S. in philosophy at the IFCS (Rio de Janeiro, 1982). Ph.D. at the University of Konstanz (1990). Sabbatical stages of one year as a visiting scholar in the Hochschule fuer Philosophie, Muenchen (1995), University of California at Berkeley (1999), University of Oxford (2004) and University of Konstanz (2009-10).

AREAS OF INTEREST: All the central questions of philosophy.

MAIN PUBLISHED WORK IN ENGLISH: The Philosophical Inquiry (UPA: Langham 2002), "Free Will and the Soft Constraints of Reason" (Ratio 2006), "The Sceptical Deal with our Concept of External Reality" (Abstracta 2009), "A Perspectival Definition of Knowledge" (Ratio 2010), and "A Metadescriptivist Theory of Proper Names" (Ratio 2011); a corrected version of the ideas of the last paper are here presented under the title "Outline of a Theory of Proper Names". The best selection of papers in portuguiesih is Paisagens Conceituais (Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro 2012). A selection of papers published in English containing improved versions of the papers cited above is the book Lines of Thought: Rethinking Philosophical Assumptions (Cambridge: Cambridge Scholars Publishing, 2014).

CURRENT RESEARCH: I am presently working in a book to be called Philosophical Semantics. The aim of this book is not only to challenge the present externalist, causalist and anti-cognitivist mainstream in philosophy of language, but to provide an alternative view, trying to rescue some important ideas of the traditional philosophy of language.






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(3) O MITO DO NECESSÁRIO A POSTERIORI (do livro Cognitivismo semântico)

 Draft



– 3 –
O MITO DO NECESSÁRIO A POSTERIORI



Boa parte da teoria filosófica resultante das aplicações da lógica modal feitas por Saul Kripke aos problemas da referência sempre me pareceu um notável costurado de confusões. Como a maioria discorda, quero justificar-me através de uma discussão crítica do seu artigo “Identity and Necessity”[1], que antecede as doutrinas do livro Naming and Necessity[2] e que contêm algumas idéias fundamentais recém-tiradas do forno. No que se segue resumirei o artigo de Kripke intercalando a isso meus comentários críticos.

Exposição
Kripke começa considerando um argumento modal para o caráter necessário de enunciados de identidade. Sendo N o operador de necessidade, que aqui será vista como sendo pertencente à modalidade de re (independentemente do modo de designação lingüístico), podemos considerar que, dado o princípio da substitutividade dos idênticos, segundo o qual “(x) (y) ((x = y) → (Fx → Fy))”, e dado o princípio da identidade, segundo o qual “(x) N(x = x)”, podemos concluir que se a propriedade F for a de ser necessariamente igual a x, então y também deve ter essa propriedade, ou seja, é necessário que y seja igual a x, em símbolos, “(x) (y) (x = y) → (N(x = x) → N(x = y))”, ou seja: “(x) (y) (x = y) → N(x = y)”.
    Kripke aceita esse resultado, sendo por ele levado à surpreendente conclusão de que identidades entre nomes e identidades teoréticas (essenciais) são necessárias. Assim, se a e b são realmente nomes e “a = b” é uma identidade verdadeira, então ela é necessariamente verdadeira. Esse seria o caso de identidades como “Hesperus é (o mesmo que) Phosphorus” e “Cícero é (o mesmo que) Túlio”, que para Kripke são necessárias. Mais além, se F e G são predicados teoréticos, definidos como designadores de propriedades essenciais, e a identidade teorética (x) (Fx = Gx) é verdadeira, então ela é necessariamente verdadeira. Por isso identidades como “Calor é movimento molecular” e “Um estado mental é um estado físico”, se verdadeiras, são necessárias.
    O próprio Kripke reconhece que identidades entre nomes e identidades teoréticas têm sido geralmente consideradas contingentes, expondo as conhecidas razões. Considere o enunciado “Hesperus é Phosphorus”. Sendo que Hesperus é Vênus visto ao anoitecer e Phosphorus é Vênus visto ao amanhecer, foi uma importante descoberta astronômica a de que se tratava do mesmo planeta. Assim sendo, essa parece ser uma verdade empírica contingente. O mesmo se aplica a identidades teoréticas, como “Calor é movimento molecular”. Essa identidade foi uma descoberta da ciência e poderia ser falsa, pois se a teoria do calórico fosse correta então o calor não seria movimento molecular. Este parece ser, pois, um enunciado contingente, pois o necessário é o que é verdadeiro sem que seja possível ser de outro modo.
     A tese de Kripke, porém, é a de que todas essas identidades, embora tenham sido aprendidas a posteriori, são necessárias, apesar de aparentarem não sê-lo. Ele reforça esse ponto introduzindo uma distinção importante entre o designador rígido, por ele aqui definido como um termo que designa o mesmo objeto em todos os mundos possíveis nos quais esse objeto existe, e o designador não-rígido, que pode designar objetos diferentes em diferentes mundos possíveis. Para ele, um exemplo de designador não-rígido é uma descrição definida como “o inventor das bifocais”, que é George Washington, mas que pode em princípio ser outra pessoa qualquer. Já exemplos de designadores rígidos são descrições como “a raiz quadrada de 25”, que em qualquer mundo possível será cinco, ou nomes próprios como George Washington, que se aplica a uma mesma pessoa, em qualquer mundo no qual ela tenha vivido. Para Kripke, tanto nomes próprios quanto predicados teoréticos são designadores rígidos, diversamente das descrições definidas.

Comentário
Parece claro que uma expressão matemática é um designador rígido, pois essa designação não depende de como o mundo é. Mas será que nomes próprios são realmente designadores rígidos? Imagine um mundo possível quase idêntico ao nosso, no qual, logo após o nascimento de George Bush um marciano tenha se apossado do seu corpo e desde então o tenha usado como uma camuflagem, tornando-se presidente dos Estados Unidos e realizado as mesmas ações. Não seria o caso então que nesse outro mundo o nome ‘Bush’ estaria sendo usado para identificar outra pessoa, diferente daquela que ele é em nosso mundo? Parece que não. Pois em defesa de Kripke podemos dizer que se trata de uma falsa identificação de Bush em um mundo possível M2, quase idêntico ao nosso, a qual pode ser corrigida, não impedindo que o nome seja um designador rígido. Em M2 o verdadeiro George Bush teria obviamente morrido logo após o nascimento, quando o marciano se apossou de seu corpo. O caso é, portanto, muito diferente daquele que encontramos na descrição ‘o inventor das bifocais’, pois pode ser facilmente imaginado um mundo no qual o inventor das bifocais não tenha sido George Washington, sendo ainda assim George Washington essencialmente o mesmo lá e aqui. A conclusão é a de que nomes próprios verdadeiros de fato funcionam como designadores rígidos: eles designam necessariamente uma mesma coisa em qualquer circunstância de mundo na qual ela exista.
     Uma coisa bem diversa, porém, é saber se o conceito de designador rígido tem as conseqüências que Kripke dele espera, de garantir a necessidade de re de identidades. Penso que a assunção de uma necessidade na referência do nome próprio cairá por terra se demonstrarmos que uma versão da teoria descritivista dos nomes próprios (segundo a qual eles estão no lugar de agregados de descrições definidas) der conta da propriedade do nome próprio de ser um designador rígido. Kripke parece, em Naming and Necessity, ter mostrado que isso é impossível. No próximo capítulo desse livro pretendo demonstrar o contrário. Quero, no excurso que se segue, antecipar alguma coisa, mostrando como uma forma descritivista de teoria dos nomes próprios pode em princípio ser desenvolvida de maneira a dar conta da propriedade da rigidez.
     Aqui vai o argumento. Descrições são expressões de regras de conexão com o objeto. Algumas descrições, como ‘o estagirita’, exprimem regras identificadoras do objeto. Afinal, é importante a informação de que Aristóteles nasceu em Estagira, que é grego. Mas a maioria das descrições definidas são enganadoras, pois exprimem apenas regras de conexão com o objeto que são meramente auxiliares. Esse é o caso, por exemplo, de ‘a cidade luz’, ‘o preceptor de Alexandre’, ‘O inventor das bifocais’, ou ainda, de ‘o filósofo referido pelo professor’. Minha sugestão é a de que as regras-descrições fundamentais de identificação para um nome próprio sejam as que o conectam com:

     (A) as características do objeto que para nós são mais relevantes.
     (B) a região e percurso espaço-temporal do objeto.

      Esses dois tipos de regras de identificação fundamentais não são por si mesmos suficientes. Uma vez que as tenhamos, podemos dizer que a regra de identificação de qualquer nome próprio que nos seja dado precisa instanciar a seguinte forma:

O referente de um nome próprio N identifica-se em um dado mundo possível como sendo o objeto que satisfaz as condições estabelecidas pelas regras de tipo (A) e/ou (B) para N de maneira suficiente e mais do que qualquer outro eventual competidor nesse mundo possível.

     Quero exemplificar minha sugestão com o nome ‘Aristóteles’. A condição (A) para Aristóteles é a de que ele tenha sido um dos grandes filósofos da humanidade, mais precisamente, ‘o autor das grandes idéias do opus aristotélico’. A condição (B) é a de que ele seja ‘a pessoa nascida em Estagira em 384 a.C. que viveu a parte mais importante de sua vida em Atenas e morreu em Chalcis em 322 a.C.’. Que isso é o mais fundamental não é invenção minha: trata-se de algo que qualquer enciclopédia pode testemunhar.
     As descrições auxiliares podem todas falhar. Pouco importa, por exemplo, que Aristóteles não tenha sido o preceptor de Alexandre, nem o maior discípulo de Platão, nem o fundador do Liceu. Mas as descrições dos tipos (A) e (B) são fundamentais e não podem ambas falhar de todo, pois nesse caso o nome não mais se aplica.
     Alguns exemplos evidenciam esse ponto. Pode ser que em um mundo possível semelhante ao nosso haja a seguinte diferença: o Aristóteles grego nunca existiu e o opus aristotélico foi escrito por um filósofo árabe medieval com o pseudônimo ‘Aristóteles’... Nesse caso tenderemos a dizer que a regra (B) para Aristóteles deixou de se aplicar, mas que Aristóteles é o filósofo árabe, pois (A) ainda se aplica. E pode ser ainda que exista um mundo possível no qual os dados biográficos de Aristóteles estejam corretos, mas que ninguém tenha escrito o opus aristotélico. Nesse caso ainda admitiremos, pela satisfação de (B), que ele existiu. (Kripke considerou os dois casos.) Mas não é possível conceber um caso no qual nem a condição (A) nem a condição (B) estejam sendo minimamente satisfeitas! Não pode ser, por exemplo, que em um mundo possível Aristóteles tenha nascido no século XX e que nunca tenha sido filósofo, mas sim um grande armador grego que namorou Callas e se casou com Jackeline... Pois nesse caso o nome do filósofo perderia todo o seu sentido para roubá-lo indebitamente de um homônimo contextualmente identificável. (Casos como esse foram os que Kripke falhou em investigar.)
     Ora, pode bem ser que a regra meta-identificadora, exigindo uma satisfação suficiente de condições de identificação estabelecidas por uma disjunção de regras identificadoras de primeira ordem, seja aquilo que dá a um nome a estabilidade que regras de conexão com objeto expressas por descrições definidas carecem.
     Contra tal sugestão poderia ser objetado que os limites de aplicação estabelecidos pela regra meta-identificadora são inevitavelmente vagos. Mas isso não significa, como o sorites comprova, que tais limites não existam. Afinal, é bem concebível um mundo possível no qual Aristóteles nem existiu nem não existiu. Esse seria o caso, por exemplo, de um mundo possível no qual a filosofia aristotélica nunca tenha surgido, pois embora em 384 a.C. tenha nascido em Estagira um bebê de nome ‘Aristóteles’, ele morreu pouco depois de nascer. Teria sido ele o nosso Aristóteles em potência?
     A solução para essa dificuldade é fácil: basta redefinir o designador rígido como sendo aquele aplicável em todos os mundos possíveis nos quais o objeto inequivocamente e definidamente existe. É pelo fato de que a regra meta-identificadora se aplica em qualquer mundo possível no qual o objeto existe univocamente e suficientemente que um nome próprio como ‘Aristóteles’ é um designador rígido.
     Temos aqui também uma explicação para o fato de a maioria das descrições definidas (ex: ‘o inventor das bifocais’) não serem designadores rígidos. Ao se aplicarem elas se associam semanticamente à regra de identificação de algum nome próprio (como George Washinghton). Mas essa associação não é necessária. Por isso há mundos possíveis nos quais os objetos referidos pelos nomes que as correspondem não as satisfazem, posto que, ou elas não se aplicam, ou elas se aplicam a outros objetos que não aqueles a que elas usualmente, por sua subordinação semântica ao nome próprio, se referem (por exemplo, no mundo no qual foi João da Silva quem inventou as bifocais). Isso é comprovado pelo fato de descrições definidas que não se vinculam semanticamente a nomes próprios (como, por exemplo, ‘o terceiro regimento de cavalaria de Cintra’) serem designadores rígidos.
     Se admitirmos semelhante versão revisada da teoria descritivista dos nomes próprios, poderemos sugerir que a regra meta-identificadora é constitutiva do núcleo de significação de um nome próprio, tornando-o um designador rígido cuja necessidade é apenas de dicto, ou seja, convencionalmente estabelecida. Essa versão revisada da teoria descritivista aqui toscamente esboçada demanda, obviamente, uma elaboração que será ao menos no essencial desenvolvida no próximo capítulo.

Exposição
Kripke também considera a noção de aprioridade. Uma verdade a priori é aquela que pode ser conhecida sem recurso à experiência. Muitos consideram o necessário e o a priori equivalentes. Mas a noção de necessidade é metafísica – sobre o modo como o mundo poderia ser – enquanto a noção de a priori é epistemológica – sobre como conhecemos o mundo atual. Kripke pensa que as duas classes não se equivalem. Considere, escreve ele, a conjectura de Goldbach, segundo a qual qualquer número natural é a soma de dois primos. Ela pode ser uma verdade necessária sem que saibamos disso a priori.

Comentário
A sugestão de que a necessidade é metafísica e a aprioridade é epistemológica pode ser questionada. Ela só vale se a necessidade for entendida como de re, como Kripke pretende, posto que a necessidade de dicto se segue da aprioridade epistemológica. Mas se existem necessidades de re é algo que a rigor não podemos saber. Elas seriam necessidades das coisas mesmas como, supostamente, a de uma lei natural. Contudo, como podemos saber que uma lei natural é necessária? Ora, nossa falibilidade epistêmica no que diz respeito ao conhecimento empírico nos impede de adquirirmos conhecimento certo acerca disso. Por isso, a espécie de necessidade que atribuímos às leis naturais só pode ser de dicto, ou seja, resultado de convenções pragmático-lingüísticas que nos dizem que elas devem ser tratadas como se fossem necessárias. Trata-se aqui de uma necessidade hipotética, postulada com base na experiência e aceita como regra no sistema de linguagem – no que Wittgenstein chamaria de o jogo de conhecimento da física. Eis a sua sugestão, na qual lemos a palavra ‘regra’ como envolvendo proposições a priori:

Toda proposição empírica pode servir como uma regra se ela for fixada como peça imóvel de um mecanismo, de tal forma que a totalidade da representação gira ao seu redor tornando-a parte de um sistema de coordenadas independente dos fatos.[3]

     Para exemplificar o que Wittgenstein quer dizer, consideremos uma lei física qualquer, digamos, “e = mc2”. Ela pode ser duplamente compreendida:

(a)           Como componente da teoria da relatividade, pressupondo a verdade dessa teoria. Nesse caso ela será vista como necessária e a priori, ou seja, como um postulado independente da experiência, sendo a sua necessidade de dicto (convencional).
(b)           Com relação ao nosso sistema total de crenças, a mesma lei física deve ser considerada como um enunciado a posteriori e contingente. Afinal, nesse caso ela pode em princípio ser falseada pela observação, posto que a falibilidade é um traço pervasivo de nosso conhecimento empírico.[4]

     Isso explica porque enunciados como “Hespherus é Phosphorus” e “Calor é movimento molecular” podem ser considerado a posteriori e contingentes (com relação ao nosso sistema total de crenças) e também a priori e necessários de dicto (como componentes de subsistemas de crenças, respectivamente, a astronomia e a termologia).
     Quanto à conjectura de Goldbach, se ela é expressão de um teorema verdadeiro, sendo matemática, ela é necessária, mas se ela é uma verdade necessária é porque podemos saber disso a priori, mesmo que presentemente não o saibamos.

Exposição
O exemplo mais famoso de enunciado necessário a posteriori introduzido por Kripke é o da mesa de madeira a sua frente. Ele começa com a pergunta: poderia ela ter sido feita, desde o início de sua existência, da água congelada do Tâmisa? Certamente que não.  Ela seria um objeto diferente. Assim, o enunciado “Essa mesa, se ela existe realmente, não pode ser feita de gelo” mostra-se uma verdade necessária conhecida a posteriori. Mesas, diz ele, geralmente não são feitas de gelo, essa parece ser de madeira, não está fria, portanto provavelmente não é feita de gelo. Claro, pode ser um truque, sendo ela na verdade de gelo. Mas não é isso, diz Kripke, o que ele pretende. O que ele pretende é que dado o fato de ela não ser feita de gelo, mas de madeira, não se pode imaginar que ela poderia ser feita de gelo. Dado que ela não é feita de gelo, conclui ele, é necessário que não seja feita de gelo. Em outras palavras: sendo P = “Essa mesa não é de gelo”, sabemos a priori da verdade de “Se P então NP”. Ademais, sabemos por investigação empírica que P é verdadeiro. Juntando esses dois enunciados ele constrói o seguinte argumento usando o modus ponens:

     1  P → NP
     2  P                   
     3  NP

     É, pois, necessário que a mesa não seja de gelo, embora isso só seja conhecido a posteriori, pela investigação empírica.
 
Comentário
Minha dificuldade com este argumento diz respeito ao status epistemológico de P. A lógica trata da verdade de P abstraindo do fato de que P, como qualquer enunciado empírico, só pode ser conhecido e avaliado em seu valor-verdade quando considerado por sujeitos epistêmicos inevitavelmente falíveis. Mas esse não é o caso de nenhum enunciado de nossa vida real! Considerado em seu significado, naquilo que entendemos com ele, o enunciado P da segunda premissa poderia ser reescrito como (2’): “É praticamente certo (extremamente provável) que P”. Com efeito, tem de ser assim, pois só Deus, o sujeito epistêmico infalível e onisciente, poderia ter como absolutamente certa a verdade do enunciado P (atribuindo-lhe probabilidade 1). Deus poderia saber da existência factual de P, que é o mesmo que saber da verdade absolutamente certa de P, que seria então uma necessidade de re. Já quanto a nós, tudo o que podemos saber é que P é um enunciado praticamente certo, a dizer, extremamente provável (ou seja, com uma probabilidade muito próxima de 1), posto que nosso conhecimento empírico nunca é certo (é possível, por exemplo, que algum demônio enganador me faça crer que estou diante de uma mesa de madeira quando ela na verdade é de gelo, como o próprio Kripke admite). Consideremos agora a primeira premissa. Com ela o mesmo não pode ser feito. É compreensível a idéia de que, dado o fato de que P, daí se segue NP. Assim, o que P → NP diz é (1’) “Se é o caso que P, então é necessário que P”. Mais além, a apreensão epistêmica de que P é um fato dado só será possível para um sujeito epistêmico que tenha absoluta certeza de P. Assim, a primeira premissa poderia ser ainda reescrita como (1’’) “Se é absolutamente certo que P então é necessário que P”, mas não como (1’’’) “Se é praticamente certo (extremamente provável) que P então é necessário que P”, pois a mera probabilidade de P, não importa quão alta seja, não garante a necessidade de P. Admitindo, pois, substituir a premissa (1) por (1’’) e (2) por (2’) “É praticamente certo que P”, o argumento de Kripke se torna:

  1. Se é absolutamente certo que P, então é necessário que P.
  2. É praticamente certo que P.
  3. É necessário que P.

     Qual o status lógico desse argumento? Ora, ele é obviamente inválido, posto que o modus ponens não pode ser aplicado a 1 e 2. E ele continuará inválido mesmo se revertermos a primeira premissa a (1’) como “Se é o caso que P, então é necessário que P”, pois o antecedente não está dizendo o mesmo que (2’). O argumento de Kripke nada faz, portanto, para convencer-nos de que o enunciado “Essa mesa não é de gelo”, embora a posteriori, seja necessário. Ele é a posteriori e portanto contingente como era esperado. A impressão de que ele possa ser necessário advém do fato de que o enunciado “Se essa mesa é de madeira, então ela não é de gelo”, que é necessário e conhecido a priori, costuma entrar no raciocínio que conduz à conclusão de que a mesa não é de gelo. Eis a maneira como sujeitos cognoscentes humanos (e não divinos) são capazes de tornar razoável o argumento indicado:

  1. Se for praticamente certo que essa mesa é de madeira, então será praticamente certo que ela não é de gelo.
  2. É praticamente certo que essa mesa é de madeira.
  3. É praticamente certo que essa mesa não é de gelo.

   Como essa é uma formulação algo complicada, preferimos uma formulação elíptica do mesmo argumento, ou seja, dizemos apenas que 1) Se essa mesa é de madeira, então ela não é de gelo; 2) Essa mesa é de madeira, 3) Logo, essa mesa não é de gelo. Essa formulação usual é não obstante enganosa, pois nos sugere que argumentos como o de Kripke possam ser (humanamente) válidos.

Exposição
Outro caso de enunciado necessário e a posteriori é, segundo Kripke, o das identidades entre nomes, como “Hesperus é Phosphorus” e “Cícero é Túlio”. Estas são identidades empíricas, geralmente consideradas contingentes. Para Kripke elas são identidades entre designadores rígidos, o que as torna necessárias, posto que nos mais diversos mundos possíveis esses nomes irão se referir ao mesmo objeto, não sendo pois possível uma situação na qual Hesperus não seja Phosphorus ou em que Cícero não seja Túlio. Poderíamos, diz ele, ter identificado Hesperus e Phosphorus com dois corpos celestes distintos, mas nesse caso a frase “Hesperus é Phosphorus” teria um outro significado. Este seria o caso, por exemplo, se marcianos tivessem habitado a Terra e tivessem identificado Hesperus com Vênus e Phosphorus com marte. De modo similar, 2 + 2 = 4 seria falso se por 4 entendêssemos a raiz quadrada de -1. O mesmo se dá com a identidade “Cícero é Túlio”. Parece que esse enunciado é contingente porque por vezes aprendemos esses nomes com o auxílio de descrições como ‘o maior orador romano’, achando que identificamos o objeto por meio de propriedades contingentes quando na verdade tais nomes não são sinônimos de descrições, mas designadores rígidos.

Comentário
Também para essas identidades a resposta pode ser similar ao que já observamos anteriormente. Podemos convencionar a necessidade de dicto de Hesperus ser idêntico a Phosphorus com base em teorias hoje universalmente aceitas pelos astrônomos, admitindo tal necessidade sob o pressuposto da verdade dessas teorias: teremos então uma identidade necessária a priori. Mas com relação à totalidade potencialmente mutável de nossas crenças, essa é uma identidade contingente e a posteriori.
   Consideremos o último caso. Como é bem sabido, foi uma descoberta astronômica que Hesperus – o corpo celeste visto ao anoitecer – é o mesmo que Phosphorus – o corpo celeste visto ao alvorecer. É verdade que hoje sabemos que esses nomes se referem a um mesmo planeta, Vênus. Mas, embora seja extremamente improvável, é possível que se descubra que Hesperus não é Phosphorus, e que Phosphorus é na verdade outro astro. Não é logicamente impossível que os Deuses tenham produzido uma grande ilusão de conhecimento nas mentes humanas e que os planetas na verdade não passem de um enxame de pequenos vagalumes que a cada noite se reúnem para decorar a abóboda celeste... Nesse contexto, Hesperus teria localização diversa de Phosphorus quando visto olho nu, mas pareceria idêntico a Phosphorus quando visto pelo telescópio, não por ser um mesmo planeta, mas como resultado de enfeitiçamento.
     Alguém poderia aplicar aqui um argumento similar ao de Kripke com o fito de demonstrar a necessidade de re de que Hesperus = h seja o mesmo que Phosphorus = p:

     (h = p) → N(h = p)
     h = p
     N(h = p)

     O problema é que também aqui o modus ponens não se aplica, pois a identidade h = p expressa no antecedente da primeira premissa só implica em N(h = p) se ela for pensada como uma identidade certa, como objeto de certeza absoluta. Contudo, para tal ela precisaria ser descoberta, não pelo sujeito epistêmico humano, que por sua inevitável falibilidade é incapaz disso, mas por Deus, o sujeito epistêmico infalível e onisciente (o que certamente de nada nos adianta). Quanto à “h = p”, a segunda premissa, ela só pode ser, na relação com a totalidade de nossas crenças, uma hipótese empírica a dizer algo como “É praticamente certo (extremamente provável) que h = p,” o que mesmo assim não é absolutamente certo. A formulação seguinte demonstra o equívoco do argumento segundo o mesmo modelo:

       Se é absolutamente certo que h = p, então N(h = p).
       É praticamente certo que h = p.
       N(h = p)

     Note-se que a expressão ‘é absolutamente certo que’ pode ser substituída por ‘é o caso que’. Mesmo que a espécie de certeza absoluta requerida pela identidade da primeira premissa não seja acessível, é evidente que de “(h = p) → N(h = p)” e “É praticamente certo que h = p”, não podemos usar o modus ponens para derivar N(h = p).

Exposição
O próximo exemplo de Kripke diz respeito à identidade entre tipos de coisas. Considere o enunciado “Calor é movimento molecular”. Muitos pensam que essa é uma verdade a posteriori, pois é resultado de investigação científica empírica. Mas para ele essa é uma identidade necessária a posteriori, pois o calor (nos gazes) não pode ser outra coisa senão a energia cinética molecular média. Pode ser, diz ele, que a Terra viesse a ser habitada por seres que sentissem frio quando sentimos calor e vice-versa, de modo que calor não seria para eles idêntico a movimento molecular. Mas nem por isso calor significaria frio, pois o calor é entendido como o movimento molecular, tal como ele é sentido por nós. Para Kripke os termos ‘calor’ e ‘movimento molecular’ são designadores rígidos, o que torna a identidade entre eles necessária. Para ele o fato de o movimento molecular produzir a sensação de calor é usado para fixar a referência, tornando a identidade necessária; a ilusão de contingência se deve ao fato de que confundimos isso com o fato contingente de identificarmos o movimento molecular com a sensação de calor.

Comentário
Aqui também precisamos distinguir (a) a identidade entre calor e movimento molecular sob o pressuposto da termologia contemporânea e (b) a mesma identidade sob o pressuposto da totalidade de nossas crenças atuais. No primeiro caso, “Calor nos gazes = energia cinética média” é um enunciado de identidade necessário e a priori, pois nçao pode ser diferente. No segundo caso essa identidade se defronta com a falibilidade intrínseca de nosso conhecimento empírico, tornando a identidade contingente e a posteriori.
   Assim, imagine que por razões totalmente inesperadas quase toda a nossa química tenha de ser revisada e que se venha a descobrir que a melhor explicação para o calor é, com efeito, a de que se trata de um flúido inflamável semelhante ao calórico. Nesse caso será simplesmente falsa a identificação do calor nos gazes com o movimento molecular. Claro que a possibilidade dessa revisão é extremamente remota, mas não se trata de algo logicamente impossível. E se é logicamente possível que o calor seja idêntico a quantidades de calórico, então não é logicamente necessário que o calor seja movimento molecular e não o calórico. O erro cometido por Kripke consiste em confundir a necessidade empírica de identidade do calor com o movimento molecular com a necessidade conceitual que nela vemos sob o pressuposto da verdade da teoria termodinâmica, esquecendo-nos que essa teoria faz parte de nosso sistema total de crenças, o qual pode evoluir de modo a falseá-la, falseando com isso a identidade. Como já notamos, tal necessidade só pode ser de dicto, pois depende da postulação de alguma teoria para se afirmar. 
     Vejamos agora o que acontece se a necessidade for considerada de re. Nesse caso, como calor e movimento molecular são designadores rígidos e eles devem designar necessariamente a mesma essência, o seu argumento, chamando calor de C e movimento molecular de M Kripke poderia construir o seguinte argumento:

     (x) ((Cx = Mx) → N(Cx = Mx))
     (x) (Cx = Mx)
     (x) N(Cx = Mx)

   Contudo, presenciamos aqui o retorno sistemático da mesma dificuldade. A primeira premissa diz apenas que se é um fato que (Cx = Mx) então isso é necessário, ou então, de um ponto de vista epistêmico, que se for absolutamente certo que todo calor é movimento molecular, então é necessário que todo calor seja movimento molecular. Mas em qualquer dos casos, a identidade expressa na segunda premissa é alcançada por sujeitos epistêmicos falíveis com base em dois aspectos diferentes de uma essência a que temos todas as razões para crer que é a mesma, tratando-se outra vez de certeza prática. Ora, com base nas premissas “Se (é absolutamente certo que) Cx = Mx, então é necessário que Cx = Mx” e “É praticamente certo (extremamente provável) que Cx = Mx”, não podemos usar o modus ponens para concluir “É necessário que Cx = Mx”. A formulação que evidencia o equívoco é:

    (x) Se é absolutamente certo que (Cx = Mx) então N(Cx = Mx).
    (x) É praticamente certo que (Cx = Mx).
    (x) N(Cx = Mx)

   Vemos que o fato de C e M serem tratados como designadores rígidos não garante a identidade, pois eles podem designar rigidamente coisas diferentes.

Exposição
O último exemplo de Kripke concerne à teoria da identidade de tipos na relação mente-corpo, segundo a qual enunciados como “Dor é um estado cerebral tal e tal”, seriam descobertas científicas contingentes e a posteriori ainda por serem feitas. Mas, escreve Kripke, ‘dor’ e ‘estado cerebral tal e tal’ são aqui designadores rígidos, pois designam propriedades essenciais. Contudo, se é assim, o teórico da identidade está em papos de aranha, pois a identidade precisa ser necessária, o que se choca frontalmente contra o fato de que ninguém há de negar que é possível conceber que tenhamos dores sem termos os correspondentes estados cerebrais (podemos imaginar que ao abrirmos o crânio de uma pessoa nele encontremos apenas um punhado de palha). O teórico materialista, escreve Kripke, precisa defender que coisas que podemos imaginar na verdade não podemos imaginar, o que torna a teoria da identidade improvável. 
   
Comentário
Esse argumento parece-me claramente inconsistente. Se ele fosse correto teríamos de rejeitar também a identificação entre calor e movimento molecular, posto que podemos perfeitamente imaginar o calor na independência, por exemplo, da vibração molecular (calor nos sólidos), no caso em que a neve do pólo sul fosse mais quente do que as areias do Sahara.
     Afora isso, a objeção aqui é a mesma que no caso anterior: sob o pressuposto de uma teoria futura pode ser absolutamente certo e conseqüentemente necessário que a dor seja o mesmo que certo estado cerebral. Mas só os deuses pode saber disso com absoluta certeza. Para nós, sujeitos epistemológicos falíveis, essa identidade, ou (a) é necessária e de dicto e, portanto, a priori, ou (b) é contingente e a posteriori, posto que a sua constatação é capaz de espelhar apenas provavelmente a sua realização ontológica, a rigidez dos designadores nada tendo a ver com isso. Crer no contrário, como Kripke inadvertidamente faz, é atribuir à identidade epistemicamente suposta o mesmo status de uma identidade ontologicamente realizada que enquanto tal é incognoscível.







[1] Saul Kripke: “Identity and necessity”.
[2] Saul Kripke: Naming and Necessity.
[3] Ludwig Wittgenstein: Bemerkungen über die Grundlage der Mathematik (Suhrkamp: Frankfurt, 1984), p. 437..
[4] Um ponto central da filosofia de Karl Popper foi o de que não pode haver leis irrefutáveis na ciência empírica, posto que aquilo que a torna científica é o próprio fato de ela ser aberta à refutação empírica.

CLAUDIO COSTA: PHILOSOPHICAL TEXTS - TEXTOS FILOSÓFICOS



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CURRICULUM:



Professor of philosophy at the UFRN (Brazil). E-mail for contact: ruvstof@gmail.com

M.S. in philosophy at the IFCS (Rio de Janeiro, 1982). Ph.D. at the University of Konstanz (1990). Sabbatical stages of one year as a visiting scholar in the Hochschule fuer Philosophie, Muenchen (1995), University of California at Berkeley (1999), University of Oxford (2004) and University of Konstanz (2009-10).

AREAS OF INTEREST: All the central questions of philosophy.

MAIN PUBLISHED WORK IN ENGLISH: The Philosophical Inquiry (UPA: Langham 2002), "Free Will and the Soft Constraints of Reason" (Ratio 2006), "The Sceptical Deal with our Concept of External Reality" (Abstracta 2009), "A Perspectival Definition of Knowledge" (Ratio 2010), and "A Metadescriptivist Theory of Proper Names" (Ratio 2011); a corrected version of the ideas of the last paper are here presented under the title "Outline of a Theory of Proper Names". The best selection of papers in portuguiesih is Paisagens Conceituais (Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro 2012). A selection of papers published in English containing improved versions of the papers cited above is the book Lines of Thought: Rethinking Philosophical Assumptions (Cambridge: Cambridge Scholars Publishing, 2014).

CURRENT RESEARCH: I am presently working in a book to be called Philosophical Semantics. The aim of this book is not only to challenge the present externalist, causalist and anti-cognitivist mainstream in philosophy of language, but to provide an alternative view, trying to rescue some important ideas of the traditional philosophy of language.






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(2) REABILITANDO O VERIFICACIONISMO (do livro 'Cognitivismo semântico')





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REABILITANDO O VERIFICACIONISMO


O verificacionismo costuma ser visto hoje como uma relíquia da filosofia da primeira metade do século XX. Afinal, embora inicialmente defendido pelos filósofos do Círculo de Viena, parece que ele cedo se mostrou incapaz de resistir ao acúmulo de argumentos contrários, tanto de dentro quanto de fora do Círculo. Meu objetivo nesse capítulo é mostrar que o princípio da verificabilidade não está tão morto quanto geralmente se pensa. Ele encontra formas mais liberais e flexíveis do que as que os positivistas lógicos tentaram desenvolver, como, por exemplo, a forma proposta por Charles Sanders Peirce, que nunca foi refutada.[1] E uma dessas formas mais liberais e flexíveis é a do próprio Wittgenstein – que afinal foi quem primeiro teve a ideia que os membros do positivismo lógico tentaram então elaborar de diversas maneiras. Aqui, retornando à metodologia e assunções do próprio Wittgenstein, meu objetivo é apresentar alguns argumentos em defesa do que pode ser chamado de verificacionismo semântico, que consiste na sugestão de que o conteúdo epistêmico (cognitivo, factual, descritivo, informativo...) de frases declarativas deva ser constituido por suas regras de verificação.

A origem do verificacionismo semântico
Um primeiro ponto a ser lembrado é que, diversamente do que se costuma pensar a idéia de que o significado de um enunciado é o seu modo de verificação não se deve aos filósofos do positivismo lógico. O introdutor do princípio foi Wittgenstein, como os próprios membros do círculo de Viena sempre reconheceram.[2] Com efeito, se consultarmos a obra desse filósofo, veremos que ele já formulava o princípio em suas conversações com Waismann em 1929, mantendo-o em seus escritos na década seguinte. Além disso, não há sequer evidência explícita de que ele tenha mais tarde abandonado o princípio em troca de uma concepção puramente performativa do significado como função do uso, como pensam alguns. Afinal, é perfeitamente admissível que o verificacionismo e a vaga tese posterior de que o significado é função do uso sejam reconciliáveis. Afinal, Wittgenstein intercala os conceitos de uso, verificação e significado como se indicassem a mesma coisa em frases como:

Se você quer conhecer o significado de uma sentença, pergunte por sua verificação. Eu saliento o ponto de que o significado de um símbolo é seu lugar no cálculo, o modo como ele é usado.[3]

   Nessa leitura o significado é o modo de uso, que são regras de uso, o que inclui regras semântico-cognitivas, as quais, em se tratando de frases enunciativas, seriam regras de verificação.
   É sempre bom consultarmos o que disse o verdadeiro autor de uma idéia. Se compararmos o verificacionismo wittgensteiniano com o verificacionismo do Círculo de Viena, perceberemos que há contrastes marcantes. Um primeiro deles é que Wittgenstein não estava nem um pouco preocupado em utilizar esse princípio como uma arma para o combate à metafísica, como queriam os membros do círculo. O objetivo maior teria sido o de alcançar uma representação abrangente (übersichtliche Darstellung) pela elucidação de um princípio central, constituidor da função semântica de nossa linguagem representacional.
   Outra diferença marcante é que Wittgenstein não se preocupou em precisar seu princípio por meios formais, diversamente da maior parte dos membros do Círculo, particularmente Ayer e Carnap. Não estou objetando contra isso. O que me parece, contudo, é que um trabalho nessa direção precisaria ser antes respaldado por uma consideração suficientemente detida de como nossa linguagem natural realmente funciona, sendo facilmente concebível que a desconsideração desse ponto tenha precipitado distorções que acabaram por tornar o princípio aparentemente inviável.
     Uma vez dito isso quero começar examinando algumas considerações de Wittgenstein sobre o princípio da verificação. Depois irei examinar algumas famosas objeções ao princípio, no intuito de demonstrar que elas são bem mais frágeis do que parecem.

Verificacionismo wittgensteiniano
Eis algumas das declarações de Wittgenstein apresentando o princípio da verificabilidade:

Uma frase (Satz) que não se deixa verificar de modo algum não tem nenhum sentido (Sinn).[4]
São duas frases verdadeiras ou falsas sob as mesmas condições, então elas têm o mesmo sentido (mesmo que elas nos pareçam diferentes).
Determino sob que condições uma frase pode ser verdadeira ou falsa, então determino desse modo o sentido da frase. (Esse é o fundamento de nossas funções de verdade.)[5]
Para saber o sentido de uma frase, preciso conhecer um procedimento muito bem definido para saber se a frase é verificada.[6]
O método de verificação não é um meio, um veículo, mas o próprio sentido. Determino sob quais condições uma frase deve ser verdadeira ou falsa, assim determino o sentido da frase.[7]
O sentido de uma frase é o método de sua verificação.[8]

     O que chama atenção em declarações como essas é o seu caráter fortemente intuitivo. Elas parecem expor lugares comuns acerca de nosso uso linguístico, corroborando a sugestão wittgensteiniana de que teses filosóficas são triviais por explicitarem aquilo que todos nós sempre soubemos. Tais enunciados do princípio seriam, aliás, o que Wittgenstein chama de ‘frases gramaticais’, no caso enunciados explicitadores de regras que estão no fundamento das práticas linguísticas constitutivas de nossa linguagem factual. Parece aqui insurgir-se o pensamento de que se o significado epistêmico de nossas asserções não puder ser analisado em termos verificacionais, então não resta maneira alguma pela qual ele possa ser explicado.
    Há alguns pontos adicionais a serem notados. Um primeiro é que a regra ou procedimento ou método (combinação de regras) verificacional deve constituir a porção do conteúdo da sentença assertiva que tem sido chamada de sentido ou conteúdo epistêmico ou cognitivo ou descritivo ou informativo ou factual. Trata-se daquilo que Frege chamou de pensamento (Gedanke), que seria o portador primário do valor-verdade.
     Um segundo ponto que devo notar é que se o pensamento, o conteúdo epistêmico expresso pela frase assertiva, é o portador primário da verdade, e se o pensamento é a regra de verificação da frase, então, obviamente, a regra de verificação é o portador primário da verdade. Assim, dizer que uma frase declarativa éd verdadeira é uma maneira indireta de se dizer que o pensamento que ela veicula é verdadeiro, o que, por sua vez, é dizer que a sua regra de verificação, que é o pensamento, é verdadeira. Mais além, dizer que a regra de verificação é verdadeira nada mais é do que dizer que ela é efetivamente aplicável. Por outro lado, dizer que o pensamento, o conteúdo epistêmico, é falso, é dizer que a regra de verificação que o constitui não é efetivamente aplicável. Isso tem ao menos uma consequência interessante, pois quer dizer que a regra de verificação vem associada tanto à verdade quanto à falsidade do pensamento que constitui ou da frase que exprime, não sendo necessário recorrer a uma regra de falsificação, como alguns especularam.
     Aquilo a que a regra de verificação se aplica é o fazedor da verdade, que podemos chamar de fato.[9] Considere a frase “Frege era barbudo”. Aqui a regra de verificação se aplica a um fato no mundo, logo a frase é verdadeira. Considere agora o enunciado “Russell era barbudo”: aqui a regra de verificação não se aplica a nenhum fato no mundo, logo a frase é falsa. (Por ser assim torna-se claro que não existem propriamente fatos negativos: a frase “Russell não era barbudo” não se aplica ao fato negativo de ele não usar barba. Pois “Russell não era barbudo”  quer dizer o mesmo que “É falso que Russell era barbudo”, o que, por sua vez, deve querer dizer o mesmo que “A regra de verificação para a asserção ‘Russell era barbudo’ não se aplica a nenhum fato que a satisfaça”, ou seja, que o fato positivo de Russell ser barbudo não existe.)
     Outro ponto, acentuado por Wittgenstein, é que geralmente há uma variedade de maneiras de se verificar (ou falsificar) um enunciado, cada maneira constituindo um diferente aspecto do seu significado. Como ele notou:

A consideração do modo como o significado de uma sentença é explicado torna clara a conexão entre significado e verificação. Ler que Cambridge ganhou a corrida de botes, o que verifica “Cambridge venceu”, obviamente não é o significado, mas é conectado com ele. “Cambridge venceu” não é a disjunção ‘eu vi a corrida ou eu li o resultado ou...’ É mais complicado. Mas se excluirmos qualquer um dos meios de verificar o enunciado, nós alteraremos o seu significado. Seria uma infração de nossa gramática se nós excluíssemos da verificação algo que sempre acompanhou o significado. E se excluíssemos todos os meios de verificação, isso destruiria o significado. É claro que nem toda espécie de verificação é realmente usada para verificar “Cambridge venceu”, nem qualquer verificação proverá o significado. As diferentes verificações do vencer a corrida de botes ocupam diferentes lugares na gramática de “ter vencido a corrida de botes”.[10]

     Usando o vocabulário wittgensteiniano podemos dizer que a regra verificacional se aplica quando temos a cognição, a tomada de consciência de um fato. Essa cognição pode ser direta, pela satisfação de constelações criteriais de algum modo constitutivas do fato, ou indireta, pela satisfação de critérios que nos permitam inferir esse mesmo fato. A regra de verificação de uma asserção é complexa. Ela é como uma árvore cujas ramificações são sub-regras capazes de verificar o enunciado sob perspectivas as mais diversas. A passagem de Wittgenstein nos convida a fazer uma investigação pragmática precisa e detalhada da estrutura das regras de verificação em diferentes espécies de enunciados. Esse é um empreendimento importante que não foi pelo que me consta tentado. No que se segue quero limitar-me, porém, a responder às principais objeções ao princípio da verificabilidade assim entendido.
    
A objeção da inverificabilidade do próprio princípio
A primeira e mais notória objeção ao princípio da verificabilidade é que ele é auto-aniquilador. O argumento é o seguinte. O princípio da verificabilidade deve ser tautológico ou sintético. Tautológico, ou seja, analítico,[11] ele não pode ser, pois nesse caso ele seria não-informativo. Mas ele nos parece claramente informativo. Além disso, enunciados analíticos são auto-evidentes e a sua negação é incoerente, o que não parece ser o caso do princípio da verificabilidade. Por conseguinte, ele é sintético. Mas se é sintético, então ele precisa ser destituído de sentido, posto que quando tentamos aplicar o princípio da verificabilidade a ele mesmo, descobrimos que ele é inverificável. Como conseqüência, o princípio é destituído de significado pelos seus próprios standards...
     Positivistas lógicos tentaram contornar essa objeção respondendo que o princípio da verificabilidade de fato não possui valor-verdade, pois ele não passa de uma recomendação metodológica, de uma prescrição, de uma proposta.[12] A. J. Ayer defendeu essa idéia desafiando os seus ouvintes a apresentarem uma opção mais convincente... Todavia, um ouvinte teimoso de outra convicção poderia responder que simplesmente não sente a necessidade de optar por coisa alguma... Na verdade, a resposta de Ayer não parece apenas ad hoc. Ela vai contra a sugestão wittgensteiniana de que aquilo que estamos fazendo é tão somente analisar as intuições subjacentes à nossa linguagem natural em busca de princípios gerais nela embutidos. Por isso, impor à nossa linguagem uma regra metodológica que lhe seja alheia seria arbitrário e mesmo confusivo como meio de esclarecer o significado.
     Diversamente disso, minha sugestão é manter o insight original de Wittgenstein de que tal princípio nada mais deve fazer do que exprimir nosso entendimento do que é efetivamente caucionado pela linguagem cotidiana, de modo a formar uma frase gramatical expressiva de uma condição que de diversos modos precisa ser satisfeita pela totalidade de nossa linguagem factual. Ora, uma vez que admitimos que o princípio faz explícitas intuições lingüísticas pré-existentes, tornamo-nos autorizados a pensar que ele é analítico, ou seja, que ele consiste na afirmação de uma sinonimidade entre as expressões ‘significado ou conteúdo epistêmico de uma sentença declarativa’ e ‘o modo (ou os modos) como o o seu valor-verdade é estabelecido’. Assim, tomando p como uma sentença assertiva qualquer e entendendo a palavra ‘regra’ em um sentido que inclui combinações de regras (procedimentos, métodos), podemos definir o significado epistêmico de p através da seguinte proposição analítico-conceitual:

(Df.) Conteúdo epistêmico de p = a regra de verificação para p.

    Contra tal sugestão se poderia ainda ser objetado que, sendo analítico, o princípio de verificabilidade deveria ser não-informativo, devendo a sua negação ser incoerente, o que não é claramente o caso. Em busca de uma resposta gostaria de começar remontando a uma sugestão que pode ser encontrada em John Locke. Esse filósofo distinguiu entre conhecimento sensitivo (sintético ou empírico) e relações de idéias (verdades analíticas); as últimas, por sua vez, foram distinguidas como provendo conhecimento intuitivo ou demonstrativo.[13] As frases “Vermelho não é verde” e “Três é maior que dois” exprimem para ele relações de idéias intuitivas, pois são auto-evidentes e a sua negação é claramente contraditória. Mas nem todas as relações de ideias, as frases analíticas, são intuitivas. A frase “A soma dos três ângulos de um triângulo é igual a dois ângulos retos” exprime conhecimento demonstrativo, mas nem por isso deixa de exprimir uma relação de idéias, sendo (pelo que parece) uma frase analítica. O conhecimento demonstrativo é o que se baseia em demonstrações cujas premissas são constituidas por conhecimento intuitivo, ou seja, por verdades analíticas intuitivas. Por isso ele não pode ser realmente informativo, ainda que aparente sê-lo. A questão é: por que o próprio princípio da verificabilidade não poderia ser uma relação de ideias demonstrativa expressa por uma frase analítica?
     Contra essa sugestão, a objeção mais imediata é a de que o princípio da verificabilidade não pode ser demonstrativo no mesmo sentido de um teorema da geometria ou de uma demonstração em lógica. Afinal, em casos como os teoremas da geometria, é fácil atualizar os caminhos já pré-determinados que conduzissem à sua demonstração. Mas não há um caminho similar para se demonstrar o princípio da verificabilidade.
     A resposta surge quando comparamos o princípio da verificabilidade com enunciados que tal como ele nunca foram demonstrados e que não parecem à primeira vista demonstráveis, mas que através de análise acabam por se revelar verdades demonstrativas encobertas. Isso acontece, por exemplo, com enunciados complexos da linguagem ordinária, cuja verdade necessária não se revela de imediato, mas que a uma análise acabam por demonstrar-se tautologias analíticas. Eis um conhecido exemplo:

Uma mesma superfície não pode em toda a sua extensão ser vermelha e verde (ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto).

Esse enunciado não é analiticamente intuitivo. Na verdade ele já foi visto e até hoje é visto como um exemplo standard do que poderia ser um juízo sintético a priori.[14] Mas se considerarmos que é intuitivamente (analiticamente) verdadeiro que (i) cores podem ocupar superfícies, que (ii) duas cores diferentes não podem ocupar a mesma superfície e que (iii) vermelho e verde são cores diferentes, parece daí resultar o caráter analítico do enunciado de que uma mesma superfície não pode ser vermelha e verde. Eis como esse argumento pode ser melhor organizado:

1        Duas coisas diferentes não podem ocupar um mesmo lugar ao mesmo tempo.
2        Uma superfície delimita um lugar.
3        (1,2) Duas coisas diferentes não podem ocupar uma mesma superfície ao mesmo tempo.
4        Cores são coisas que ocupam superfícies.
5        (3,4) Duas cores diferentes não podem ocupar uma mesma superfície ao mesmo tempo.
6        Vermelho e verde são cores diferentes.
7        (5,6) O vermelho e o verde não podem ocupar uma mesma superfície ao mesmo tempo.

     Parece-me claro que as premissas 1, 2, 4 e 6 são (se pensadas no contexto adequado) intuitivamente analíticas. Por conseguinte, a conclusão também deve ser analítica, mesmo que não pareça.
     A sugestão que quero fazer é a de que também o princípio da verificabilidade seja uma verdade analítica demonstrativa encoberta não-trivial, podendo ter o seu caráter auto-evidente esclarecido através de uma elucidação de seus pressupostos. Eis minha maneira de chegar a isso:

  1. Sentidos (significados) são regras ou combinações de regras semânticas.
  2. Conteúdos epistêmicos são espécies de sentidos.
  3. (1,2) Conteúdos epistêmicos são regras ou combinações de regras semânticas.
  4. Enunciados expressam conteúdos epistêmicos (sentidos cognitivos, descritivos, factuais...).
  5. (3,4) Os conteúdos epistêmicos dos enunciados são regras ou combinações de regras semânticas.
  6. Regras semântico-cognitivas são regras criteriais (baseadas em critérios de aplicação).
  7. (5,6) O conteúdo epistêmico de um enunciado depende de regras cognitivas que são também criteriais, ou seja: regras cognitivo-criteriais.
  8. O conteúdo epistêmico de um enunciado depende dos modos de determinação de sua verdade.
  9. Os modos de determinação da verdade do enunciado são constituidos por meio de regras cognitivo-criteriais.
  10. (7,8,9) O conteúdo cognitivo do enunciado depende de regras criteriais que são modos de determinação de sua verdade.
  11. As regras cognitivo-criteriais determinadoras da verdade do enunciado constituem aquilo que chamamos de sua regra de verificabiliade.
  12. (10,11) O conteúdo ou sentido epistêmico do enunciado é constituido por sua regra de verificabilidade.

     Parece-me que as premissas 1, 2, 4, 6, 8, 9, 11 são claramente analíticas, embora as conclusões 10 e 12 não sejam claramente analíticas. Com efeito, as primeiras premissas se demonstram claramente analíticas se pensarmos que os sentidos (fregeanos) devem ser obviamente regras ou combinações de regras, se considerarmos que as asserções têm obviamente sentidos cognitivos dependentes de critérios, sendo as suas regras de significação regras cognitivo-criteriais que não podem ser outras que não as regras determinadoras do valor-verdade daquelas asserções, as quais decidimos chamar de regras de verificabilidade... Como as conclusões 10 e 12 decorrem de premissas analíticas elas também precisam ser analíticas. Como a conclusão 12 enuncia o principio da verificabilidade, este é um princípio analítico-conceitual quod erat demonstrandum.

A objeção do holismo verificacional
Uma objeção sofisticada é a proveniente da generalização da tese de Duheim feita por W. V-O. Quine. Segundo Quine, “nossos enunciados sobre o mundo externo não fazem frente à experiência sensível individualmente, mas em um corpo corporativo”.[15] A implicação anti-verificacionista disso é clara: como o que é verificado é todo um sistema de enunciados, e nunca um enunciado isoladamente considerado, não faz sentido pensar que o enunciado tem uma regra de verificação distintiva, intrínseca, que possa ser identificada com o significado que a ele atribuimos.
     Em meu juízo, se tomada de maneira suficientemente abstrata, a idéia de que nenhum enunciado se verifica independentemente de outros enunciados do sistema é perfeitamente correta (ficando em aberto quais e quantos); ela constitui o que poderíamos chamar de um holismo formal ou estrutural. Mas a conclusão insinuada por Quine de que a admissão deste holismo formal destrói o verificacionismo nada tem de segura, pois ela demanda que a admissão de um holismo formal implique em um holismo verificacional, ou seja, relativo aos procedimentos verificacionais concretos e às regras de verificação neles envolvidas. Mas é precisamente isso o que nunca acontece.
     Vejamos a questão mais de perto. A tese do holismo verificacional é inspirada no fato bem conhecido dos filósofos da ciência, de que enunciados observacionais sempre dependem da verdade de assunções ou hipóteses auxiliares para poderem ser verdadeiros. Isso é correto in abstracto; afinal, há uma maior ou menor interdependência entre nossos enunciados, que não podem adquirir valor-verdade em isolamento, o mesmo valendo para os enunciados observacionais. Contudo, se desse holismo formal ou abstrato se segue um holismo verificacional é outra questão. Em meu juízo, a tese de Quine é equívoca porque embora um sistema de enunciados no final das contas deva se confrontar como um todo com a realidade, os seus enunciados não se confrontam nem conjuntivamente nem simultaneamente com a realidade.
     Um exemplo bem conhecido pode esclarecer o que quero dizer. Sabemos hoje que Galileu descobriu a verdade do enunciado: (1) “Júpiter tem luas” pela observação telescópica. Seus contemporâneos, porém, desconfiavam dos resultados da observação telescópica. O aparelho poderia estar enfeitiçado etc. Mas filósofos da ciência hoje tem consciência de que eles não estavam de todo destituídos de razão. Pois uma assunção auxiliar para a aceitação da verdade do enunciado “Júpiter tem luas” é que o telescópio seja um instrumento confiável. Ao aperfeiçoar o telescópio Galileu certamente conhecia a lei da ampliação do telescópio, segundo a qual o poder de ampliação desse aparelho resulta do seu comprimento focal dividido pela distância focal da ocular. Mas para que essa assunção auxiliar fosse garantida, faltava ainda no tempo em que Galileu construiu o seu telescópio, a comprovação de outras assunções auxiliares, como as que constituem as leis da óptica.[16] Considere, por exemplo, a fundamental lei da refração, segundo a qual sen i / sen r = n2/n1. Essa lei só foi estabelecida em 1626 por Snell, enquanto as observações telescópicas de Galileu foram feitas em 1610. Ignorando as muitas outras hipóteses auxiliares também assumidas, a verificação feita por Galileu de que o planeta Júpiter tem luas pode ser apresentada como resultado do seguinte argumento indutivo:

  1. Observação telescópica de quatro astros orbitando Júpiter.
  2. (Lei da ampliação do telescópio)
  3. ((sen i / sen r = n2/n1))                       .                                                         
  4. Conclusão: O planeta Júpiter tem luas.

     Embora a premissa 3 tenha faltado para Galileu, ela reforça secundariamente o argumento. A falta da premissa 2 enfraqueceria ainda mais o argumento. Da consideração da inclusão dessas e de outras premissas constitutivas de hipóteses auxiliares comprovadas, o defensor do holismo verificacional conclui que o enunciado 4 não possui uma regra de verificação independente, constitutiva de seu conteúdo epistêmico.
     Mas há problemas com esse raciocínio! Primeiro, precisamos notar que esses enunciados não são conjuntivamente verificados: a inferência da conclusão 4 com base em 1 em boa medida pressupõe uma anterior verificação da premissa 2, que por sua vez em alguma medida pressupõe a verificação da premissa 3 (o que indiquei através dos parênteses). Depois, esses enunciados não foram verificados simultaneamente: Galileu verificou o enunciado 4 como conseqüência direta da verificação do enunciado perceptual 1, que se realizou pela observação diária que ele fez das variações das posições dos quatro astros alinhados ao redor de Júpiter... Contudo, isso não se deu simultaneamente à verificação dos enunciados 2 e 3. Ele foi posterior à verificação do enunciado 2 e se fosse feito por nós seria também posterior à verificação do enunciado 3, enunciados dos quais também depende a força indutiva da conclusão. Contudo, por serem pressupostas e anteriores, torna-se claro que as verificações de 2 e 3 podem ser separadas da verificação de 4 por 1. O procedimento verificacional do enunciado 4 se restringe ao requerimento da verdade do enunciado 1.
     Generalizando: se chamamos o enunciado a ser verificado de P, o enunciado observacional de O, e as hipóteses auxiliares de A, a estrutura de raciocíno própria do procedimento verificacional não é

     O
     A1 + A2... + An
     Logo P

Mas sim:

     O
     (assumindo a prévia verificação de A1 + A2... + An)
     Logo P

     Essa pressuposição de uma verificação prévia (maior ou menor) das hipóteses auxiliares pressupostas é o que faz toda a diferença, pois nos permite separar a regra de verificação de P, que associa P diretamente à observação associada a O, das regras de verificação das hipóteses auxiliares, que são assumidas como já tendo sido aplicadas.
     Além disso, podemos claramente distinguir aquilo que verifica cada hipótese auxiliar. Por exemplo: a lei da ampliação do telescópio pode ser verificada através de simples medições empíricas; e a lei da refração de Snell foi estabelecida com base em medições empíricas da relação entre variações do ângulo de incidência da luz e a densidade dos meios. Assim, embora seja verdade que em um nível formal e abstrato a verificação de um enunciado dependa da verificação de outros enunciados, ao nível dos procedimentos cognitivos concretos, a verificação dos enunciados auxiliares já vem pressuposta, o que nos permite isolar o procedimento ou regra verificacional inerente ao próprio enunciado em questão e identificá-lo com aquilo que fundamentalmente estamos querendo dizer com ele. Ou seja: como os diferentes enunciados auxiliares devem ser verificados em separado e anteriormente ao procedimento que verifica o enunciado, somos capazes de distinguir e individuar o que conta no procedimento em questão, a sua regra de verificação, o que torna o holismo formal inofensivo quando considerado como crítica ao verificacionismo semântico. Por confundir a estrutura formal envolvida com o procedimento verificacional concreto, instanciador da regra verificacional naquilo que lhe torna semanticamente relevante, o argumento de Quine produz a impressão equívoca de que a verificação enquanto tal deva ser um procedimento holístico e que por isso o significado do enunciado não possa ser identificado com uma regra de verificação.
     Finalmente, como cada enunciado tem um sentido que lhe é próprio, torna-se outra vez perfeitamente razoável identificar o sentido do enunciado com o seu modo de verificação, posto que ambos são individuados pelo próprio enunciado e não pelo sistema de enunciados. A conclusão inescapável é que o holismo verificacional não se sustenta, pois a simples admissão do holismo formal, isto é, do fato dos enunciados estarem sempre em alguma medida inferencialmente enovelados uns nos outros, não é suficiente para nos fazer concluir que as suas regras verificacionais não possam ser distinguidas umas das outras de modo a serem identificadas com os significados representacionais de seus respectivos enunciados.
     O exame do que acontece concretamente quando um enunciado é verificado nos mostra que mesmo assumindo um holismo formal, as regras ou procedimentos de verificação são distinguiveis umas das outras na mesma medida dos significados dos enunciados correspondentes – uma conclusão que apenas sugere a esperada correlação entre o significado como conteúdo cognitivo do enunciado e o seu modo de verificação.

O problema da assimetria existencial-universal
Outra objeção é a de que o princípio da verificabilidade só se aplica conclusivamente a frases existenciais, mas não a frases universais. Para verificarmos uma frase existencial como “Algumas peças de cobre se expandem ao serem aquecidas”, basta identificarmos uma peça de cobre que se expande ao ser aquecida; mas para verificarmos conclusivamente uma frase universal como “Todas as peças de cobre se expandem ao serem aquecidas”, precisaríamos vasculhar o universo inteiro, inclusive em seu futuro e em seu passado, o que é impossível. É verdade que a universalidade absoluta é uma ficção e que, quando falamos em frases universais, estamos sempre tendo em vista certo âmbito de aplicação. Mas ainda assim o problema permanece. Pois como o próprio caso da expansão do cobre exemplifica, o âmbito de aplicação costuma ser muito mais amplo do que tudo o que podemos efetivamente experienciar, impossibilitando uma verificação conclusiva. Assim sendo e também pelo fato de que as leis científicas costumam ter a forma de enunciados universais, ocorreu a alguns se perguntar se não seria melhor admitirmos que o sentido cognitivo das frases universais é constituido por regras de falsificação ao invés de regras de verificação; seria essa a resposta correta?[17]
      Penso que não. O problema é que, como já foi observado no início, não parece existir uma regra de falsificação do enunciado, assim como certamente não existe uma força desassertiva do pensamento, nem algo como uma regra de desidentificação do nome ou uma regra de desaplicação do predicado. Podemos, por exemplo, falsificar o enunciado “Todos os corvos são pretos” com a verificação do enunciado “Esse corvo é albino”. A regra de verificação desse último enunciado é tal que, se aplicada, falsifica o enunciado “Todos os corvos são pretos”. Mas se o significado do enunciado universal fosse uma regra capaz de falsificá-lo, e a regra de verificação do enunciado “Esse corvo é albino” é, quando aplicada, aquilo que falsifica o enunciado “Todos os corvos são pretos”, então parece que devemos admitir que o enunciado “Todos os corvos são pretos” é sinônimo de “Esse corvo é albino” (ou que o último seja ao menos parte do sentido do primeiro, uma vez que sua verificação o falsifica). Mas isso seria absurdo: a regra de verificação para corvos albinos não tem nada a ver com o significado da afirmação de que todos os corvos são pretos.
     Parece, pois, que devemos admitir que o significado do enunciado universal seja realmente a sua regra de verificação. Mas nesse caso parece inevitável o retorno do problema da inconclusividade da verificação desses enunciados. Não é necessário, porém, que seja assim. Minha sugestão é a de que a objeção da inconclusividade é falha, emergindo do fato de que há um sério engano em nosso reconhecimento usual da forma lógica dos enunciados universais. Basta um breve exame para mostrar que eles são simultaneamente probabilistas e conclusivos. Considere outra vez a frase:

     O cobre se expande ao ser aquecido.

 A sua forma não é:

Afirmo que é absolutamente certo que todas as peças de cobre se expandem ao serem aquecidas,

onde o ‘absolutamente certo’ significa ‘sem possibilidade de erro’. Essa forma seria apropriada para verdades formais como

      Afirmo que é absolutamente certo que 2 + 3 = 5,

 pois aqui não pode haver erro (exceto erro procedimental, o que deixamos fora de consideração). Mas essa forma não é apropriada a verdades empíricas sobre as quais não vige a certeza lógica resultante das próprias convenções conceituais adotadas. A forma lógica da frase em questão é outra. Ela é a da certeza prática expressa por

Afirmo que é praticamente certo que toda peça de cobre se expande ao ser aquecida,

onde ‘praticamente certo’ significa ‘com uma probabilidade suficientemente elevada para que a possibilidade de erro possa ser negligenciada’. Se aceitarmos essa paráfrase, uma frase como “O cobre se expande ao ser aquecido” se torna conclusivamente verificável, pois podemos claramente encontrar evidências indutivas protegidas por razões teóricas que tornem de modo conclusivo praticamente certo que todas as peças de cobre se expandem ao serem aquecidas. Em suma: a forma lógica de um enunciado universal não é “├ todo S é P” (usando o símbolo fregeano de asserção), mas:

     ├ é praticamente certo que todo S é P,

e enunciados dessa forma são conclusivamente verificáveis. Essa é mais uma razão para concluirmos que não há nada de errado em identificarmos o significado da frase universal com a sua regra de verificação.

A objeção da indireticidade
Outra objeção comum é a de que a regra de verificação de frases com conteúdo empírico exige tomarmos como ponto de partida observações diretas e intersubjetivamente possíveis dos fatos. Contudo, muitos enunciados não dependem da observação direta para serem verdadeiros, como é o caso de “A massa do elétron é de 9,109 . 10 Kgs elevados à trigésima primeira potência negativa”. Isso nos força a admitir que muitas regras de verificação são indiretas. Como escreveu W. G. Lycan[18], se não admitirmos isso seremos conduzidos a um instrumentalismo grotesco, no qual aquilo que é real será reduzido ao que é intersubjetivamente observado, não existindo mais coisas como eléctrons e suas massas... Mas se, por outro lado, admitirmos que há verificações indiretas, como decidir quais são as observações diretas e quais as indiretas? Não se trata de uma dessas distinções desesperadamente confusas?
     Outra vez, os problemas só emergem se embarcarmos na estreita canoa formalista do positivismo lógico e sairmos por aí atropelando a linguagem com exigências inadequadas. Nossas frases assertivas são proferidas em práticas lingüísticas, em jogos de linguagem. Por conseguinte, o critério para se distinguir a observação direta da observação indireta deve ser sempre relativo à prática lingüística que estamos tomando como modelo. Podemos ser confundidos pelo fato de que (i) nas práticas linguísticas observacionais cotidianas a verificação direta costuma ser considerada aquela resultante da observação virtualmente interpessoal de objetos sólidos, opacos e de tamanho médio, suficientemente próximos, sob iluminação adequada, por observadores em condições normais e com os sentidos desarmados... É assim que a presença da tela de meu computador, da mesa e da prateleira adiante são por mim verificadas. Por ser a forma mais usual de observação, essas práticas tendem a ser vistas como um modelo fundamental para a observação direta, a ser contrastado com, digamos, a observação indireta através de sintomas perceptualmente acessíveis, através de instrumentos óticos, através de espelhos etc. Mas seria um erro infeliz usar esse contraste para avaliar o que acontece em outras práticas linguísticas.
     Para contrastar quero considerar inicialmente (ii) a prática linguística do bacteriologista. Nessa prática o que está em causa é a descrição de bactérias vistas ao microscópio. Nela ver bactérias ao microscópio é o modelo da observação e verificação direta. Mas o bacteriologista pode dizer que verificou indiretamente a presença de um vírus devido a alterações que ele constatou nas células bacterianas que ele viu ao microscópio, usando como modelo de observação direta a observação microscópica. Ninguém dirá que as verificações do bacteriologista são todas indiretas, a não ser que tenha em mente o modelo de observação das práticas observacionais cotidianas, o que não seria nada usual. Mas até isso é possível dizer, contanto que esteja claro o modelo de comparação que estamos usando.
     Consideremos agora (iii) a prática linguística do paleontólogo. Nela a descoberta de restos fósseis será uma maneira direta de se verificar a existência desses seres em um passado remoto, posto que a observação ao vivo é descartada. Por comparação e contraste com esse modelo, o paleontólogo pode falar de verificações indiretas. Assim, se ele sugere terem vivido hominídeos em certo local apenas por ter encontrados lesões provocadas por instrumentos em ossadas fósseis de animais, essa constatação poderá ser considerada resultante de uma verificação indireta na prática paleontológica, em contraste com o encontro de restos fossilizados de hominídeos.  Claro que na prática linguística do paleontólogo – tanto quanto na prática linguística do bacteriologista – qualquer das verificações poderá ser dita indireta se comparada com as verificações que cotidianamente fazemos de objetos opacos de tamanho médio próximos a nós (modelo da prática (i)). Contudo, essa ambiguidade não costuma ser problemática, a menos que o contexto deixe dúvidas sobre o modelo de comparação que está sendo usado.
     Se a prática lingüística for (iv) a de descrever sentimentos, a verificação de uma frase pelo próprio falante será dita direta, ainda que subjetiva, enquanto que a determinação da verdade por outros, com base no comportamento, será geralmente tida (por não-behavioristas) como indireta. Não há aqui uma maneira fácil de comparar com a prática de observação de objetos físicos de tamanho médio para considerar qual delas é a mais direta, visto que elas pertencem a domínios verificacionais muito distintos.
     A conclusão é a de que quando consideramos o que realmente fazemos com as palavras vemos que não há nenhuma dificuldade real em se distinguir entre verificações diretas e indiretas, conquanto tenhamos clareza sobre a prática lingüística no interior da qual essa verificação está sendo considerada, ou seja, sobre o modelo de comparação escolhido. Basta que os falantes compartilhem entre si os pressupostos da prática lingüística em relação a qual o proferimento é avaliado e estejam cientes do modelo de comparação nela empregado para se tornarem capazes de alcançar acordo sobre se a verificação/observação é direta ou indireta.

Contra-exemplos empíricos
Outra espécie de objeção diz respeito a enunciados que possuem sentido, mas que não parecem possuir regra de verificação. Em meu juízo, esse tipo de objeção demanda consideração caso a caso.
     Considere, para começar, o enunciado “João era corajoso”, em uma circunstância na qual João morreu sem ter tido nenhuma oportunidade de demonstrar coragem, digamos, pouco após o nascimento. Se adicionarmos ao exemplo o pressuposto de que o único meio de verificar se João era corajoso seria pela observação de seu comportamento, esse enunciado se torna logicamente inverificável. Sendo assim, segundo o princípio da verificação esse enunciado não tem significado. Contudo, ele parece ser perfeitamente significativo!
     A resposta é que o enunciado “João era corajoso” nas circunstâncias consideradas apenas aparenta ter significado. Ele pertence ao conjunto dos enunciados que aparentam ter sentido cognitivo, mas não tem. No caso, trata-se de uma frase que possui um sentido gramatical, dado pela combinação do nome próprio não vazio com um predicado. Mas não temos (por suposto) critério para aplicarmos ou não o predicado. Assim, o enunciado não tem função na linguagem e nada é capaz de dizer. Ele faz parte do conjunto de enunciados tais como “O universo duplicou de tamanho essa noite” e “O mundo inteiro surgiu cinco minutos atrás”. Esses enunciados apenas aparentam ter algum sentido factual, pois possuem sentido gramatical e são capazes de sugerir imagens e produzir ilações em nossas mentes. Mas a rigor nada dizem.
     Wittgenstein considerou um caso paralelo em Sobre a Certeza. Considere a constatação “Você está diante de mim agora” feita ao acaso, em circunstâncias normais, por uma pessoa que se encontra diante de outra. Ele sugeriu que tal frase apenas aparenta ter sentido, dado que somos capazes de imaginar situações nas quais ela teria algum uso, alguma função na linguagem, por exemplo, uma situação em que estivesse tão escuro que fosse difícil ao interlocutor identificar o falante.[19] O mesmo se dá com a frase “João era corajoso”. Somos facilmente capazes de imaginar situações contrafactuais na quais ele teria ou não teria demonstrado coragem, preenchendo a frase de significado. Nas circunstâncias supostas, porém, o enunciado não possui sentido.
     O que dizer de enunciados sobre o passado ou sobre o futuro? Aqui também é necessário um exame caso a caso. Digamos que alguém afirme: “O Homem de Java viveu há cerca de 1,8 milhões de anos”. Esse enunciado sobre o passado foi plenamente verificado pelo crânio encontrado e por um seguro procedimento de datação. A verificação observacional direta de acontecimentos passados é fisicamente e praticamente impossível, mas ela não é parte da regra de verificação cuja aplicação nos garante a verdade do enunciado em questão. Podemos imaginá-la, mas ela não pertence ao que queremos dizer com a frase.
     Muito diferente é o caso de frases sobre o passado como “Sobre essa pedra pousou uma águia há exatamente dez mil anos” ou “Napoleão espirrou mais de 30 vezes enquanto esteve na Rússia”, ditas em situações nas quais não há nenhum meio prático de se verificar. Nesses casos a verificabilidade é, como se diz, apenas lógica; tal verificação não é praticamente realizável e pelo quanto sabemos não é sequer fisicamente realizável (não podemos voltar ao passado). Mas é difícil admitir que enunciados empíricos cuja verificabilidade é apenas lógica sejam verificáveis no sentido próprio do termo, no sentido de possuirem um significado epistêmico ou factual. Pode ser que a distinção entre verificabilidade lógica e empírica seja uma distinção entre níveis de verificabilidade que se pressupõem, correspondendo a níveis de significação. Mas se a verificabilidade de um enunciado pretensamente empírico for apenas lógica, ele será carente de conteúdo cognitivo. Não saberemos o que fazer com ele. Ele não será capaz de cumprir com a função própria de um enunciado empírico, que é a de representar um estado de coisas real ou possível.
   Algo semelhante pode ser dito de enunciados sobre o futuro, com a diferença de que a verificação direta é agora fisicamente possível. O proferimento “Daqui a 7 dias irá chover” é indiretamente verificável pela metereologia (que verifica conclusivamente o enunciado “Daqui a sete dias (provavelmente) irá chover”), mas será diretamente verificável em uma semana. O enunciado “Daqui a cerca de onze bilhões de anos (provavelmente) o sol irá se expandir e engolirá Mercúrio” pode ser ao menos indiretamente verificado com base no que sabemos do destino de estrelas como o sol. Já para uma frase como “O primeiro bebê a nascer em Montes Claros em 2040 será do sexo feminino” temos uma regra de verificação que só poderá ser aplicada no futuro e de forma direta, o que nem por isso a invalida enquanto tal. Esses enunciados não são apenas logicamente, mas também fisicamente e até mesmo praticamente verificáveis; o primeiro indiretamente e o segundo diretamente, mas em um tempo futuro. Vemos que não há uma fórmula geral e única para o procedimento verificacional. Parece que a espécie de regra de verificação exigida varia com o enunciado em sua inserção na prática linguística na qual ele é realizado, sendo geralmente a confusão entre casos diversos, pertencentes a práticas diversas aquilo que pode levar-nos a crer que existem enunciados que possuem sentido ou conteúdo epistêmico, mas que apesar disso são inverificáveis.

Contra-exemplos formais
É possível estender a aplicação da tese verificacionista aos enunciados formais da lógica, da matemática e da geometria. Nesse caso a regra verificacional é constituido pelos procedimentos (combinações de regras) formais que demonstram a sua verdade, acrescentando-lhe sentido representacional dentro do sistema formal no qual é considerado. A principal diferença com relação à verificação empírica é que no caso da verificação formal, dispor da regra de verificação já é o mesmo que aplicá-la, posto que os critérios a serem satisfeitos são os próprios axiomas já estabelecidos pelo sistema.
     Um muito falado contra-exemplo a essa sugestão é a conjectura de Goldbach. Essa conjectura costuma ser enunciada como

g = Todo número inteiro par acima de dois resulta da soma de dois números primos.

A objeção é a de que essa conjectura possui significado mesmo que nunca se tenha conseguido prová-la, mesmo que o procedimento verificacional formal para g não tenha sido ainda encontrado. Logo, o significado de f não pode ser uma regra de verificação!
     A resposta a esse argumento é fácil demais e advém da observação de que a conjectura de Goldbach não passa de mera conjectura. Ora, o que é uma conjectura? Não é uma afirmação, um teorema provado, mas o reconhecimento da plausibilidade de uma proposição. Assim, a verdadeira forma da conjectura de Goldbach é:

     É plausível que g.

Mas “É plausível que g”, melhor dizendo, “[Afirmo que] é plausível que g”, ou ainda (usando o sinal fregeano da asserção) “├ é plausível que g”, é algo diferente de

     Afirmo que g

 ou “├ g”, que é aquilo que poderíamos dizer se quisessemos enunciar o teorema de Goldbach, ou seja, a conjectura provada. Ora, a regra de verificação do reconhecimento do enunciado de plausibilidade é bem menos exigente do que a regra de verificação capaz de demonstrar g. Se nosso caso fosse o de “Afirmo que g”, a saber, uma afirmação ou tese ou teorema Goldbach, a regra de verificação exigida seria realmente o procedimento de prova do teorema. Mas nosso caso é

     [Afirmo que] é plausível que g,

no qual a regra de verificação consiste tão somente em um procedimento verificacional capaz de sugerir que g possa ser provada. Ora, esse procedimento verificacional, essa regra, de fato existe. Ela consiste simplesmente em considerar exemplos de números pares aleatoriamente dados, como 2, 4, 8 e verificar se eles podem resultar na soma de dois números primos, como (respectivamente) 1 + 1, 5 + 3, 17 + 7. E essa regra verificacional não só existe como tem sido aplicada até hoje, sem exceção, a todos os números inteiros pares considerados. Essa é a razão que realmente temos para sustentar a conjectura de Goldbach. Se uma exceção tivesse sido encontrada a conjectura ruiria; ela teria sido provada falsa, pois “├ ~g” é incompatível com

     [Afirmo que] é plausível que g.

     Assim, a conjectura é verificável e tem sido verificada. É realmente plausível que g seja o caso. O que não é verificável nem foi verificado é a afirmação de g, o teorema. Essa afirmação não faz realmente sentido, não possui conteúdo epistêmico, posto que ainda não dispomos de um procedimento matemático que a verifique. O erro consiste na confusão de uma suposição com uma afirmação, de uma conjectura com um teorema.
     Em resumo: que a conjectura de Goldbach, como afirmação de plausibilidade, tanto pode ser demonstrada verdadeira como também falsa. Ela é considerada verdadeira porque tem obtido comprovação constante. Ela será falsa se for encontrado um contra-exemplo: um número par acima de 2 que não resulte da soma de dois primos. A conjectura será falseada se for encontrado um caso de inaplicabilidade da regra verificacional que nos mande buscar sempre a soma de dois números primos de modo a resultar no número par em questão.
     Um caso contrastante é o do último teorema de Fermat. Eis como ele costuma ser formulado:

 f = não existem três números positivos x, y e z que satisfazem a equação “xⁿ + yⁿ = zⁿ” se n for superior a 2.

     Esse teorema já havia sido parcialmente demonstrado até que em 1995 Andrew Wiles conseguiu encontrar uma demonstração completa. Alguém poderia aqui objetar que mesmo antes de sua demonstração f já era chamado de ‘o teorema de Fermat’ e que, portanto, fazia sentido como teorema mesmo sem que tivéssemos uma demonstração...
     Mas essa seria uma objeção ingênua. Pois com ela esquecemos que ‘o teorema de Fermat’ é uma denominação fantasiosa. Chamamos f de teorema equivocamente, apenas devido ao fato de que antes de sua morte Fermat escreveu que tinha uma prova para ele, mas que não podia colocá-la no papel, já que a margem de seu caderno era muito estreita para cabê-la. (Hoje sabemos, aliás, que Fermat não poderia ter escrito isso a sério, visto que a matemática da época não lhe provia de meios para demonstrar a sua conjectura.) Seja como for, a verdade é que f não passava de uma conjectura da forma

     [Afirmo que] é plausível que f,

até que Wiles a demonstrou, só depois disso tornando-se realmente um teorema. Assim, antes de 1995 todo o sentido ou conteúdo epistêmico que podia ser dado a f era na verdade “[Afirmo que] é plausível que f”, uma conjectura que era demonstrada pelo fato de que nunca foram encontrados os números x, y e z capazes de satisfazer a equação. Já o sentido ou conteúdo epistêmico de f, melhor dizendo, “Afirmo que f” ou “├ f” (que muito poucos realmente conhecem) deve incluir a demostração encontrada por Wiles, que nada mais é do que a aplicação de uma extraordinariamente complexa combinação verificacional de regras. (Naturalmente, não podemos cair no erro de confundir o significado gramatical de f com o seu sentido epistêmico. Qualquer identidade absurda, mesmo “Cesar é um número primo”, tem um sentido gramatical.)
     Penso ter refutado os principais argumentos contra o verificacionismo. Os críticos do princípio acertavam em alvos errados pensando ter atingido o princípio da verificabilidade. O que eles atingiram foram as suas próprias malversações do princípio. Quando seguimos a metodologia de Wittgenstein, considerando como a linguagem natural é realmente usada de maneira a tornar seus enunciados significativos, vemos que os modos de verificação são múltiplos e variados. Mas a ideia fundamental de que o significado epistêmico de um enunciado consiste em seus procedimentos verificacionais permanece.





[1] Ver o estudo de C. J. Misak, Verificationism: History and Prospects, cap. 3. Para Peirce o verificacionismo era perfeitamente compatível com a metafísica, que ele via como uma espécie de saber empírico de maior amplitude. Misak é simpática ao verificacionimo de Peirce, que por sua ênfase pragmática se assemelha ao de Wittgenstein.
[2] Como nota Hans-Johann Glock em seu Wittgenstein-Lexikon: “o princípio foi primeiramente defendido pelo círculo de Viena, mas seus membros o atribuem a Wittgenstein, que o expôs a Waismann em conversações”, p. 354.
[3] A. Ambrose (ed.), Wittgenstein’s Lectures 1932-35 (Amherst: Prometheus Books, 2001), p. 29. Ou, como notou Moritz Schlick, “Enunciar o significado de uma sentença equivale a enunciar as regras de acordo com as quais a sentença é usada, e isso é o mesmo que enunciar o modo como ela pode ser verificada.” In Gesammelte Aufsätze – 1926-1936 (Vienna: Gerold & Co., 1938), p. 340.
[4] F. Waismann (ed.): Wittgenstein und der Wienner Kreis, p. 245.
[5] F. Waismann (ed.): Wittgenstein und der Wienner Kreis, p. 244.
[6] F. Waismann (ed.): Wittgenstein und der Wienner Kreis, p. 47.
[7] F. Waismann (ed.): Wittgenstein und der Wienner Kreis p. 244.
[8] F. Waismann (ed.): Wittgenstein und der Wienner Kreis, pp. 226, 227.
[9] Ver discussão sobre a natureza ontológica dos fatos no capítulo anterior.
[10] Wittgenstein’s Lectures, Cambridge 1932-5, p. 29.
[11] Entendo uma proposição analítica no sentido mais usual como sendo aquela cuja verdade decorre da combinação dos sentidos de suas partes constitutivas. Quine (em “Two Dogmas of Empiricism”) rejeitou esse conceito de analiticidade por este se basear no conceito demasiado vago de significado. Contudo, a vaguidade em si mesma não é um defeito, a menos que seja confundida com imprecisão. Vago ou não, o conceito de analiticidade cumpre aqui com a sua função de produzir uma definição perfeitamente inteligível e em enquanto tal irretocável (R. G. Swinburne: “Analyticity, Necessity and Apriority”, p. 228; ver também H. P. Grice e P. F. Strawson em “In Defense of a Dogma”).
     Também parece falaciosa a rejeição de Quine à sua própria tentativa de definir analiticidade através de sinonimidade e necessidade, em razão da excessiva proximidade semântica entre os vários conceitos envolvidos (significado, sinonimidade, necessidade...), o que produz, segundo ele, uma quase-circularidade na definição. Afinal, em nossas definições é natural e mesmo indispensável que os conceitos usados pertençam a um mesmo campo semântico. Cadeira, por exemplo, se define como ‘banco com encosto feito para uma só pessoa se sentar’, mas tanto o conceito de cadeira, como o de banco e o de encosto pertencem ao domínio da carpintaria e nem por isso essa definição é quase-circular.
[12] Essa posição foi aceita ou defendida por Rudolf Carnap, Hans Reichembach e A. J. Ayer (ver C. J. Misak: Verificationism: Its History and Prospects, pp. 79-80).
[13]  John Locke: An Essay Concerning Human Understanding, livro IV, cap. II, § 7.
[14]  Ver, por exemplo, Laurence Bonjour: In Defense of Pure Reason, p. 100 ss.
[15] W. V-O. Quine: “Two Dogmas of the Empiricism”, p. 41. Mais tarde Quine restringiu o seu holism, o que não altera a validade de meu contra-argumento.
[16]  Merrilee Salmon: Introduction to Logic and Critical Thinking, p. 276.
[17] Ver C. G. Hempel: “Problems and Changes in the Empiricist Criterion of Meaning”, Revenue Internationale de Philosophie 11, 1950, 41-63.
[18] W. G. Lycan: Philosophy of Language: A Contemporary Introduction, pp. 121-122.
[19] Ver Wittgenstein: Über Gewissheit, sec. 10.