terça-feira, 11 de março de 2014

CLAUDIO COSTA: TEXTOS DE FILOSOFIA ONLINE




DEAR READER!
THE AIM OF THIS PAGE IS TO MAKE MY WORK IN PHILOSOPHY ACCESSIBLE.
SOME OF THE 67 TEXTS WERE ORIGINALLY WRITTEN IN ENGLISH.
TEXTS WITH SOME INTEREST FOR RESEARCH ARE MARKED WITH "#". COMMENTS AND OBJECTIONS WILL BE WELCOMEN. MANY TEXTS ARE ONLY DRAFTS WITHOUT RELEVANCE, USED FOR DISCUSSION WITH STUDENTS.

PREZADO LEITOR!
O OBJETIVO DESSA PÁGINA É TORNAR ACESSÍVEIS MEUS TRABALHOS EM FILOSOFIA E ÁREAS AFINS PARA ESTUDANTES E INTERESSADOS. SÃO 71 TEXTOS POSTADOS DESDE 2012. O MEMORIAL CONTÉM RESUMOS DE QUASE TUDO O QUE É IMPORTANTE. TRABALHOS COM # PODEM TER ALGUM INTERESSE EM TERMOS DE PESQUISA. MUITOS TEXTOS SÃO ESBOÇOS USADOS PARA DISCUSSÃO EM SALA DE AULA, SEM MAIOR INTERESSE.
 AGRADEÇO POR COMENTÁRIOS E OBJEÇÕES.



CURRICULUM:
Associate professor of philosophy at the UFRNJ (Brazil). M.S. in philosophy at the IFCS (Rio de Janeiro, 1982). Ph.D. at the university of Konstanz (1990). Sabbatical stages of one year as a visiting scholar in the Hochschule fuer Philosophie, Muenchen (1995), University of California at Berkeley (1999), University of Oxford (2004) and university of Konstanz (2009-10).
Areas of interest: all the central questions of philosophy.
Main published work: The Philosophical Inquiry (UPA: Langham 2002), "Free Will and the Soft Constraints of Reason" (Ratio 2006), "The Sceptical Deal with our Concept of External Reality" (Abstracta 2009), "A Perspectival Definition of Knowledge" (Ratio 2010) and "A Metadescriptivist Theory of Proper Names" (Ratio 2011); a corrected version of the ideas of the last paper are here presented under the title "Outline of a Theory of Proper Names". The best selection of papers in portuguiesih is Paisagens Conceituais (Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro).
More developed versions of the papers listed above, among others, were recently published in the book called Lines of Thought: Rethinking Philosophical Assumptions (Cambridge: Cambridge Scholars Publishing, 2014).
One of my aims is to reestablish the internalist and cognitivist-descriptivist tradition concerning theories of reference. This is possible if we develop these theories is a more sophisticated form, able to answer the important challenges presented mainly by Kripke, Putnam and Kaplan. Moreover, I believe that contemporary philosophy of language has challenged our commonsensical intuitions too much. Hence, I would like to reestablish some old plausibilities, and show that they can be linked together in a sistematic way.



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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

ADVERTISEMENT FOR THE BOOK 'LINES OF THOUGHT'








LINES OF THOUGHT: RETHINKING PHILOSOPHICAL ASSUMPTIONS (Cambridge Scholars Publishig, 2014)...


is a highly innovative and powerfully argued book. According to the author, noted Brazilian philosopher Claudio Costa, many philosophical ideas that today are widely seen as old-fashioned and outdated should not be dismissed, but instead should be extensively reworked and reformulated. This also means that contemporary analytical philosophy should begin to question many of its most cherished views and reconsider some of the current ways of looking at philosophy. Following this path, in the philosophy of language, the author suggests replacing the causal-historical view of proper names with a much more sophisticated form of descriptive-internalist theory able to meet Kripke's challenges. In epistemology, he argues convincingly that we should return to the old traditional tripartite definition of knowledge, reformulated in a much more complex form in which Gettier's problem would disappear. The correct response to skepticism about the external world should not be to adopt new and more fanciful views, but rather to carefully analyze the different kinds of reality attributions implied by the argument and responsible for its equivocal character. In metaphysics, he argues for a more complex reformulation of the traditional compatibilist approach of free will, relating it intrinsically with the causal theory of action and making it powerful enough to assimilate the best elements of hierarchical views. Finally, according to the author, contemporary analytic philosophy suffers from a lack of comprehensiveness. In response to this, the papers in this collection restore something of a broader perspective, salvaging isolated insights by integrating them into more comprehensive views. The text is written in a clear and accessible style that meets the needs of not only professional philosophers, but also of contemporary students and laypersons.


REVIEWS:

Claudio Costa's book is an impressive contribution to important questions of analytical philosophy. Few philosophers have written on such difficult questions with a comparable lucidity and originality.
Guido Antônio de Almeida, Emeritus Professor of Philosophy, Federal University of Rio de Janeiro

This collection of philosophical essays covers many of the central problems of philosophy the nature of philosophy and of knowledge, how names refer to individuals, freewill, and consciousness. He reminds us of some of the major insights on these issues from the early years of linguistic philosophy and develops important objections to some more recent views about them.
Richard Swinburne, Emeritus Nolloth Professor of Philosophy, Oxford University


ABOUT THE AUTHOR:

Claudio Costa was born in Rio de Janeiro and received his PhD from the University of Konstanz, Germany. Since 1992 he has worked as a University Lecturer at the UFRN in Northeastern Brazil, keeping in touch with the international philosophical community through numerous sabbaticals at the universities of Berkeley, Oxford, Munich and Konstanz.

(Text from the back cover)

JOHN RAWLS E O ESTADO JUSTO


Observação: este é um rascunho rudimentar
 feito para discussão em sala de aula e com intenções introdutórias (Aulas, curso de graduação, Depto. Filosofia/UFRN)



JOHN RAWLS E O ESTADO JUSTO

                         Assim como em sua perfeição o homem é a  melhor
                         das criaturas vivas, sem lei e sem justiça ele é a pior
                         de todas.
                         Aristóteles


     Na competição entre as múltiplas formas de estado, os candidatos mais bem colocados têm sido o libertarismo (o estado mínimo, por alguns depreciativamente chamado de capitalismo selvagem) e o liberalismo igualitarista (o estado social-democrático, o estado do bem estar social).
     O estado libertarista é o do laissez faire, laissez passê. O seu princípio é o de que o estado deve respeitar ao máximo a liberdade dos cidadãos, entendida como o direito de fazerem o que quiserem, conquanto não infrinjam os direitos uns dos outros. Esse é o chamado estado mínimo, que deve intervir minimamente nas vidas de seus cidadãos, de modo a preservar as suas liberdades. Isso faz com que a função do estado não exceda a de garantir os direitos básicos dos cidadãos, como o direito à vida, à propriedade, à livre expressão, ou de garantir o cumprimento de contratos. O exemplo modelar do estado liberal é o do velho oeste norte-americano. Tudo é permitido, com exceção daquilo que infringe os direitos das outras pessoas, sendo a principal função a do xerife, que é a de impedir a violência, garantindo que as leis sejam cumpridas e evitando que bandidos violem os direitos das pessoas ao tomarem as suas propriedades ou as suas vidas.
     O estado libertarista, maximizando a liberdade dos cidadãos, pode ser excepcionalmente eficaz. Sendo ele um estado de livre concorrência, nele as pessoas mais hábeis têm a oportunidade de ascender, enriquecer e produzir riqueza. Como o estado tem muito poucas obrigações, não precisando gastar para auxiliar os cidadãos menos favorecidos, ele pode taxar menos, o que facilita ainda mais a produção. Contudo, o estado libertarista também tem o seu lado obscuro, pois o preço de sua eficácia é a desigualdade social. Junto aos poucos que conseguem vencer na competição, surge uma massa de perdedores que caem na pobreza, quer seja por alguma inabilidade ou simplesmente pela má-sorte. (Os Estados Unidos, como o país que mais bens produz, mas que ainda assim tem mais de 20 milhões de pessoas vivendo na pobreza, serve um pouco como um exemplo das vantagens e desvantagens do estado libertarista.)
     A alternativa razoável para o estado libertarista é o estado liberal-igualitário ou liberal, que na Europa foi chamado de estado social-democrata, voltado para o bem-estar dos seus cidadãos. No estado liberal preza-se a liberdade dos cidadãos, mas não a ponto da indiferença à injustiça social supostamente resultante da falta de superestrutura reguladora do estado libertarista. Se a livre competição produz um injusto desnivelamento de riquezas, o estado liberal-igualitário deve prover uma compensação para isso, na medida em que protege os mais desfavorecidos, provendo-lhes de auxílio desemprego, estudo gratuito, assistência de saúde etc. Afora isso, o estado deve prover igualdade de oportunidade dos mais pobres com os mais ricos, permitindo aos primeiros, em princípio, ascender socialmente, o que na prática significa subsidiar as possibilidades de ascensão. Exemplos de estados que se aproximaram desses ideais liberal-igualitários têm sido os países nórdicos, e o exemplo modelar – para fazer contraste com a sociedade do velho oeste – é o de uma comunidade alternativa como a dos Amishes, dentro da qual cada pessoa divide livremente com outras uma parte dos frutos do seu trabalho.
     Obviamente, tal estado não é tão eficaz em termos de produção quanto o estado liberal. As taxações são altas, o que encarece a produção. Mas isso não significa que ele não seja idealmente superior.

     O estado justo
     Qual é o estado justo? Como legitimá-lo? Em seu livro intitulado Uma Teoria da Justiça, provavelmente o maior clássico da filosofia política do século XX, comparável ao Leviatã de Hobbes, John Rawls idealizou uma experiência em pensamento que parece demonstrar a maior racionalidade da forma liberal-igualitarista de estado. Ele pensa que quando avaliamos a sociedade a que gostaríamos de pertencer, nossa preferência se torna pessoal, pois é influenciada por nossa profissão, nosso status social, nossos preconceitos, o que nos torna incapazes de escolher uma sociedade justa. Mas há uma maneira de avaliarmos a sociedade na qual gostaríamos de entrar que ao mesmo tempo a identifica como sendo justa. Para chegar a isso, Rawls começa pedindo para nos imaginarmos no que ele chama de uma posição original, que no caso é aquela em que nos encontramos prestes a entrar em uma sociedade cobertos pelo que ele chama de “véu da ignorância”. Sob esse véu não sabemos nem em que situação entraremos na sociedade, nem como seremos quando isso acontecer. Não sabemos, pois, se nela entraremos ricos ou pobres, homens ou mulheres, jovens ou velhos, brancos ou negros, inteligentes ou tolos... Nesse caso – assumindo que preservamos nosso conhecimento da natureza humana e do mundo social – em que sociedade preferiríamos entrar? A resposta, para Rawls, é que nesse caso preferiríamos entrar em uma sociedade justa, na qual nossos ganhos só são maximizados sob o pressuposto de um mínimo de perdas, segundo o princípio maximin da teoria da escolha[1].
     A experiência em pensamento de uma escolha feita a partir da posição original demonstra a sua força quando consideramos os princípios que Rawls consegue dela deduzir[2]. O primeiro é o princípio da liberdade:

(1): Cada pessoa deve ter igual direito ao mais extenso sistema total de liberdades básicas iguais, compatível com um sistema similar de liberdades para todos.

      Em suma: a liberdade de cada indivíduo deve ser a mais extensa possível, conquanto não haja interferência entre as suas liberdades, pois, como se costuma dizer, nossa liberdade termina onde começa a do próximo. Esse princípio garante a liberdade até mesmo de intolerantes como nazistas e racistas, conquanto eles não comecem a interagir com as outras pessoas de maneira a diminuir-lhes a liberdade. Ora, aplicando a experiência em pensamento proposta por Rawls, vemos que o princípio da liberdade é bem fundado, pois uma pessoa sob o véu da ignorância escolheria sempre entrar em uma sociedade livre, com receio de vir a pertencer a uma facção que tivesse direitos diminuídos, que fosse discriminada, ou perseguida.
     O segundo princípio de Rawls é concernente à regulação das desigualdades sociais e econômicas. Ele consiste, na prática, em dois princípios. O primeiro é o da diferença, que afirma o seguinte:

(2a) Desigualdades sociais e econômicas devem ser toleradas apenas sob a condição de trazerem maiores benefícios aos membros mais desfavorecidos da sociedade.


     Assim, uma sociedade igualitária que produz uma população muito pobre, embora igual, não é mais justa do que uma sociedade desigual, mas que por isso permite que os seus membros mais pobres sejam menos pobres do que os da primeira (pensar diversamente seria demonstração de inveja). Também segundo o princípio da diferença, uma pessoa que possui bens e posição privilegiada só pode ser admitida em uma sociedade justa se a sua situação reverter em vantagens para os desfavorecidos. Também parece que, encontrando-nos sob o véu da ignorância, preferiríamos entrar em uma sociedade na qual esse princípio fosse válido.
     O segundo princípio é o da igualdade de oportunidades, dizendo-nos que:

(2b) Desigualdades sociais e econômicas associadas a cargos ou funções só podem existir se eles estiverem abertos a todas as pessoas em condições de honesta igualdade de oportunidade.

     Isso significa, por exemplo, que o estado deve prover para que alguém que nasceu na favela tenha as mesmas oportunidades para cursar uma universidade do que pessoas economicamente bem situadas. Claro que, sob o véu da ignorância, preferiríamos entrar em uma sociedade em que vigorasse a igualdade de oportunidade, pois poderíamos ter a esperança de mudar a nossa sorte no caso de começarmos de uma situação socialmente desvantajosa.
     Embora a sociedade justa concebida por Rawls possa não existir de fato, ela pode ser aproximada, parecendo claro que a sociedade liberal de estrutura social-democrata, na qual o estado regula a economia no interesse de todos, provê serviços de welfair e tenta alterar a distribuição de renda em nome da justiça social, é mais propensa a satisfazer tais princípios do que a sociedade libertarista: sob o véu da ignorância preferiríamos entrar na sociedade comunitária a entrar na sociedade do velho oeste. Mas será que todos concordariam? Padrões de racionalidade diferem, e com eles os da escolha. Como reagiria um apostador, o tipo de pessoa que não segue o princípio maximin, não se importando em arriscar alto, mesmo que seja para perder tudo? Uma resposta é que a escolha feita a partir da posição original é muito mais decisiva do que as escolhas da vida cotidiana. Ela é única e válida para sempre. Quem a faz compromete toda a sua vida. Por isso, so um apostador bastante irracional estaria disposto a correr riscos tão altos. Como a condição de racionalidade é para ser preservada na posição original, essa possibilidade fica excluída.



Bibliografia:
Brown, C. (1995): “International Political Theory and the Idea of World Community”, in International Relations Theory Today, K. Booth and S. Smith (eds.) Pennsylvania: The Pennsylvania State University Press.
Einstein, A. (1946): “Toward a World Government””, in Out of My Later Years: The Scientist, Philosopher and Man Portrayed Through His Own Words, New York: Wings Books (1956).
Habermas, J.(1998): “Kant’s Idea of Perpetual Pace: At Two Hundred Years’ Storical Remove”, in The Inclusion of the Others, C. Cronin e P. De Greiff (eds.), Cambridge Mass: MIT Press.
Hobbes, T. (1651): Leviathan, Markham: Penguin (1986).
Kant, I.(1983): Zum Ewigen Frieden: Ein philosophischen Entwurf  Darmstadt WDB, vol. 9, p. 208 ss, (BA 28-36).
Lu, C.(2006): “World Government”, Stanford Encyclopedia of Philosophy (internet).
Nielsen, K. (1988): “World Government, Security and Global Justice”, in Problems of International Justice, Steven Luper-Foy (ed.), Boulder: Westview, 263-282.
Nozick, R.(1974): Anarchy, State and Utopia New York: Basic Books 1974.
Rawls, J.(1971): A Theory of Justice, Harvard University Press: Cambridge Mass.
Rawls, J. (1998): The Law of Peoples (Harvard University Press: Cambridge Mass.
Young, I. M. (2002): Inclusion and Democracy Oxford: Oxford Universiy Press.
Wendt, A. (2003): “Why is a World State Inevitable? Teleology and the Logic of Anarchy”, European Journal of International Relations, 9, 4.




[1] O princípio maximum minimorum nos diz que devemos atentar primeiro para o curso de ação que oferece menor desvantagem e só então, dentro dele, escolher a alternativa mais vantajosa.
[2] Passo por alto a questão de saber em que extensão os princípios são corretos, passando a pressupô-los no argumento que se segue. Devo lembrar, porém, que há toda uma literatura crítica acerca disso, a começar pelo seu contraponto libertarianista, que foi o livro de Robert Nozick Anarchy, State and Utopia.
 [3] Eis porque Kant rejeitava a idéia de um estado mundial, colocando em seu lugar uma federação de estados livres unidos na preservação da paz. Ver Immanuel Kant: Zum Ewigen Frieden: Ein philosophischen Entwurf, p. 208 ss, (BA 28-36).
[4] O próprio Rawls, seguindo Kant, tem reservas sobre a vantagem de um suposto estado mundial, que para ele seria ou despótico ou frágil demais, preferindo a idéia de federação. J. Rawls: The Law of Peoples, p. 36.



PALPITE SOBRE A ONTOLOGIA DAS ENTIDADES MATEMÁTICAS

Rascunho para discussão em sala de aula – C. F. Costa – Aulas, graduação depto. filosofia, UFRN


PALPITE SOBRE A ONTOLOGIA DAS ENTIDADES MATEMÁTICAS



     Um importante problema da filosofia da matemática é aquele concernente ao status ontológico de suas entidades, além da questão epistemológica da possibilidade de sua apreensão cognitiva. Ambos se encontram intrinsecamente associados.     Para começar podemos considerar duas posições aproximadas: o instrumentalismo e o convencionalismo. Segundo o instrumentalismo, o conhecimento matemático não é sobre coisas e suas relações. A matemática é um instrumento útil, mas não deveria ser entendida como referente a objetos matemáticos. Já segundo o convencionalismo, as verdades matemáticas são sobre como acordamos falar. Ou seja, estabelecemos convenções que mostram certas asserções matemáticas como verdadeiras e outras como falsas; mas isso não quer dizer que elas se refiram a algum objeto.      Uma alternativa oposta às consideradas acima é o realismo, seja ele platônico ou não. Para o realismo as proposições da matemática são sobre alguma coisa, embora não sejam sobre coisas físicas como cadeiras e mesas. Assim, números, conjuntos, funções, seriam objetos existentes, embora, diversamente dos objetos físicos, eles sejam atemporais e causalmente ineficazes.     Todas essas posições são problemáticas. O platonismo encontra dificuldades, por exemplo, relativas à dificuldade que temos de compreender como é possível o acesso epistêmico a entidades causalmente ineficazes, que não são espacialmente nem temporalmente localizáveis. Quanto ao instrumentalismo e ao convencionalismo, fica difícil entender, respectivamente, a eficácia do instrumento e a razão da convenção quando se sustenta que a matemática não é sobre coisa alguma.     Para sair desse impasse, uma alternativa seria considerarmos objetos matemáticos entidades empíricas. Quando estamos diante de um tomate, sabemos que se trata de somente um objeto. Quando nos é dado um conjunto de dois, três, quatro, até seis objetos, somos capazes de perceber de um relance quantos objetos temos diante de nós. Essa é uma capacidade que até os animais são capazes de possuir. Como conseqüência, há quem tenha sustentado que objetos matemáticos são realidades empíricas.     Todavia, essa é uma visão bastante crua. Embora os dois sapatos que estou usando instanciem o número dois, eles não são o número dois. Pois o número dois não depende da existência do meu par de sapatos para existir.     Uma solução mais sofisticada, embora de fundo realista, foi proposta por Michael Resnick. Segundo esse autor, as entidades matemáticas são modelos (patterns) que podem ser exemplificados ou instanciados. As instanciações são perceptíveis pelos sentidos. Assim, sei que um cão tem apenas três patas porque as vejo e tenho uma apreensão sensível imediata desse número de patas. Mas os modelos não são apreensíveis dessa maneira. Eles são abstraídos das experiências de suas instanciações.     A ideia tem seu apelo, pois uma criança aprende a contar e a adicionar números primeiro com base em objetos físicos que vê, para depois aprender a fazê-las na abstração da existência de tais objetos.Sendo uma espécie de adaptação do realismo ao caso dos objetos matemáticos (os modelos estão no lugar das idéias platônicas ou das formas aristotélicas), a sugestão de Resnick parece nos reconduzir às dificuldades já mencionadas anteriormente. Como podemos abstrair da experiência sensível algo que a transcende completamente, que entidades imutáveis e atemporais são essas chamadas de modelos?     A melhor alternativa me parece ser a de interpretar os modelos, as entidades matemáticas abstraídas, ainda em termos empiristas. Quais as razões pelas quais tendemos a não admitir que os modelos sejam entidades empíricas? Não há muitas, à exceção do horror mundi dos matemáticos. A principal delas é que as entidades matemáticas não têm a espécie de contingência de suas exemplificações. Se o inseto de oito patas perde uma delas o número oito não irá desaparecer por isso; esse número é independente de quaisquer coisas que o exemplifiquem.     Mas considere a questão: se o mundo não existisse, existiriam números? Nossa tendência diante dessa impalpável questão é responder que não. Em outras palavras, embora exista uma independência do número em relação à realidade empírica, ela não exige considerarmos o número como algo que vá além dela. Basta para tal considerarmos a entidade matemática em termos de um caso qualquer empiricamente dado ou qualquer outro caso idêntico a ele, mas não como não exigindo coisa alguma empírica, a menos em nossa imaginação. Mesmo que o inseto de oito patas perca uma delas restará ainda um número indeterminado de exemplificações do número oito no universo. Com isso, embora nunca venhamos a sair do mundo empírico, nós ainda assim teremos estabilidade suficiente para não depender de contingências empíricas para que as entidades matemáticas existam. Considere, por exemplo, o número um: só se o mundo não existisse esse número não existiria; ele é, portanto, de certo modo permanente, eterno, imutável... sem para isso demandar o recurso a alguma espécie de realismo extra-mundano acerca de entidades abstratas.    Essa maneira de ver a natureza ontológica das entidades matemáticas é compatível com a teoria dos tropos. Números são tropos, embora não estejam no mesmo nível das qualidades empiricamente dadas como este azul, pois dependem delas para a sua exemplificação.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

TEORIA DOS TROPOS: A MAIS PLAUSÍVEL ONTOLOGIA

 Esse é um draft é bastante rudimentar e demanda correções, mas espero que possa ter alguma utilidade introdutória!



A TEORIA DOS TROPOS E A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER

                                  Qualquer mundo possível e, é claro, o nosso,
                                  é totalmente constituído de seus tropos.
                                   D. C. Williams




     Há uma variedade de nomes para o tema desse artigo: instâncias de propriedades, propriedades concretizadas, qualidades particularizadas, acidentes individuais, bites de qualidades, particulares abstratos, momentos, e ainda outros. Mas o mais usual é a palavrinha tropo, que pelo menos tem a vantagem de ser pequena.
     A teoria dos tropos é uma aquisição ontológica bastante recente. Embora o conceito de tropo tenha existido no mínimo desde Aristóteles, somente nos últimos cinqüenta anos filósofos tiveram a idéia de tomar os tropos como as pedrinhas de construção ontológicas fundamentais do mundo, tentando resolver os tradicionais problemas dos universais e da natureza dos particulares concretos somente através deles[i]. De fato, meu palpite é o de que a teoria dos tropos é tão revolucionariamente simples em seus aspectos fundamentais, que ela poderá ser capaz de produzir em ontologia uma revolução similar à introdução de novas teorias fisicalistas na solução do problema mente-corpo na segunda metade do século vinte. Infelizmente, como as novas teorias da relação mente-corpo, a teoria dos tropos tem se subdividido e ramificando em variedades crescentes de esquemas explicativos, cada um tendo por finalidade realizar ao seu próprio modo a difícil tarefa de pesar valores ontológicos quase imponderáveis. No que se segue, ao invés de empreender o árduo trabalho de discutir as alternativas, escolherei o caminho mais fácil de introduzir e discutir opiniosamente algumas idéias mais fundamentais.

     Introduzindo Tropos
     Primeiro: o que são tropos? Tropos são primitivos, e como tais, eles não podem ser propriamente definidos. No entanto, a coisa mais fundamental sobre os tropos é que eles são propriedades localizadas no espaço e no tempo, entendendo-se o termo ‘propriedade’ no mais amplo sentido possível, o qual inclui relações e espécies naturais. Exemplos de tropos podem ser a cor vermelha da torre Eiffel, a sua forma, o seu peso, a sua dureza, a sua altura etc. Outros tropos são o grito de um hipopótamo particular chamando a fêmea e o odor particular exalado por uma margarida. Tropos diferem de particulares concretos como a torre, o hipopótamo e a margarida. Mesmo assim eles são particulares, posto que estão localizados no espaço e no tempo. Tropos são usualmente compostos de tropos, e algumas composições de tropos são altamente complexas, como, por exemplo, uma performance da quinta sinfonia de Beethoven. E tropos podem ser objetos de percepção seletiva: ao olharmos para o oceano podemos nos concentrar alternativamente em sua cor, nas formas de suas ondas, ou em seus sons.
     Como todos os particulares, tropos têm condições de identidade. Parece que a condição de identidade fundamental é a sua localização espaço-temporal sob certo modo epistêmico de acesso e avaliação. Por exemplo: o par de sapatos que eu estou usando agora é marrom. A propriedade do sapato direito de ser marrom é um tropo, uma vez que está localizada em meu sapato direito, e a propriedade do sapato esquerdo de ser marrom pode ser considerada outro tropo, uma vez que está localizada em meu sapato esquerdo.  Como os sapatos têm diferentes localizações espaciais, temos ao menos dois tropos de marrom. A maciez do couro de meu sapato esquerdo é também um tropo que tem mais ou menos a mesma extensão de sua cor marrom. Isso significa que esse marrom e essa maciez são o mesmo tropo? Não, posto que eles são perceptualmente acessados de modos diferentes, no caso, por sentidos diferentes. Para a próxima questão de saber o quanto o tropo de marrom do meu sapato esquerdo pode ser subdividido, uma resposta razoável seria: até onde ainda formos capazes de distinguir a cor marrom. Quanto tempo o tropo de marrom do meu sapato esquerdo irá durar? Provavelmente não mais do que o próprio sapato. Um tropo dura enquanto ele permanecer essencialmente o mesmo sem deixar de manter a sua continuidade espaço-temporal.
     Menciono essas coisas porque um entendimento inadequado das condições de identidade dos tropos, pode facilmente dar azo a tentativas de desacreditar a noção, empurrando a precisão para além dos seus limites contextualmente razoáveis. A vaguidade de nossas condições de identidade para os tropos é produto de nossas práticas lingüísticas, sendo tais condições fortemente baseadas em convenções e apenas suficientemente precisas para servirem aos nossos propósitos.
     Como os tropos estão localizados no espaço e no tempo, eles são particulares que existem no mundo. Pois existência é a comprovadamente contínua aplicabilidade de um predicado a um particular, que no caso do tropo é uma propriedade espaço-temporalmente localizável. Alguns tropos podem ser experienciados de forma isolada, por exemplo, o perfume da margarida, o som do vento. Outros não. Tropos visuais e táteis, por exemplo, devem ter alguma forma, e todos os tropos devem ter alguma duração no tempo.
     São formas espaciais e durações temporais tropos? Bom, essas coisas não parecem poder existir sem estarem associadas com tropos, uma forma com uma cor, um volume com o seu peso, uma duração no tempo com um agregado de tropos persistindo em sua existência etc. Keith Campbell, discordando de D. C. Williams, não admite que formas sejam tropos, devido a sua dependência de outros tropos. Mas isso parece insuficiente. Afinal, por que os limites espaciais e temporais dos tropos não poderiam ser tropos, se eles também são descritíveis como propriedades espaço-temporalmente localizáveis? Chamemo-los, pois, de tropos limitadores.

     Tropos e universais
     A teoria dos tropos é importante porque promete uma nova solução para pelo menos dois perenes problemas ontológicos: o problema dos universais e o problema dos particulares concretos.
     Começo com o problema dos universais, que ontologicamente colocado se entende como a questão de se saber como é possível que muitos particulares diferentes possam compartilhar da mesma propriedade, e lingüisticamente colocado se entende como a questão de como podemos aplicar o mesmo predicado a muitos particulares diferentes. Filósofos realistas sugeriram que isso só é possível porque um predicado designa um universal, entendido como um objeto abstrato em que particulares de algum modo participam. Assim, para o realista dizemos que essa rosa e esse morango são vermelhos porque eles participam do universal ‘vermelho’, ou porque eles exemplificam ou instanciam o universal. A solução traz consigo dificuldades profundas que não poderão ser consideradas aqui.
     Para resolver o problema dos universais apelando para os tropos precisamos introduzir a idéia de igualdade (similaridade exata), que também é um primitivo. Filósofos como D. C. Williams[ii] e Keith Campbell[iii] conceberam o universal como uma classe de tropos similares. Assim, a palavra ‘vermelho’ se refere à classe de todos os tropos de vermelho, que é unida pelo fato de que tais tropos são iguais uns com os outros. Para Williams, quando nós dizemos “Essa rosa é vermelha”, queremos dizer que essa rosa tem um tropo de vermelho que pertence à classe dos tropos de vermelho. E quando nós dizemos que o vermelho é uma cor, o que queremos dizer é que a classe de todos os tropos de vermelho está incluída na classe de todos os tropos de cor.
     Contudo, há problemas com esse modo de ver. Primeiro, há um problema com o tamanho: uma classe pode tornar-se maior ou menor; mas um conceito não pode mudar o seu tamanho, pois um conceito não tem tamanho. Depois, o que é uma classe? Se não é um tropo, mas um objeto abstrato, parece que estamos abandonando a maior vantagem da teoria. Um terceiro problema é que podem ser desenvolvidas objeções concernentes ao status ontológico das igualdades e ao problema da igualdade entre as igualdades. Suponhamos, para começar, que igualdades sejam tropos. Nesse caso, se temos o conjunto de tropos iguais T1, T2, T3, podemos dizer (usando ‘=’ para abreviar ‘igualdade’) que T1 = T2, T2 = T3 e T3 = T1. Mas aqui surge uma dificuldade que parece séria. De modo a construir uma classe de tropos iguais parece ser preciso que a igualdade entre T1 e T2 seja igual à igualdade entre T2 e T3, que a igualdade entre T2 e T3 seja igual à igualdade entre T3 e T1, e que a igualdade entre T3 e T1 seja igual à igualdade entre T1 e T2. Com isso são geradas três igualdades de segundo nível. A primeira dessas igualdades de segundo nível, contudo, precisa ser igual a segunda igualdade de segundo nível, etc. o que gera um regresso ao infinito de igualdades de nível sempre superior.
     Meu ponto de vista é o de que o regresso assim gerado é lógico, mas não epistêmico. A diferença é que o regresso lógico diz respeito à mera possibilidade lógica de sua produção, enquanto o regresso epistêmico diz respeito à sua necessidade cognitiva. Como o problema dos universais é o de como podemos encontrar a unidade na diversidade, predicar o mesmo de muitos, ele é aqui um problema essencialmente epistêmico-cognitivo. O regresso epistêmico diz respeito aqui à impossibilidade de construirmos um conjunto de tropos sem a reiterada intervenção de cognições de igualdade de ordem superior para garantir a construção de um conjunto de tropos. Um exemplo desse último tipo de regresso seria o gerado pela exigência de que, sendo percebido que T1 = T2 e que T2 = T3, precisamos perceber que a primeira igualdade é igual à segunda e, tendo percebido que T2 = T3 e T3 = T4, e que essas últimas igualdades são iguais, precisamos perceber que a primeira igualdade de igualdades é igual à segunda igualdade de igualdades e assim por diante. Nesse caso, para garantir a igualdade dos membros  de um dado conjunto de tropos, digamos {T1, T2, T3, T4}, precisaríamos construir a seguinte pirâmide de tropos:

     (1)                                       T’’1  =...


                                          T’1   =   T’=...


                                     T1  =  T2   =  T3   =  T4

     Nesse caso o regresso ao infinito será aqui gerado se o conjunto de tropos for infinito. Contudo, considerando a extensão dos conjuntos usuais, mesmo que não seja infinito esse regresso já parece suficientemente esmagador para o intelecto humano. Além disso, não parece que ele seja algo realmente experienciado.
     Na tentativa de ultrapassar essas dificuldades podemos propor uma concepção alternativa da construção cognitiva dos universais, inspirada no tratamento dado pelos empiristas ingleses à noção que eles tinham da idéia, de modo a assegurar a sua unidade. Traduzindo o essencial dessa solução em termos de tropos, ao invés de idéias, sugiro que um universal possa ser definido como

     Df.U:
Um tropo T* qualquer tomado como modelo, ou qualquer outro tropo igual a ele.

Aceitando essa definição, o problema do tamanho desaparece, pois é indiferente à definição quantos tropos são similares a T*. O segundo problema também desaparece, pois nessa análise nenhuma menção precisa ser feita ao conceito de classe. Quando alguém profere a sentença “Essa rosa é vermelha”, a pessoa quer dizer que essa rosa tem um tropo Tr que é similar ao tropo Tr* tomado como um modelo na memória do falante, o qual remonta à sua experiência de coisas vermelhas (não penso em T* como sendo um único: qualquer T pode ser tomado como T*, o modelo usado pelo ouvinte não precisa ser o mesmo usado pelo falante, nem um mesmo falante precisa recorrer em diferentes ocasiões ao mesmo tropo modelo). Assim, quando o falante profere a sentença “Vermelho é uma cor” ele quer dizer que sempre que nos for dado um tropo de vermelho, ele será também um tropo de cor. Finalmente, o terceiro problema também parece desaparecer, pois não precisamos comparar uma similaridade com a outra, mas somente os tropos T1, T2... Tn individualmente com o tropo T*. Ao invés do regresso piramidal, o esquema toma uma forma mais razoável:
  
     (2)                                     T1 = T*
                                               T2 =  “
                                               T3 =  “
                                               T4 =  “ ...

     Alguém poderá notar que essa solução não elimina totalmente o problema. Afinal, suponha que queiramos saber se T1 é similar a T4? Se precisamos nos valer de um modelo T*, isso é feito por comparação com esse modelo, como no esquema seguinte:

T1 = T* = T4

     Certamente, surge aqui a questão de se saber se a primeira similaridade é similar à última similaridade, o que nos força a recorrer a uma similaridade de segunda ordem. Apesar disso, a solução resultante de Df.U é muito mais econômica do que a inicialmente considerada. Pois segundo a primeira solução, considerando que T1 = T2 = T3 = T4 chegávamos à conclusão de que T1 = T4 pela lei da transitividade, mas precisávamos justificar a aplicação dessa lei pelo recurso a uma pirâmide de similaridades de ordens superiores.
     Existe um outro caminho pelo qual precisamos recorrer a similaridades de ordem superior. Afinal, se similaridades são tropos, o universal ‘similaridade’ precisa ser construído de tal modo que certo tropo de similaridade, que pode ser chamado de Ts*, seja admitido como modelo para os outros tropos de similaridade. Nosso esquema será:

    (3)                                 Ts1  =  Ts*
                                          Ts2  =   “
                                          Ts3  =   “...

     Ora, sendo as similaridades tropos, então parece que podemos ter tropos de similaridade de segunda ordem referidos pelos signos de similaridade que estão entre Ts1 and Ts*, entre Ts2 e Ts*, e assim por diante – chamemo-los Tss1, Tss2 etc. De maneira a fazer referência ao universal composto por essas similaridades de similaridades precisaremos de um novo tropo modelar de similaridade de similaridades, que será Tss*. É fácil predizer que poderíamos criar um número indeterminado de ordens superiores de tropos de similaridade dessa maneira.
     Uma resposta razoável a esta suposta objeção é a de que a conseqüência predita é inofensiva. Nada nos impede de parar quando não encontramos mais vantagem explanatória em prosseguir. Como H. H. Price notou, as mesmas conseqüências resultam da adoção do realismo[iv]: a idéia da idéia na filosofia de Platão nada mais é do que uma idéia de segunda ordem. Provavelmente Platão, ao criticar a sua doutrina das idéias, teve de recorrer (talvez implicitamente) a uma idéia de sua idéia da idéia. Mas ele não precisaria prosseguir neste procedimento indefinidamente, posto que há um ponto para além do qual as razões explanatórias cessam.
     Finalmente, vale a pena observar que a similaridade não precisa ser vista como um tropo como os outros. Considere, por exemplo, as condições de similaridade para a similaridade. Elas devem pressupor vaguidade e extensões espaciais extremamente variáveis. Muitos diriam que a similaridade não ocupa espaço nem tempo. Mas não estou certo disso. Quando considero a similaridade entre as cores de dois sapatos que estou vendo na vitrina da loja, a similaridade entre essas coisas parece estar de algum modo por aqui mesmo e não, digamos, lá fora ou em lugar algum. E quando alguém considera as similaridades entre a forma de nossa galáxia e a forma da galáxia de Andrômeda, a similaridade deve ter algo a ver com toda a região do universo na qual elas se encontram, pois tal similaridade não existiria se esses gigantescos aglomerados de estrelas não existissem.
     Talvez devêssemos agora ser lembrados que a igualdade é algo que tem a ver com a lógica e que, tal como o espaço e o tempo, a lógica estaria além do reino dos tropos. Contudo, a lógica talvez possa ser considerada como algo que só não parece (ou não é) empírico por dizer respeito a estrutura de toda e qualquer realidade empírica. Parece, pois, possível sugerir que a igualdade seja também um tropo limitador, que vige entre as constantes lógicas e os tropos perceptíveis mais típicos.
     Comparemos agora a presente solução para o problema dos universais com as tradicionais soluções realista e nominalista.
      Para o realista, propriedades universais devem ser objetos abstratos não-empíricos, acessíveis somente ao intelecto. Isso nos força à admissão da existência de dois mundos, nosso mundo empírico e ainda um outro mundo com um infinito número de entidades abstratas, entidades para as quais não temos critérios de identidade, posto que elas não são espaço-temporalmente localizadas. Mais além, ele é deixado com o aparentemente insolúvel problema de como explicar a relação entre as entidades abstratas extramundanas e os particulares que deles participam e que os instanciam.
     Por outro lado, a solução nominalista é uma espécie de reação reativa contra o realismo, limitada pelas mesmas assunções. O nominalista consistente “resolve” o problema dos universais através de uma contra-intuitiva negação da existência das propriedades; para ele só existem particulares nus, enquanto as predicações são flatus vocis sem referência real. Mas essa parece ser uma estratégia de avestruz… com a qual ele se recusa a fazer face aos problemas.
     A teoria dos tropos, ao invés, não duplica os mundos como o realismo nem nos força ao contra-senso. Em seus princípios, ao menos, ela está em perfeito acordo com o senso comum. Se você perguntar ao homem comum onde as propriedades estão, ele irá responder dizendo que a propriedade de ser azul é aquela que podemos ver no céu, que as propriedades de ser sólido e frio são as que percebemos ao segurar uma pedra de gelo, que a propriedade da chuva de fazer barulho é a que percebemos pela audição... Essas propriedades são naturalmente entendidas como particulares espaço-temporalmente localizáveis. Somente anos de doutrinação filosófica (adicionada ao desejo de acreditar) podem obter sucesso em condicionar nossas mentes a ver essas coisas de modo diferente.

     Tropos e particulares concretos
     O segundo grande problema é o de como construir particulares concretos com base em tropos. Para D. C. Williams, um particular concreto é uma soma de tropos[v]. Tropos podem ser associados de modo a formar agregados de tropos e, eventualmente, particulares concretos. O conceito-chave aqui é o de co-ocorrência (concurrence[vi]): a mesmidade da localização espaço-temporal dos tropos. Esse conceito de co-ocorrência pode ser analisado como composto de dois outros, a co-localização e a co-temporalidade. A co-localização dos tropos é a sua localização em certa região do espaço, sem levar em consideração quando eles se encontram nessa região. Assim, duas pessoas que tomam turnos em dormir em uma mesma cama não deixam de ser co-localizadas nessa região do espaço. A co-temporalidade de tropos é a sua existência durante um mesmo intervalo de tempo. Assim, o monte Roraima e eu somos co-temporais, mas não somos co-localizados. A co-ocorrência dos tropos surge quando eles são co-localizados e co-temporais, ou seja, quando eles existem simultaneamente durante certo intervalo de tempo em certa região espacial. A co-ocorrência dos tropos é a co-temporalidade de tropos co-localizados.
     Um particular concreto, como uma cadeira, deve ser totalmente constituído por tropos de peso, dureza, cor, forma etc. que estão relacionados uns aos outros minimamente através de co-ocorrência (i.e. por co-localização co-presente). Uma vantagem dessa concepção é que ela nos permite abandonar o velho e supérfluo conceito de substância entendido como um substrato incognoscível, postulado como suporte das propriedades. O particular concreto evidencia-se aqui como similar a uma alcachofra, que consiste somente em suas folhas, que são os tropos. É preciso notar, contudo, que pode haver sentidos da palavra ‘substância’ resgatáveis através de uma ontologia dos tropos. Se a substância for entendida como aquilo que existe em si mesmo e sem a necessidade de outra coisa, parece que ela pode ser aproximada ao conceito de um sistema de tropos co-ocorrentes essenciais a um tipo de objeto material.
     Uma ingênua, mas instrutiva objeção contra essa maneira de ver é que nesse caso toda predicação se torna tautológica: o proferimento “As suas unhas são vermelhas” é tautológico porque vermelho é predicado de um sujeito que já possui tropos de vermelho como constituintes[vii]. Essa objeção é fácil de ser refutada. Para tal precisamos apenas distinguir tropos necessários e contingentes. Tropos necessários a um objeto material são aqueles sem os quais o objeto não pode ser constituído nem identificado enquanto tal. Diversamente de dureza e forma, os tropos de vermelho das unhas de alguém não pertencem às unhas necessariamente. Portanto, esses tropos não são constitutivos do objeto referido pelo termo singular ‘minhas unhas’ e a sentença não é tautológica.
     Uma maneira mais sofisticada de considerarmos a mesma questão é adotarmos uma concepção nuclear dos tropos constitutivos de objetos concretos[viii]. Podemos apresentar essa maneira de ver sugerindo que um objeto concreto é constituído por um conjunto nuclear de tropos, o qual é necessário a sua constituição e identificação, sendo esse conjunto completado por um conjunto contingente de tropos. Contudo, um mesmo objeto pode em muitos casos ser constituído e tornado identificável através de diferentes combinações de tropos formadores de diferentes conjuntos nucleares, conquanto essas combinações tenham um traço identificador comum, que podemos chamar de sua essência. Esse traço nada mais é do que um tropo ou combinação de tropos de ordem superior. Para exemplificar, suponha que o objeto em questão seja certa casa. Ela pode ter sido identificada por uma variedade de possíveis conjuntos nucleares de tropos. Mas seja qual for o conjunto nuclear de tropos dado à experiência, ele deve apresentar o traço comum de constituir um objeto com a propriedade funcional de servir ou ser feito para servir como abrigo para homens ou animais.
     Ainda outra dificuldade, apontada por Cris Daily, nasce do fato de que a teoria dos tropos é vulnerável a argumentos de regressão análogos aos usados contra os objetos abstratos assumidos pelo realismo. No caso de particulares concretos, Daily mostrou que é possível construir, contra a idéia de co-ocorrência, o seguinte argumento. Suponha que um particular concreto fosse constituído somente pelos tropos T1, T2 e T3. Como a relação de co-ocorrência não pode ser uma entidade abstrata, ela deve ser um tropo. Chamemo-la de relação Tc. Nesse caso parece que nós temos um novo particular concreto, constituído por T1, T2, T3 e Tc. Ora, para dar conta desse particular precisamos de uma nova co-ocorrência para T1,  T2, T3 e Tc, a qual poderá ser chamada de Tc’. Mas a adição de Tc’ gera um novo particular, que requer uma nova co-ocorrência e assim infinitamente[ix].
     Uma resposta a essa objeção poderia tomar uma forma similar àquela que filósofos realistas aplicaram em defesa de suas próprias entidades abstratas. Para o realista platônico as formas ou idéias possuíam um status sui-generis, sugerido pelo fato delas resistirem à autopredicação[x]. Assim, embora o vermelho se autopredique, pois o vemelho é vermelho, e o grande também, pois o grande é grande, nem a idéia de vermelho é vermelha nem a de grandeza é grande. Ora, a co-ocorrência também parece se autopredicar, pois ela não é co-ocorrente (se fosse, a que seria ela co-ocorrente?). Do mesmo modo, a co-localização não se co-localiza, a co-temporalidade não se co-temporaliza, nem a igualdade é igual. Por ser a co-ocorrência um tropo limitador sui-generis, diferente dos outros, podemos argumentar que não faz sentido demandar um tropo adicional de co-ocorrência para garantir a co-localização e co-temporalidade de um agregado de tropos.
     O ponto importante que precisa ser notado é que, embora possamos ser obrigados, em defesa da teoria dos tropos, a aplicar estratégias semelhantes àquelas que foram usadas em defesa das teorias realistas dos universais, nós estamos fazendo isso de um modo totalmente inexpensivo, nem pressupondo nem multiplicando entidades questionáveis. A teoria dos tropos é, pois, uma promessa de se encontrar um fim para mais de dois mil anos de especulação ontológica em torno de coisas tão misteriosas como idéias platônicas, particulares nus e substâncias ocultas.






[i] O trabalho originador da ontologia dos tropos deve ser creditado a D. C. Williams em seu artigo “The Elements of Being,” publicado na Review of Metaphysics, vol. 4, pp. 2-18 e 171-92, 1953. Ele foi o primeiro a propor seriamente a construção de todo o mundo tendo somente tropos como elementos ontológicos fundamentais. Desde então a discussão sobre tropos tem crescido incessantemente.
[ii] D. C. Williams, “The Elements of Being”, in, P. V. Inwagen & D. W. Zimmerman: Metaphysics: the Big Questions (Brownwell: Oxford 1998), pp. 45-46.
[iii] Keith Campbell, “The Metaphysics of Abstract Particulars,” in S. Laurence & Cynthia Macdonald (eds.): Contemporary Readings in the Foundations of Metaphysics (Brownwell; Oxford 1998), 357-9.
[iv] Ver  H. H. Price, Thinking and Experience (Hutchinson University Press: Oxford 1953), chap. 1. A objeção considerada tem sua origem em Bertrand Russell. Ver seu The Problems of Philosophy (Oxford University Press: Oxford 1980 (1912)), p. 55. Para uma resposta diferente, ver Keith Campbell, Abstract Particulars (Brownwell: Oxford 1990), pp. 34 ff.
[v] “The  Elements of Being”, ibid. pp. 44-45.
[vi] O termo inglês ‘concurrence’ se traduz literalmente como cooperação ou conjunção. Na falta de um equivalente mais adequado em português, preferi usar o termo ‘co-ocorrência’.
[vii] Michael Loux: Metaphysics: A Contemporary Introduction (Routledge: London 1998), p. 103.
[viii]  Peter Simons: “Particulars in Particular Clothings: Three Trope Theories of Substances”,  Philosophy and Phenomenal Research , vol. 54, n. 3.
[ix] Cris Daily: “Tropes” in, D. H. Mellor & A. Oliver: Properties (Oxford University Press: Oxford 1997), p. 157.
[x] Ver Gregory Vlastos, “The Third Man Argument in the Parmenides”, Philosophical Review 63 (1954) pp. 319-349.