quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

LIVRO: COGNITIVISMO SEMÂNTICO (draft 2013/1)



Draft avançado do livro Cognitivismo Semântico, a ser publicado em 2013. Contém uma versão atualizada de uma defesa do internalismo descritivista em filosofia da linguagem.
                                                  
                                             

                                                  



COGNITIVISMO SEMÂNTICO


Draft 1/2013
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Claudio Ferreira Costa







Simplex sigillum verum.



























INTRODUÇÃO


Não estaria a filosofia da linguagem da primeira metade do século XX, com o seu desgastado princípio da verificabilidade, com as suas toscas teorias descritivistas e internalistas dos nomes próprios e expressões conceituais, com a sua ingênua divisão monolítica entre o necessário a priori (expresso em proposições analíticas) e o contingente a posteriori (expresso em proposições sintéticas), mais próxima da verdade do que a hoje imperante ortodoxia causal-externalista?
     Esse livro foi escrito sob a convicção de que essa pergunta deve ser respondida em afirmativo. Não desejo com isso negar a importância filosófica da nova ortodoxia causal-externalista, mesmo porque os desenvolvimentos aqui expostos não seriam possíveis sem ela. Quero sugerir apenas que essa importância deva ser predominantemente negativa. Ela consiste em boa parte na proposta de desafios dialeticamente úteis, que se adequadamente respondidos servirão para enriquecer a velha ortodoxia cognitivista-internalista com elaborações muito mais convincentes.
     O propósito do presente livro é o de oferecer uma contribuição preliminar na direção indicada. Nele é esboçada uma defesa sistemática de uma concepção puramente internalista, cognitivista e neodescritivista do significado e dos mecanismos de referência. A assunção que torna essa defesa recomendável é a de que o significado, o conteúdo semântico da linguagem representacional, não parece poder constituir-se de outra coisa senão de regras ou combinações de regras cognitivas (mesmo que seu domínio seja geralmente irreflexivo ou tácito), em geral exprimíveis por meio de descrições. Meu objetivo nos artigos aqui selecionados consiste em explicitar essas regras em algumas expressões referenciais mais importantes, que são os nomes próprios, os termos gerais e as sentenças assertivas. Antes disso, porém, procedi a uma revisão especulativa da semântica fregeana na qual os sentidos foram interpretados como regras semânticas que só existem enquanto cognitivamente instanciadas. Embora não passe de um esboço, essa revisão serve para mostrar a moldura conceitual mais ampla dentro da qual os questionamentos posteriores se orientam.
     Minha abordagem das questões também é algo diversa daquela usada nas teorias causal-externalistas, cuja inspiração primeira é lógico-semântica. Ela é primariamente inspirada na dimensão pragmática. Parto, pois, geralmente, da inserção da linguagem na forma de vida, do senso comum e da linguagem ordinária, buscando frequentemente apoio no exame dos exemplos concretos de aplicação das expressões. A abordagem é também sistemática. Daí que embora os artigos possam ser separadamente lidos, eles são interconectados, de modo que a plausibilidade de cada um deles se deixa melhor sustentar pelo seu conjunto.
     Parte do material aqui apresentado é uma elaboração de artigos originariamente publicados nas revistas Dissertatio e Princípios. Gostaria de agradecer aos editores dessas revistas pela permissão de republicação. Agradeço também ao apoio do CNPq através de bolsa de pesquisa individual sobre teorias da referência no período de 2009 a 2012. (a completar...)































SUMÁRIO

Introdução

1.     Uma leitura extravagante da semântica fregeana

2.     Reconsiderando o verificacionismo

3.     Como os nomes próprios realmente referem

4.     O conceito de água
















– 1 –

UMA LEITURA EXTRAVAGANTE DA SEMÂNTICA FREGEANA


A importância da semântica fregeana para a filosofia da linguagem consiste em sua conjunção única de simplicidade teórica com amplitude explicativa e relevância filosófica. Quero aqui revisar a semântica fregeana evidenciando duas coisas. Primeiro, que o conceito básico de sentido pode ser parafraseado em termos de regra cognitiva. Segundo, que os conceitos de existência e verdade podem ser reinterpretados em termos da propriedade de aplicabilidade de regras cognitivas. A primeira sugestão já se encontra em Michael Dummett, mas creio que mereceria ser melhor explorada. Contudo, não farei muito mais do que apresentar sugestões conjecturais que clamam por elaboração. Meu objetivo, porém, não é o de trazer resultados, mas o de testar ideias, o que não deixa de ser um procedimento filosóficamente aceitável.
     Como é bem sabido, Frege explica a referência (Bedeutung) recorrendo a um elo semântico intermediário, por ele chamado de sentido (Sinn). O esquema (1) mostra como Frege considera esses dois níveis, tendo em vista o caso fundamental da frase predicativa singular:

(1)
                       termo singular                  termo geral               frase
Sentido           modo de apresentação               ?                       pensamento
Referência      objeto                                conceito > objeto     valor-verdade


     Embora a semântica fregeana seja um desenvolvimento de incomparável importância para a filosofia da linguagem, ela não é isenta de bem conhecidas excentricidades. Da própria análise que irei fazer de seus principais elementos semânticos em termos de regras resultarão algumas maneiras de expurgá-la de suas maiores estranhezas.

Referência do termo singular
Comecemos com os termos singulares. A referência de um termo singular é, para Frege, o próprio objeto por ele referido, tomado no sentido mais amplo. A referência do nome ‘Lua’, por exemplo, é a própria Lua com as suas crateras... Para designar a referência ele usa a palavra alemã ‘Bedeutung’, cuja tradução literal para o português é ‘significado’ e para o inglês é ‘meaning’. Os lúcidos tradutores ingleses preferiram palavras como ‘reference’, ‘denotation’ e ‘nominatum’, que exprimem o que Frege efetivamente tinha em mente. Outros termos usados foram ainda ‘semantic value’, ‘semantic role’ e ‘truth-value potential’, que salientam a contribuição das referências dos componentes da frase para o valor-verdade da frase como um todo. A tradução mais fiel ao texto original é a literal, ou seja, ‘meaning’ em inglês e ‘significado’ em português. Mas por razões de sistematicidade e clareza, manterei aqui a palavra ‘referência.’[1]
     Há uma discussão entre intérpretes sobre a razão pela qual Frege teria escolhido a palavra ‘Bedeutung’. Há duas interpretações incongruentes, uma que começa com o Bedeutung da frase, outra que começa com o Bedeutung do nome. A primeira delas é a que explora o fato de que um dos significados de ‘Bedeutung’ (como também de ‘significado’ e ‘meaning’) é relevância ou importância. Como aquilo que mais importa à frase, para o lógico, é o seu valor-verdade, pois este é aquilo que permite a transmissão da verdade das premisas para a conclusão, o Bedeutung da frase deve ser o seu valor-verdade.[2] A interpretação mais forte, contudo, porque é especialmente apta à explicação da relação entre o sentido e a referência dos termos singulares, por onde Frege introduziu a distinção, é a seguinte: ao introduzir o termo ‘Bedeutung’ Frege estaria substantivando o verbo ‘bedeuten’, usado para expressar, não mais o apontar (deuten), o designar (bezeichnen), mas já aquilo que é apontado (die Bedeutung), aquilo que é designado (das Bezeichnete), o que é significado (was gedeutet wird), ou seja, a própria referência.[3] Em alemão essas transições se apresentam como:

Bedeutet... →  deutet... bezeichnet... → /was gedeutet, bezeichnet wird/
(significa)       (aponta... designa...)       (aquilo que é referido)
                                                                        ↓
                                                              die Bedeutung
                                                              (significado = referência)

     Essa teria sido a pequena torção semântica com a qual Frege transformou a palavra ‘Bedeutung’ em um termo técnico, uma torção que trai um resquício de referencialismo semântico.[4]

Sentido do termo singular
Passemos agora ao sentido do termo singular. Para introduzi-lo, compare as duas seguintes frases:

1.     A estrela da manhã possui uma densa atmosfera de CO2.
2.     A estrela da tarde possui uma densa atmosfera de CO2.

As frases (1) e (2) referem-se à mesma coisa, que é o planeta Vênus. Mas apesar disso, uma pessoa pode saber a verdade de (1) sem saber a verdade de (2). A explicação disso é que embora os termos singulares ‘estrela da manhã’ e ‘estrela da tarde’ se refiram ao mesmo planeta Vênus, eles veiculam conteúdos informativos diferentes, eles têm sentidos (Sinne) diferentes. O sentido é definido por Frege como sendo o modo de se dar do objeto (die Art des Gegebenseins des Gegenstandes), o que bem se traduz como o seu modo de apresentação. Os sentidos dos termos singulares ‘a estrela da manhã’ e ‘a estrela da tarde’ são diferentes porque o primeiro termo singular apresenta Vênus como o corpo celeste mais brilhante geralmente visto próximo ao horizonte pouco antes do sol nascer, enquanto o segundo apresenta o mesmo planeta Vênus como o corpo celeste mais brilhante geralmente visto próximo ao horizonte pouco depois do sol se por.
     Segundo Frege, palavras expressam o sentido (drücken den Sinn aus) enquanto o sentido determina (bestimmt) a referência. O sentido é condição para a referência: ele mostra o caminho para a referência, mesmo nos casos em que a constatamos como inexistente, tendo já sido interpretado como sendo o modo de apresentação pretendido e não o efetivamente dado.[5] Por isso para Frege uma expressão pode ter sentido sem ter referência, mas não pode ter referência sem ter sentido.
     A noção de sentido em Frege é abrangente, constituindo no caso do sentido das frases o que ele chama de valor epistêmico (Erkenntniswert). O sentido fregeano possui interesse epistemológico por envolver o conteúdo informativo da expressão lingüística, sendo, no dizer de Dummett, aquilo que entendemos quando entendemos a expressão.[6] A importância filosófica da semântica fregeana resulta principalmente dessa importância epistemológica do seu conceito de sentido e ainda de algumas consequências ontológicas que esse conceito poderia envolver.
     Frege é um platonista sobre os sentidos. Ele os concebe como entidades abstratas, que ele só analisa em termos de outros sentidos que lhe sejam constituintes. Ou seja: ele não analisa os sentidos através de outros conceitos. Essa análise, porém, é algo que naturalmente se impõe. Afinal, parece mais do que plausível entendermos os sentidos fregeanos como sendo algo como regras criteriais semântico-cognitivas, ou seja, regras que demandam a satisfação de critérios para a tomada de consciência de algo.[7] A plausibilidade da identificação dos sentidos com regras fica particularmente clara quando tomamos expressões numéricas como exemplos. Considere as expressões “1 + 1”, “6/3”, “2 . (7 + 3 – 9)”. Todas elas têm a mesma referência, o número 2, mas sentidos fregeanos diferentes. Ao mesmo tempo é óbvio que elas expressam diferentes procedimentos, diferentes métodos, diferentes regras semântico-cognitivas através das quais identificamos o mesmo número 2.[8] Aqui reside, aliás, a conexão fundamental que pode ser feita entre as reflexões semânticas de Frege e as do último Wittgenstein.[9]
     Outra razão para tratarmos sentidos como regras semântico-cognitivas é o contraste com aquilo que Frege chamou de colorações (Färbungen). Colorações são o mesmo que sentidos expressivos, ou seja, estados afetivos que regularmente associamos a certas expressões. Assim, as palavras ‘amor’ e ‘cão do inferno’, na frase “O amor é um cão do inferno” (Bukowski), se associam contrastivamente a emoções específicas. Como Frege percebeu, a fixação por diferentes pessoas de colorações emocionais similares a uma mesma palavra resulta da relativa semelhança entre as naturezas humanas dos falantes, não se fundamentando, pois, em convenções, diversamente dos sentidos. Por isso alguns compreendem certas poesias, outros não; e por isso é tão difícil traduzir poesia, que sempre depende em muito das colorações específicas adquiridas por uma expressão em certa língua. Podemos assim supor que a razão da objetividade (intersubjetividade) e conseqüente comunicabilidade dos sentidos – em contraste com a relativa falta de objetividade das colorações – reside no fato de os sentidos serem regras cognitivas, convencionadas de modo geralmente pré-reflexivo,[10] quando não são, supostamente, o que as combinações dessas regras constituem.
     À luz dessas suposições, o sentido do termo singular deve passar a ser considerado o mesmo que uma regra ou método ou procedimento convencionalmente fundado, cuja função é a de servir de meio para a identificação do objeto. Essa regra se deixa em geral exprimir por meio de descrições. Assim, a regra associada ao termo singular ‘a estrela da manhã’ deixa-se explicitar pela descrição definida ‘o corpo celeste mais luminoso geralmente visto próximo do horizonte pouco antes do sol nascer...’ E um nome próprio como ‘Aristóteles’, como Frege notou, tem como sentidos diferentes modos de apresentação do objeto, expressos por descrições como (i) ‘discípulo de Platão e tutor de Alexandre o Grande’ ou (ii) ‘pessoa nascida em Estagira’.[11] Segundo essa interpretação (i) e (ii) exprimem diferentes sentidos, diferentes regras para a identificação de Aristóteles. Além disso, podemos suspeitar que (i) e (ii) façam parte de alguma regra mais geral, estabelecedora de um vínculo unificador entre essas duas regras na identificação de um mesmo objeto. Mesmo assim parafraseado, o sentido continua a determinar a referência: para que se identifique a referência é preciso que regras semânticas identificadoras do objeto se demonstrem aplicáveis, a dizer, que as configurações criteriais demandadas para a aplicação dessas regras sejam por ele satisfeitas.

Referência do termo geral
Frege tem algo a dizer sobre a referência do termo geral em posição predicativa, a qual ele chama de conceito (Begriff). Isso é estranho porque parece natural pensarmos o conceito como sendo o próprio sentido da expressão conceitual, o seu modo de apresentação da referência, a qual seria uma propriedade. Além disso, para Frege o conceito é uma função. O conceito matemático de função pode ser definido como sendo uma regra que tem como input argumentos e como output valores (por exemplo: ‘3 + x = ...’ é uma função que recebe como valor o número 6 quando o argumento que substitui x é o número 2). Para Frege um conceito é uma função cujo argumento é o objeto que “sob ele cai” (fällt unter) e cujo valor é um valor-verdade, que pode ser o verdadeiro ou o falso. Assim, o conceito designado pela expressão conceitual ‘...é branco’ tem o valor Verdadeiro quando sob ele cai o objeto Lua e tem o valor Falso quando sob ele cai o objeto Sol.
     Frege nunca explicou satisfatoriamente o que são conceitos entendidos nesse sentido referencial. Mas para ele conceitos não podem ser nem objetos, nem coleções de objetos, nem extensões. A razão disso é que um objeto, uma coleção de objetos, uma extensão, são entidades independentes (unabhängig), não precisando de mais nada para completá-las. O conceito, por contraste, sendo uma função, se caracteriza por ser aberto, ou seja, por ser uma entidade incompleta (unvollständig) ou insaturada (ungesätig), precisando poder ser sempre preenchida por argumentos, que no caso são os objetos que sob ele podem cair. Só os objetos é que são, por contraste, completos, saturados ou independentes (unabhängig).
     Por exemplo: o predicado ‘...é um cavalo’ é uma expressão insaturada, designando um conceito também insaturado, que se deixa completar pelo objeto que sob ele cai, o qual é referido por um termo singular, por exemplo, ‘Bucéfalo’. Predicado incompleto e termo singular completo se combinam para formar a frase (Satz) completa “Bucéfalo é um cavalo”, que por ser completa deve outra vez nomear um objeto. A tese de que a frase completa funciona como o nome de um objeto seria confirmada pela possibilidade que temos de nominalizar frases transformando-as em descrições definidas, que são termos singulares. Assim, a frase “Bucéfalo é um cavalo” pode ser transformada na descrição ‘o cavalo de nome Bucéfalo’, que pode comparecer na frase “O cavalo de nome Bucéfalo pertenceu a Alexandre”. Mas como a nominalização também pode ser feita com termos gerais, esse argumento não é decisivo: o termo predicativo ‘...é vermelho’, por exemplo, pode ser substantivado como ‘o vermelho’ comparecendo na frase “O vermelho é uma cor”. Resta, contudo, a nossa percepção intuitiva de que a frase e o nome próprio tem em comum a completude de seus sentidos e referências no sentido de que esses sentidos e referências não parecem demandar alguma outra coisa para poderem formar um todo.

O status ontológico da referência das expressões predicativas
A discussão sobre a natureza insaturada da referência das expressões predicativas nos leva à questão da natureza ontológica daquilo que Frege entende por conceito. A sua identificação da referência da expressão predicativa com o conceito é muito dificilmente aceitável. Frege tem o bom senso de admitir que conceitos vazios existem. O termo predicativo ‘...é um unicórnio’ refere-se para ele a um conceito, mesmo que sob ele não caia objeto algum. Contudo, isso complica as coisas ainda mais, pois parece intuitivamente claro que ‘...é um unicórnio’, ainda que obviamente exprimindo um conceito, não possui referência alguma. Diante disso minha conclusão é a de que a identificação fregeana da referência da expressão predicativa com o conceito além de arbitrária é irremediavelmente incoerente, resultando de uma contaminação do domínio do sentido – no qual falamos de conceitos como modos de apresentação – pelo domínio da referência. A opção mais razoável será então admitir que o conceito seja mesmo aquilo mesmo que ele sempre pareceu ser: o sentido da expressão predicativa, o seu modo de apresentação, de modo que a referência dessa expressão seja algo que, com efeito, “caia sob” esse conceito-sentido, mesmo que a sua referência não possa ser algo completo como um objeto, uma coleção de objetos, uma extensão. Mas que algo é esse?
     Quero aqui propor a resposta que me parece mais viável. É possível revisar Frege, interpretando a referência da expressão predicativa originariamente em termos do que hoje chamamos de tropos, que nada mais são do que propriedades espaço-temporalmente singularizadas ou propriedades-s, como o branco, que vemos quando olhamos para a Lua e que, de certo modo, está lá (como a reflexão de todos os comprimentos de onda do espectro visível). Em sua forma mais conseqüente, a moderna ontologia dos tropos foi introduzida em 1953 pelo filósofo austrialiano D. C. Williams e representa um projeto impressionantemente original como solução para o problema dos universais e dos objetos particulares. Segundo a teoria dos tropos em sua forma mais coerente, o universo inteiro e tudo o que a ele pertence é constituído de tropos, que em suas formas mínimas são como que as suas pedrinhas de construção.[12] Exemplificando: aquele som agudo que acabei de ouvir, essa superfície rugosa que sinto pelo tato, o vermelho que nela se encontra, e mesmo (talvez) a forma arredondada dessa poltrona, são tropos ou conjuntos de tropos. Universais poderiam ser definidos como tropos iguais a um tropo-modelo T* (o qual pode variar com o sujeito cognitivo e até para o mesmo sujeito em diferentes ocasiões).[13] E objetos materiais poderiam ser analisados como sistemas de tropos co-localizados e co-temporais, contendo núcleos de tropos ou combinações de tropos eventualmente essenciais, circundados por tropos contingentes.[14]
     Embora a ontologia dos tropos seja uma aquisição muito jovem e traga consigo sua própria carga de problemas irresolvidos, ela não produz mais dificuldades do que as tradicionais doutrinas do realismo e do nominalismo. Em compensação, ela promete uma solução extremamente econômica para os problemas ontológicos, que se realizada seria capaz de libertar-nos de entidades questionáveis como universais platônico-aristotélicos e substâncias incognoscíveis, as quais ocuparam as cabeças filosóficas por mais de dois milênios sem que um progresso efetivo as tornasse mais plausíveis. Como não é aqui o lugar para fazer a defesa de uma ontologia dos tropos, posso propor ao leitor a admissão bem menos polêmica de que nossos termos predicativos empíricos se referem em originariamente a propriedades singularizadas, ou seja, tropos como o do vermelho desse sofá, sua forma arredondada, aquele som agudo que acabei de ouvir, que lhes servem como critérios de aplicação em frases predicativas singulares. Assim, quando digo “Esse sofá é vermelho”, o predicado ‘vermelho’ se refere à propriedade singularizada da vermelhidão que faz parte desse sofá, que serve como seu critério de aplicação. Essa suposição de bom senso já bastará.
     Segundo a releitura que gostaria de propor, é possível supor que a expressão predicativa ‘...é branco’ na frase “A Lua é branca” tem como referência, não um conceito, mas uma propriedade singularizada composta, digamos, dos arranjos de tropos de brancura da Lua que se dão aos diversos observadores. Ainda aqui, a propriedade singularizada (melhor dizendo, um conjunto dos arranjos de tropos de brancura iguais entre si), ela mesma, poderia ser interpretada como uma função. Ela seria uma função cujo argumento, no caso, seria o objeto Lua, e cujo valor poderia ser simplesmente o fato de a Lua ser branca. Nesse caso, a função referida pela expressão predicativa ‘...é branca’ seria satisfeita pelo objeto referido pelo nome ‘Lua’, dando como valor o fato ou estado de coisas referido pela frase “A Lua é branca”. Ainda que procedimentalmente artificiosa, essa seria a opção ao recurso fregeano ao valor-verdade como o valor da função conceitual – uma opção que exploraremos mais tarde.

Insaturação como dependência ontológica
Um problema com a idéia de incompletude ou insaturação é que ela não parece suficiente para distinguir a função predicativa. Entre o objeto e a propriedade designada pelo predicado vige uma bem conhecida assimetria: o objeto é normalmente referido pelo sujeito e a propriedade é normalmente referida pelo predicado (ex: “Sócrates é sábio”); mas enquanto a propriedade pode de algum modo passar a ser referida pelo sujeito (“Sabedoria é uma virtude”), o objeto não pode passar a ser referido pelo predicado (“Sábio é Sócrates” não faz sentido, a menos que ‘sábio é...’ seja entendido como predicado). Contudo, a distinção saturado/insaturado nada faz para explicar essa assimetria. Afinal, parece igualmente possível afirmar que os termos singulares e, por conseguinte, os seus referentes, são insaturados. Afinal, qual é a diferença entre os preenchimentos de “(Bucéfalo, Silver, Pégaso...) ...é um cavalo” e “Bucéfalo é... (branco, indócil, veloz...)”? Tanto o termo geral quanto o termo singular podem ser vistos como exprimindo funções que podem ser completadas por uma infinidade de outros termos, o mesmo se aplicando aos seus supostos referentes.
     Contudo, a noção de insaturação insinua algo mais do que isso. Em química um composto de carbono é dito insaturado quando contém ligações carbono-carbono removíveis pela adição de átomos de hidrogênio, o que torna o composto saturado. Haveria uma maneira de resgatar essa metáfora? Será que Frege não a explorou satisfatoriamente?
     Quero mostrar que o recurso a uma leitura da referência da expressão predicativa em termos de tropos-funções nos possibilita uma paráfrase esclarecedora da distinção fregeana entre saturação e insaturação. Essa paráfrase inspira-se em uma das definições aristotélicas de substância, qual seja, a de ser aquilo que existe na independência de outras coisas.[15] Aplicada aos objetos como sistemas de tropos, a intuição passa a ser a de que sistemas de propriedades-s são normalmente mais estáveis do que as propriedades-s a eles associadas, no sentido de que eles existem de maneira relativamente independente delas. Com efeito, tropos não existem sozinhos: um tropo de verde, por exemplo, nunca existe na independência de um tropo de forma, que para se localizar precisa estar espaço-temporalmente relacionado a outros tropos.
     Admitindo que os tropos tem a sua existência dependente de objetos particulares, os quais seriam constituídos de sistemas relativamente independentes e estáveis de tropos, podemos fazer o seguinte raciocínio: se os referentes de termos gerais (empíricos) forem tropos – propriedades espaço-temporalmente localizadas – parece que podemos parafrasear melhor a dicotomia insaturação/saturação ou incompletude/completude através da dicotomia dependência/independência, raramente usada por Frege. Afinal, o que distingue a referência de um termo geral, no caso da frase predicativa ou mesmo relacional singular, é que essa referência é um tropo (ou complexo de tropos) cuja existência depende de um todo que é o sistema de tropos essencialmente constitutivo do objeto particular referido pelo termo singular. Assim, o predicado ‘...é rápido’ na frase “Bucéfalo é rápido” e a relação ‘...pertence a...’ na frase “Bucéfalo pertence a Alexandre” aplicam-se respectivamente às combinações de tropos próprias do ser rápido e do pertencer a Alexandre, as quais só podem mesmo existir e se tornar identificáveis na dependência da existência de sistemas de tropos mais complexos, estáveis, independentes, que são os sistemas constitutivos dos objetos Bucéfalo e Alexandre. Já os sistemas de tropos constitutivos dos referentes dos nomes próprios ‘Bucéfalo’ e ‘Alexandre’ são objetos que são capazes de existir na independência da existência das combinações de tropos constitutivas do “ser rápido” ou do “pertencer a alguém”. Se entendermos a insaturação como dependência é possível sugerir que as propriedades referidas pelos predicados possuem uma inevitável relação de dependência para com objetos particulares e que isso se deixa melhor explicar quando as entendemos como sendo propriedades singularizadas ou tropos.
     Note-se que a relação de dependência/independência não se preservaria se as referências dos termos predicativos fossem as suas extensões, entendidas como classes de objetos às quais os termos predicativos se aplicam. A relação de dependência/independência só se preserva quando entendemos a referência do predicado em termos de propriedades-s ou tropos. Tal relação tem sua origem ao nível ontológico da referência, mas ela se reflete nos dois níveis seguintes, da linguagem e do sentido, como o próprio Frege pretendeu para a sua relação de instauração/saturação. Ela se reflete ao nível da linguagem, na assimetria que funda a distinção lógica entre sujeito e predicado. E ela se reflete ao nível epistêmico do sentido, como veremos, pelo fato de que o sentido, o modo de apresentação do objeto a ser referido pelo termo singular se faz de maneira independente do modo de identificação de propriedades-s, de tropos contingentes, através de predicados associados ao mesmo termo singular, enquanto o sentido do termo geral, o modo de apresentação de propriedades-s, é dependente da prévia identificação do objeto referido pelo termo singular.
     É preciso notar que a relação de dependência/independência não precisa ficar restrita ao domínio dos particulares empiricamente dados. Até mesmo os objetos formais prioritariamente considerados por Frege se submetem a ela. Considere uma predicação como ‘...é um número par’, aplicada à referência do nome próprio ‘6’. Ela é dependente, pois depende do reconhecimento da existência do número 6. E o próprio conceito de ser um número par, expresso pela regra de ser um número divisível por 2 e por si mesmo, não teria lugar na independência da existência de números pares particulares aos quais ele possa ser atribuido.
     O mais importante é que essa espécie de solução em princípio explica a assimetria entre objeto particular e propriedade. Ela explica a independência da referência do termo singular. O nome próprio ‘Sócrates’ não pode passar à posição de predicado porque aquilo a que ele se refere é algo independente (e independentemente identificável), ou seja, é o sistema de tropos que constitui essencialmente o objeto particular. Mesmo o nome de um objeto abstrato como o número ‘6’ não pode passar à posição de predicado, posto que se refere a algo independente relativamente a suas propriedades (embora por suposto não as que lhe possam ser definitórias), sendo identificável na independência de muitas de suas predicações, digamos ‘...é par’ ou ‘...é maior do que 2’, ‘...é o número de vértices da estrela de David’.

Sentido do termo geral
Frege não explica o que ele entende pelo sentido do termo geral em sua função predicativa. Isso é compreensivel, já que ele se está impedido de chama-lo de conceito. Mas a lógica de nossa reconstrução nos leva a pensar que esse sentido, esse modo de apresentação, nada mais possa ser do que aquilo que poderíamos chamar de a regra de caracterização (ou de aplicação) do termo geral e que essa regra seja algo que realmente merece ser chamado pelo nome de conceito.[16]
     Tal como acontece com o sentido do termo singular, o sentido do termo geral também pode se alterar sem que a sua referência se altere. Considere as frases:

     1. A Lua é branca.
     2. A Lua reflete todos os comprimentos de onda.

     A referência dos predicados de (1) e (2) – os conjuntos de arranjos de tropos que constituem a brancura da Lua – permanece a mesma, enquanto os sentidos dos predicados são diversos, o que faz com que os sentidos das frases sejam diferentes: uma pessoa pode saber que a Lua é branca sem saber que a sua superfície reflete todos os comprimentos de onda do aspectro visível. Isso quer dizer, em nosso entendimento, que os sntidos-conceitos, os modos de apresentação, as regras criteriais de caracterização-aplicação dos predicados (1) e (2) são diferentes.
     Como já notei a distinção ontológica entre saturação e instauração, melhor dizendo, entre independência e dependência, também se reflete ao nível epistêmico do sentido. Isso fica mais claro quando pensamos no sentido do termo geral como regra. A regra de identificação do termo singular se aplica ao objeto, o qual é considerado como ontologicamente independente em relação às propriedades singularizadas que contingentemente possuem. Por isso mesmo a regra de identificação também é passível de ser aplicada independentemente das regras de caracterização, podendo ser ela mesma isoladamente concebível em sua aplicação, sendo nesse sentido independente, completa, saturada. O mesmo não acontece, porém, com as regras de caracterização expressas pelos termos gerais. Sendo os tropos ou conjuntos de tropos aos quais elas ultimamente se aplicam dependentes dos sistemas de tropos constitutivos dos objetos aos quais as regras de identificação se aplicam, as regras de caracterização dos predicados demandam a aplicação prévia das regras de identificação de objetos, de modo a se tornarem elas próprias aplicáveis, o que as torna dependentes das regras de identificação dos termos singulares, como reflexo do fato de que as propriedades-s são dependentes dos objetos que as possuem.[17]
     O sentido do termo geral, que (divergindo de Frege) podemos identificar com o conceito por ele expresso, deve ser, pois, uma regra cuja aplicação a um objeto depende da prévia aplicação de outra regra. A regra de caracterização do termo predicativo é dependente e, nesse sentido, incompleta, insaturada, pois ela demanda a aplicação prévia da regra identificadora do termo singular para poder se aplicar. É preciso em suficiente medida identificar, ou seja, localizar no espaço e no tempo algum objeto particular, para só então poder caracterizar. Considerando exemplos, é preciso aplicar a regra que nos permite localizar espaço-temporalmente o animal chamado Bucéfalo para, com base nisso, aplicar-lhe regras de caracterização de termos gerais como ‘...é um cavalo’, ‘...é branco’, ‘...pertence a Alexandre.’ E é preciso aplicar a regra que nos permite identificar mentalmente o número 6 para podermos aplicar a ele o predicado ‘...é par’, cujo sentido-conceito é a regra de identificação de números pares, que é a de ser um número divisível por 2 e por ele mesmo.
     Uma objeção seria a de que, afinal de contas, é possível predicar sem identificar o objeto. É possível dizer “Aquilo é um cavalo” ou “Lá está uma coisa branca”, sem identificar Bucéfalo. Mas com essa objeção esquece que a identificação pode ser cada vez menos específica, até o ponto em que ela se reduz à identificação da mera localização espácio-temporal. Termos singulares indexicais como ‘aquilo’ e ‘lá’, acompanhados de um gesto de ostensão, já são capazes de identificar um particular na forma de alguma coisa espaço-temporalmente localizável de modo independente, explicitável por expressões como ‘aquele animal’, ‘aquele objeto’, ‘aquele algo’, ‘aquele algo que está faltando’, e isso basta.
     Concluímos, pois, que não só a referência do predicado é dependente, mas também o seu sentido. É assim que a relação de dependência epistêmica – ao nível do sentido – espelha a relação de dependência ontológica – ao nível da referência.

O conceito de existência
Nesse ponto podemos adicionar uma consideração especial sobre o conceito de existência. Aprofundando uma ideia já presente em Kant, Frege sugeriu que a existência é uma propriedade (Eigenschaft) do conceito, qual seja, a propriedade que este tem de não ser vazio, mas satisfeito, preenchido.[18] Considerando que um conceito de primeira ordem preenchido é aquele sob o qual cai ao menos um objeto, podemos dizer que para Frege a existência é a propriedade de um conceito de sob ele cair pelo menos um objeto. A mesma idéia foi defendida por Russell na sugestão de que a existência é a propriedade de uma função proposicional do tipo “Ǝx(...)” de ser verdadeira para ao menos uma instância.[19]
     Seguindo uma terminologia mais atual, tomemos como exemplo a frase geral “Cavalos existem”.[20] Essa frase se deixa analisar como:

Existe ao menos um ... tal que ... é um cavalo.

Essa frase contém dois componentes. Um deles é expresso pelo predicado ‘...é um cavalo’, simbolicamente Cx (onde x está no lugar de ‘...’ e C no lugar do predicado ‘é um cavalo’). O outro componente é o predicado de existência, a frase aberta ‘Existe ao menos um ... tal que ...’, simbolicamente Ǝx(...) (onde Ǝ está no lugar de ‘Existe ao menos um', e ‘...’ é a lacuna a ser preenchida por algum conceito). Isso significa que a predicação de existência  Ǝx(...) é um conceito de conceito, um conceito de ordem superior, um metaconceito sob o qual o que pode cair não é mais um objeto, mas outro conceito. A frase Ǝx(Cx) expressa, pois, um conceito de segunda ordem aplicado a um conceito de primeira ordem. O que esse conceito de ordem superior faz é, no dizer de Frege, dizer que ao menos um objeto cai sob o conceito de primeira ordem, ou seja, dizer que ele é satisfeito, preenchido, ou ainda, atribuir a aplicação desse conceito de primeira ordem a ao menos um objeto. Essas são obviamente maneiras diversas de se dizer o mesmo.
     A última maneira de dizer, ou seja, dizer que a existência é a aplicabilidade da regra conceitual é a que mais nos interessa. Ela nos interessa por permitir analisar o conceito em termos de regras, dado que é próprio das regras serem aplicáveis. Assim, ao dizermos que a lua existe, estamos querendo dizer que o conceito expresso pelo predicado ‘...é a lua’ é aplicável, o que significa dizer – admitindo que conceitos são sentidos que são regras – que a regra conceitual para a identificação da lua é efetivamente aplicável. Com o termo ‘efetivamente’ quero enfatizar que a regra conceitual não é aplicável apenas como possibilidade entevista por nossa imaginação, mas que ela é aplicável originariamente ao domínio de discurso sobre objetos físicos reais (“Essa pedra existe”),          seguido do domínio do discurso do psicológico (“Minha náusea existe”), que entendemos como lhe sendo mais propriamente pertencentes. Resumindo, podemos dizer que a existência é a propriedade de uma regra conceitual de ser aplicável em um dado domínio.
     Em complemento a isso é preciso notar que o conceito de aplicabilidade da regra também não tem nada de antropomórfico. Mesmo que não existissem seres humanos capazes de aplicar a regra de identificação da lua, a lua continuaria existindo, pois a sua regra de identificação continuaria aplicável em seu domínio. Ela continuaria aplicável mesmo que não fosse jamais pensada ou aplicada, mesmo que ninguém estivesse aqui para afirmar que a lua existe. Contrariamente à aplicabilidade, a aplicabilidade, a aplicação da regra é antropomórfica. A aplicação é um ato ou sequência de atos. A aplicação da regra cognitiva de identificação da lua realmente demanda a existência de seres cognitivos capazes de aplicá-la. A aplicação de regras cognitivas depende de ações cognitivas reais, pelas quais formamos juízos. Nosso juízo de que a lua existe depende da experiência de aplicação da regra por nós mesmos ou por alguém que nos testemunhe a sua aplicabilidade.
     Passemos agora à questão do conceito vazio. Quando dizemos que cavalos existem estamos aplicando um conceito de segunda ordem, o de existência, que nada mais é o conceito de ser aplicável a ao menos um objeto, conceito esse que é aplicado a um conceito de primeira ordem. Uma consequência disso é que o metaconceito de existência não pode, obviamente, ser aplicado a um conceito vazio, pois tal conceito não pode satisfazê-lo, uma vez que não é aplicável a nenhum objeto. É por isso que “Existem unicórnios” é uma frase falsa: o conceito unicórnio, de primeira ordem, não satisfaz o metaconceito de existência, pois sob ele não cai nenhum objeto, ele não é aplicável a ao menos um objeto.
     Com base nessas considerações é possível rebater uma objeção que os defensores da ideia de que a existência é uma propriedade de coisas devem ter em mente: a objeção de que se a existência é uma propriedade de conceitos, então ela não tem mais a ver com os próprios objetos que caem sob esses conceitos, o que parece absurdo, pois nos leva a pensar que a existência não tem mais nada a ver com o mundo real.
     A resposta a essa objeção está na consideração do tipo peculiar de propriedade de conceitual que é a da existência. Na medida em que para os objetos serem ditos existentes eles precisam ter a propriedade de caírem sob conceitos, melhor dizendo, de satisfazerem ou preencherem conceitos, ou, ainda melhor, de terem regras de caracterização conceituais aplicáveis a eles, a existência é uma propriedade conceitual que também é uma propriedade de objetos: a propriedade de terem conceitos sob os quais caem. Isso fica mais claro se considerarmos que o que satisfaz os conceitos de primeira ordem são tropos ou propriedades-s: se a existência da propriedade-s f é a propriedade Ǝ da regra de caracterização R ( que constitui seu conceito), que é a propriedade de R ser aplicável à f, então a propriedade Ǝ também é uma propriedade da propriedade-s f, qual seja, a de ter a regra de caracterização R aplicável a si mesma. Assim, o vermelho desse sofá só existe na medida em que esse objeto (o sofá) tem a propriedade de cair sob o conceito de ser vermelho, no dizer fregeano. Ou, expessando isso da forma que me parece mais satisfatória, segundo o qual conceitos se aplicam a tropos: o vermelho desse sofá só existe na medida em que a regra de caracterização constitutiva do conceito de ser vermelho tem a propriedade de se aplicar à propriedade-s desse sofá de ser vermelho; mas isso significa também dizer que a propriedade-s que esse sofá tem de ser vermelho possui a propriedade de ter, aplicável a si mesma, a regra de caracterização constitutiva do conceito de ser vermelho, ou seja, a propriedade-s possui a propriedade de satisfazer ou preencher a regra que a caracteriza. É um engano, pois, pensarmos que a identificação da existência com uma propriedade conceitual faz com que ela deixe de ter a ver com a referência do conceito, com as coisas em si mesmas. É uma característica peculiar do conceito de existência a de que, sendo propriedade de um conceito de primeira ordem, ele deve ser também uma propriedade de coisas pertencentes ao mundo real.
     A ideia de que a existência é uma propriedade de conceitos diz respeito a termos gerais, mas também a termos singulares, posto que ambos expressam sentidos-conceitos. Consideremos o caso dos nomes próprios. Como vimos, eles tem sentidos, regras de identificação. Como a existência é a aplicabilidade de uma regra semântico-cognitiva, a existência do objeto referido pelo nome próprio precisa ser a aplicabilidade de sua regra de identificação.
     Podemos tentar demonstrar isso transformando os nomes próprios em expressões predicativas aplicadas a um único particular: isso mostrará que os sentidos dos nomes próprios podem ser reduzidos a conceitos de predicados. Uma primeira maneira de se tentar fazer isso é predicalizar o nome próprio. Assim, ‘Sócrates’ em “Sócrates existe” pode ser predicalizado de modo a obtermos a frase “Existe algo que socratiza”, ou “Ǝx(x socratiza)”, o que é lingüisticamente bizarro, além de ser inadequado ao deixar aberta a possibilidade de existir mais de um Sócrates. Apesar disso “Ǝx(x socratiza)” aponta na direção certa ao sugerir que a existência do portador do nome próprio seja uma propriedade de conceitos-sentidos de termos predicativos, pois o verbo socratizar pode ser visto como abreviação dos predicados que comparecem naquelas descrições definidas que o nome próprio ‘Sócrates’, seguindo a sugestão fregeana, está a abreviar.  Para ilustrar podemos supor que a frase “Ex(x socratiza)” seria capaz de ser mais adequadamente parafraseada como:

Ex (x foi o inventor da maiêutica, x foi o mestre de Platão... x foi o marido de Xantipa).

Naturalmente, isso nos convida a analisar a função individuador do artigo definido à lá Russell, mostrando que os predicados quantificados que se aplicam a um único objeto, como em:

Ex (x foi inventor da maiêutica e exatamente um x foi inventor da maiêutica, x foi mestre de Platão e exatamente um x foi mestre de Platão... x foi marido de Xantipa e exatamente um x foi marido de Xantipa).

     A simbolização pode tornar o que queremos dizer mais preciso ao demonstrar que o x que comparece em cada locução é sempre o mesmo. Assim, simbolizando os predicados ‘inventor da maiêutica’ por P1, ‘mestre de Platão’ por P2, e ‘marido de Xantipa’ por Pn, e substituindo as vírgulas por disjunções, a frase acima se deixa formular simbolicamente como se segue:

Ǝx (P1x ᴗ P2x... ᴗ Pnx) & (y) ((P1y → (y = x)) & (P2y → (y = x))… & (Pnx → (y = x)))

     O importante é notar que o sentido do nome próprio é traduzido em conceitos-sentidos de expressões predicativas como P1, P2 e Pn, que em nossa análise nada mais são do que regras de caracterização de predicados, que aqui são mostrados como se aplicando a uma única coisa. Predicar a existência do nome próprio assim analisado é dizer que o seu sentido, a sua regra de identificação, se aplica. Como essa regra de identificação do nome foi aqui analisada em termos de um conjunto de regras de caracterização de predicados que devem ser aplicadas a um mesmo e único indivíduo, a existência do portador do nome próprio passa a ser a aplicabilidade de regras de caracterização de predicados a um mesmo e único indivíduo.  (desconsidero aqui a crítica de Russell ao conceito de sentido em Frege: até onde chegamos sentidos fregeanos e análises à lá Russell de descrições definidas são duas coisas perfeitamente compatíveis).
     Aqui alguém poderia objetar que semelhante tentativa descritivista de explicar o sentido do nome próprio estão fadadas ao fracasso, pois são uma versão da teoria do agregado, que encontra bem conhecidas dificuldades nas objeções feitas a ela por Kripke, Donnellan e outros. Contudo, é preciso notar que, diversamente de um preconceito corrente, essas objeções pouco afetam versões mais sofisticadas da teoria descritivista, tendo sido respondidas em sua maioria por J. R. Searle.[21] A teoria do agregado pode não convencer, mas não foi refutada.[22] Além disso, mesmo a análise que apresentei acima é uma simplificação. No capítulo 3 do presente livro desenvolverei uma versão mais elaborada da teoria do agregado, que possui (em meu modesto juizo) maior poder explicativo do que qualquer teoria anterior e permite respostas mais completa aos contra-exemplos conhecidos, além de demandar análises formais mais sofisticadas do que a aqui proposta.
     A grande vantagem da maneira de conceber a existência propugnada por Frege é que não encontraremos problemas em negá-la. Se ao afirmarmos a frase “Vulcano não existe” a negação da existência devesse ser aplicada ao próprio objeto, teríamos primeiro de identificar o objeto, para então podermos negar que ele possui a propriedade de existir. Mas como para identificarmos o objeto precisaríamos admitir que ele existe, nós cairíamos em contradição. Ou seja: teríamos de admitir que a existência de Vulcano não pode ser negada. Mas, em nossa interpretação da concepção fregeana isso não é necessário. Pois tudo o que fazemos ao negar a existência de Vulcano é admitir que o conceito-sentido expresso pelo nome próprio ‘Vulcano’ não cai no conceito de existência por não ser um conceito preenchido ou satisfeito ou uma regra efetivamente aplicável. Substituindo o nome ‘Vulcano’ pelo predicado ‘vulcaniza’, a sentença fica sendo “~Ex (x vulcaniza)”, segundo a qual o sentido do nome próprio é o sentido de um predicado, uma regra conceitual de caracterização.  Vimos que essa formulação é incorreta porque não individua o portador do nome como sendo um e o mesmo. Assim, é melhor dizer que esse sentido do nome pode ser expresso por descrições definidas, pelos conceitos por elas expressos quando elas são transformadas em predicados por uma análise russelliana. Assim, na análise sugerida “Vulcano existe” é uma maneira abreviada de dizer que (para ilustrar) “~Ex (x é o planeta que orbita entre Mercúrio e o Sol)”, melhor dizendo, “~Ex (x é um planeta que orbita entre Mercúrio e o Sol e para todo y, se y for um planeta que orbita entre Mercúrio e o Sol, y = x).” O que cai sob o escopo de ‘~Ǝx’ é aqui a expressão da regra de identificação do nome próprio, que é constituída de regras de caracterização de predicados que devem ser aplicadas a uma e a mesma coisa. O que ‘~Ǝx’ faz é apenas negar a efetiva aplicabilidade dessa regra de identificação.
     O entendimento da existência como a propriedade de aplicabilidade de regras conceituais permite-nos explicar as ampliações a que a aplicação desse conceito está sujeita. Pois embora a existência seja primariamente atribuída a propriedades e objetos do mundo externo ou estados psicológicos, também podemos dizer que objetos imaginários existem. Alguns crêem que até mesmo de objetos contraditórios existem. Podemos de algum modo dizer mesmo que tudo existe, pois não há nada que de modo algum exista. E até mesmo da própria existência pode ser dito que ela existe. Como isso é possível?
     Sobre a existência de objetos imaginários devemos notar que as regras conceituais podem ser aplicadas apenas na imaginação. Se imagino Vulcano orbitando o sol eu aplico a regra de identificação desse nome em minha imaginação (mesmo que em uma concepção vaga e precária). Considerando outro exemplo: a Alice do conto “O mágico de Oz” não existe no mundo real; mas ela existe no pequeno mundo ficcional construído por essa estória. Ela existe porque temos uma regra para a sua identificação nesse mundo, a qual se demonstra aplicável, preenchida, satisfeita dentro desse domínio. Ela é objeto de aplicação de conceitos predicativos como os de ser a menina de oito anos, que tem um gato, cuja casa foi levada por um tufão... nesse mundo imaginário.
     Contudo, a atribuição de existência a contradições como “o quadrado redondo” já não procede, pois não podemos combinar a regra de identificação do quadrado com a regra de identificação do redondo, de modo a construir uma regra de identificação que seja aplicável em algum mundo possível. Por isso é mister reconhecer que o quadrado redondo não existe, posto que não podemos aplicar uma regra cognitiva que somos incapazes de construir. Essa é de fato a nossa intuição mais forte: contradições não existem, dado que são carentes de sentido cognitivo.[23]
     Finalmente, sabemos que a própria existência existe no sentido de que sabemos que a aplicabilidade de regras conceituais aos diversos donínios existe. Ela existe no sentido de que podemos construir uma metameta-regra cujo critério de aplicação é a aplicabilidade de meta-regras conceituais de existência. Como essas metaregras de fato se aplicam (como as coisas existem), a metameta-regra – que demanda a aplicabilidade das meta-regras para se tornar aplicável a elas – também se aplica, disso resultando a segura conclusão de que a própria existência também existe!

A referência da frase
Passemos agora à referência da frase (Satz) em Frege. Ele a entende como devendo ser aquilo que permanece o mesmo quando mudamos o sentido dos componentes da frase sem alterar a sua referência. Isso acontece quando substituímos “A estrela da manhã é iluminada pelo sol” por “A estrela da tarde é iluminada pelo sol”; aqui as referências dos componentes permanecem as mesmas. Logo, a referência da frase também deve permanecer a mesma. Mas o que não se alterou? A resposta de Frege é: o valor-verdade. Ambas as frases permanecem verdadeiras. Disso ele conclui que ao menos nas linguagens extensionais, a referência das frases é o seu valor-verdade. Em adição a isso ele nota que a busca da verdade é o que nos leva do sentido para a referência. E o valor-verdade é certamente da maior importância (Bedeutung) para a lógica, por ser aquilo que deve ser preservado em argumentos válidos.
    Não obstante, a despeito de qualquer vantagem teórica que essa sugestão possa prover, ela não deixa de ser absurdamente implausível. A conseqüência anti-intuitiva óbvia de se supor que a referência da frase seja o seu valor-verdade é que todas as frases verdadeiras passam a ter a mesma referência, que é o Verdadeiro (das Wahre), enquanto todas as frases falsas passam a ter como referência o Falso (das Falsche). Contudo, é completamente contra-intuitivo que frases que nada têm em comum, como “2 + 2 = 4” e “Napoleão nasceu em Córsega” tenham a mesma referência, além de conduzir a resultados absurdos, como o de que a frase “2 + 2 = 4 é o mesmo que Napoleão nasceu em Córsega”, por conter duas frases referindo-se à mesma coisa, ou seja, ao Verdadeiro, seja verdadeira. Além disso, a referência da frase, que deveria pertencer ao mesmo domínio ontológico da referência dos seus componentes, passa usualmente para outro domínio: enquanto a referência do nome ‘Napoleão’ é o próprio Napoleão de carne e osso, a referência de “Napoleão nasceu em Córsega” é o objeto abstrato o Verdadeiro. Por fim, mesmo sob a perspectiva da semântica fregeana essa idéia é falsa, pois viola um princípio da composicionalidade, segundo o qual o todo depende das pertes, de modo que uma alteração na parte produz uma alteração no todo. Pois se a referência da frase for o seu valor-verdade, ela não pode ser constituída por partes, posto que o valor-verdade é um objeto simples, sem partes. Os componentes da frase, porém, tem referências próprias, que não se identificam com o valor-verdade.
     Esse resultado é tanto menos aceitável por existir uma alternativa muito mais intuitiva à mão, a qual, como notou Antony Kenny, não foi sequer aventada por Frege.[24] Podemos, como Wittgenstein, Russell e outros, admitir que a referência de uma frase possa ser o fato capaz de verificá-la, entendido como um complexo de entidades dado no mundo. Afinal, fatos seriam independentes, completos, fechados, satisfazendo a definição fregeana de objeto que seria apropriada à referência da frase. Admitindo por hipótese essa resposta, uma pergunta se impõe: como estabelecer qual o fato-referência do pensamento que a frase exprime? Considere as seguintes frases:

1.     A estrela da manhã é a estrela da manhã,
2.     A estrela da manhã é a estrela da tarde,
3.     A estrela da manhã é Vênus,
4.     Vênus é o segundo planeta a orbitar o sol,
5.     A estrela da manhã é o segundo planeta a orbitar o sol.

Como todos os componentes dessas frases possuem a mesma referência, pelo raciocínio fregeano essas frases deveriam ter todas elas as mesmas referências também, só mudando os seus sentidos, dependentes dos sentidos variados de seus componentes. Isso nos mostra que o fato, entendido como a referência fregeana da frase, não pode ser aquilo que é imediatamente considerado quando usamos a palavra ‘fato’ na introdução de tais frases em um discurso indireto, ou seja, após a cláusula-que. Por exemplo, quando digo “É um fato que Vênus é a estrela da manhã”, estou considerando um fato diferente daquele que considero quando digo “É um fato que Vênus é o segundo planeta a orbitar o sol”, pois o fato de Vênus ser a estrela da manhã não é obviamente o mesmo que o desse planeta orbitar o sol. Por isso, os fatos imediatamente enunciados por essas frases não podem ser o fato-referência, o fato fundamentador responsável pelo valor-verdade de todas elas.
     A questão que se levanta é: existe uma descrição privilegiada do fato fundamentador que ultimamente verifica os pensamentos expressos por todas essas frases, além dos pensamentos expressos por um número indeterminado de outras frases de identidade que podem ser produzidas acerca de Vênus? Minha sugestão é a de que essa tarefa possa ser realizada por frases de identidade entre nomes próprios. Admitindo por hipótese que em sua intuição fundamental a teoria dos nomes próprios como abreviações de agregados de descrições, primeiramente aventada por Frege, seja correta, então o nome próprio ‘Vênus’ abrevia em seu sentido modos de apresentações exprimíveis através de descrições como ‘a estrela da manhã’, ‘a estrela da tarde’, ‘o segundo planeta a orbitar o sol’ etc. Ora, nesse caso minha proposta é de que a frase capaz de descrever o fato fundamentador, que seja o verificador único das frases de 1 a 4 seja a seguinte:

(i)                Vênus é (o mesmo que) Vênus.

Essa frase seria capaz de se referir ao único fato verificador, que ultimamente verifica todas as outras frases acima. Com efeito, se o nome próprio ‘Vênus’ é uma abreviação das descrições definidas capazes de identificar univocamente o seu objeto, então esse nome próprio abrevia as descrições ‘a estrela da manhã’, a estrela da tarde’, ‘o segundo planeta a orbitar o sol’ etc. Ora, nesse caso a frase ‘Vênus é Vênus” é capaz de implicar “A estrela da manhã é Vênus” pela substituição da primeira ocorrência do nome ‘Vênus’ pela descrição ‘a estrela da manhã’, disso resultando a frase (3), e assim com todas as outras frases co-referenciais acima apresentadas. Uma objeção a ser feita a essa sugestão seria a de que “Vênus é Vênus” é uma tautologia analítica, cuja verdade não demanda verificação. Mesmo assim “Vênus é Vênus” não é o mesmo que “Alguna coisa é alguma coisa”, possuindo o nome próprio ‘Vênus’ um conteúdo cognitivo a ser considerado.

O status ontológico dos fatos
Importa ainda responder a uma controvérsia entre os que julgam que fatos empíricos são entidades objetivas que estão no mundo e aqueles que, como Frege, acreditavam que fatos são sempre entidades abstratas ou algo assim. Em um influente artigo P. F. Strawson sugeriu que fatos empíricos – o que certamente deve incluir fatos observacionais – são meros correlatos pseudo-materiais, não se encontrando, pois, no mundo.[25] Seu mais incisivo argumento é o de que os fatos empíricos não são espaço-temporalmente localizáveis, diversamente dos eventos. Assim, em um exemplo clássico, o evento da travessia do Rubicão por Cesar, por exemplo, deu-se no ano 47 a.C.; mas esse fato não ocorreu no ano 47 a.C., pois fatos simplesmente não ocorrem.
     Contudo, essa controvérsia é falsa. Uma maneira fácil de contorná-la foi proposta por John Searle. Para ele nós precisamos de uma palavrinha para designar aquilo no mundo que torna o pensamento verdadeiro. A palavra fato encontra-se à mão. Assim, por que não usá-la estipulativamente para designar o fazedor da verdade, seja ele qual for?[26]
     Contudo, parece-me claro que mesmo esse recurso é desnecessário, sendo ao menos curioso que os argumentos de J. L. Austin contra a posição de Strawson tenham sido tão pouco considerados.[27] Não estou querendo dizer que tudo o que podemos chamar de fato empírico seja objetivamente real. Podemos dizer que é um fato que o sol não é verde, mas esse não é propriamente um estado de coisas efetivamente dado no mundo. Mas quero sugerir que em geral os fatos empíricos, particularmente os fatos ditos observacionais, devem ser considerados objetivamente reais. Acredito ter um argumento-chave para regenerar a ideia de que os fatos empíricos são correlatos objetivos dos pensamentos, de modo que fatos empíricos enunciados por sentenças afirmativas singulares possam ser, no final das contas, combinações de elementos dados no mundo (supostamente propriedades-s como correlatos de predicados e combinações de propriedades-s como correlatos de termos singulares). Minha sugestão de princípio é a de que a oposição fato-evento proposta por Strawson é incorreta, pois eventos nada mais são do que subtipos de fatos. Melhor dizendo: ‘fato’ é uma palavra guarda-chuva, um hiperônimo, que cobre um campo semântico mais abrangente, no qual se incluem os eventos. Hipônimos de ‘fato’ são situações, estados de coisas, eventos, acontecimentos, processos. Esses hipônimos, por sua vez, dividem-se em duas classes, sendo que entre elas é que ocorre a oposição entre ocorrência e alguma outra coisa. Essas duas classes são as de:

1.      Fatos estáticos (formais ou empíricos): situações, circunstâncias, estados de coisas...
2.      Fatos dinâmicos (somente empíricos): eventos, ocorrências, processos, acontecimentos... [28]

     Fatos estáticos definem-se como aqueles que mantém as mesmas relações entre seus elementos durante todo o período de sua existência. Fatos formais da matemática e da lógica são estáticos em um sentido trivial: o fato de que 2 + 2 = 4 é atemporal. Mas também há muitos fatos empíricos, como o de que Frege usava barba (situação), o de que ele foi casado (circunstância), o de que o livro está sobre a mesa (estado de coisas), o de que a Terra orbita o sol (estado de coisas), que são estáticos.
Mesmo o fato de a Terra orbitar o sol é estático no sentido de que a propriedade da terra de girar em torno do sol permanece a mesma.
     Já os fatos dinâmicos são aqueles que se deixam analisar em termos de configurações de elementos que se alteram durante o período de sua existência seguindo certa ordem. Por exemplo: o evento da queda das Torres Gêmeas. A diferença entre o evento e o processo é que o processo é comparativamente mais duradouro. Assim, a Primeira Guerra Mundial foi um processo desencadeado pelo evento do assassinato do arquiduque austríaco. E o aquecimento global é um processo muito mais gradual. Tudo isso, no entanto, são obviamente fatos: que as Torres Gêmeas desmoronaram, que a Primeira Guerra se deu, que o arquiduque foi assassinado e que o aquecimento global está ocorrendo são fatos empíricos.
     A travessia do Rubicão por César, por sua vez, é um caso especial. Trata-se de uma expressão ambígua e enganadora: ela é geralmente entendida de forma ilustrativa como se referindo a um fato social estático; o estado de coisas instaurado pela entrada do exército de Cesar no território italiano, violando a lei que proibia essa ação e forçando o estado romano a declarar guerra contra ele. Raramente a travessia do Rubicão será entendida no sentido literal, como um fato dinâmico, o evento físico da travessia, constituído pelas localizações de César em relação ao Rubicão em t1, em t2, até tn.
     Devido à natureza própria dos fatos dinâmicos, deles dizemos não só que se situam, mas também que ocorrem no tempo, enquanto dos fatos estáticos dizemos apenas que eles se situam no tempo, quando nele se encontram. Com efeito, apenas os fatos dinâmicos têm a propriedade de ocorrer no tempo, sendo a palavrinha ‘evento’ a mais apropriada para designar essa propriedade. Parece, pois, que por não terem percebido que eventos são subespécies de fatos, percebendo apenas que só dos eventos dizemos que ocorrem no tempo, filósofos como Strawson concluíram apressadamente que só os eventos estão no tempo, opondo-os aos fatos atemporais. Mas isso não é verdade, pois a própria intersubstitutividade salva-veritate evidencia que eventos são subclasses de fatos: não é incorreto dizer que o evento, a ocorrência, da travessia do Rubicão por Cesar foi um fato e que esse fato se deu em 47 a.C., um fato concreto dinâmico. Por outro lado, o estado de coisas social estabelecido pela travessia daquele riacho foi muito mais duradouro, pois foi um fato estático social, uma situação da qual resultou, como é sabido, o fim da república.
     Por sua abrangência maior, o fato continua sendo o candidato ideal ao papel de fazedor da verdade dentro do contexto da teoria correspondencial da verdade. Nesse caso o fato dado no mundo poserá ser visto como sendo constituido de uma configuração estática ou dinâmica de elementos, a qual pode corresponder ou não à configuração de elementos criteriais (propriedades ou sistemas de propriedades-s) demandada pela regra de verificação, tal como ela se deixa conceber pelos sujeitos epistêmicos. E não parece implausível a sugestão de que a correspondência depende da constatação de alguma espécie de isomorfismo estrutural entre as configurações criteriais concebidas e demandadas pela regra, de um lado, e as configurações de elementos (combinações de propriedades-s) constitutivos ou indicadores do fato no mundo, de outro. Essa sugestão, como outras que aqui apresentei, é tal que contra ela poderia ser erguida uma muralha de argumentos que não seria possível discutir no presente texto. Contudo, é do meu direito fazê-la, lembrando que em filosofia não existem verdades anunciadas.

Sentido da frase: o pensamento
Passemos agora ao sentido da frase. Aqui Frege deu uma dentro! Ele acertou ao sugerir que o sentido da frase completa é o pensamento (Gedanke) por ela expresso. Ele chega a esse resultado pela aplicação do seu princípio da composicionalidade, segundo o qual o sentido de uma expressão complexa é formado pelos sentidos de suas expressões componentes apresentadas em certa ordem. Se, por exemplo, na frase “A estrela da manhã é um planeta” substituirmos a expressão ‘a estrela da manhã’ por ‘a estrela da tarde’, que é co-referencial, mas de sentido diverso, a referência da frase não pode mudar, mas muda o sentido, e muda, sem dúvida, o pensamento por ela veiculado. Como o pensamento é aquilo que se modifica quando uma expressão componente da frase é substituída por uma expressão co-referencial com sentido diverso, Frege concluiu muito coerentemente que o pensamento é o sentido da frase.
     A palavra ‘pensamento’ é ambígua. Ela pode ser usada para designar um processo psicológico de pensar, como na frase “Estava agorinha mesmo pensando em você!”. Mas ela também parece designar algo que independe de ocorrências mentais particulares, um conteúdo de pensamento como o expresso pelo proferimento “O pensamento expresso pela frase 12 x 12 = 144 é verdadeiro”. Frege tinha esse último sentido em mente. Nesse sentido a palavra ‘pensamento’ é o único correspondente na linguagem natural a termos técnicos denotadores daquilo que a frase diz, como ‘proposição’, ‘conteúdo proposicional’ ou ‘conteúdo enunciativo’.[29]
     Para Frege faz parte do pensamento tudo o que contribui para a determinação do valor-verdade da frase. Por isso as frases “A estrela da manhã é Vênus” e “A estrela da tarde é Vênus” podem ser contadas como exprimindo pensamentos diferentes: os termos singulares que compõem essas duas frases de identidade referem-se ao mesmo planeta, mas por uma combinação de modos de apresentação diferentes, por diferentes caminhos determinadores do seu valor-verdade, ou ainda, por diferentes regras de identificação constitutivas dos seus procedimentos verificacionais. (Já as sentenças “Alfredo não chegou” e “Alfredo ainda não chegou”, escreve Frege, expressam o mesmo pensamento, pois o advérbio ‘ainda’ exprime apenas uma expectativa sobre a chegada de Alfredo, não contribuindo para o valor-verdade.)[30]

O pensamento como o portador da verdade
Outra tese fregeana bastante plausível é a de que o portador da verdade não é a frase, mas o pensamento. Para Frege aquilo que dizemos ser verdadeiro (ou falso) deve ser sempre verdadeiro (ou falso) e só o pensamento, sendo imutável, possui a estabilidade requerida. Com efeito, frases idênticas exprimindo pensamentos diferentes podem possuir diferentes valores-verdade; esse é o caso de um proferimento indexical como “Sinto dores”, cujo pensamento se altera com o falante. E frases diferentes exprimindo o mesmo pensamento, como “It rains” e “Il pleut” proferidas no mesmo contexto, devem possuir o mesmo valor-verdade. Assim, na relação entre pensamento e valor-verdade há uma covariância que falta à relação entre frases e valor-verdade, o que nos leva à conclusão de que o portador da verdade, aquele que a detém propriamente, é o pensamento e não a frase.[31]
     Frege também sugeriu que aquilo que chamamos de fato é o pensamento verdadeiro, pois quando o cientista descobre um pensamento verdadeiro ele diz que descobriu um fato.[32] Mas essa conclusão não é forçosa, pois o cientista também poderá dizer a mesma coisa – e com mais propriedade – entendendo por fato aquilo que corresponde ao seu pensamento verdadeiro. Afinal, é natural pensar que se ele descobre o pensamento verdadeiro é porque a fortiori ele descobriu o fato que lhe é correspondente. A razão pela qual Frege pensava que o fato é o pensamento verdadeiro é, aliás, que ele defendia uma concepção da verdade como redundância. A mais natural e plausível concepção de verdade, porém, é a correspondencial, sugerindo-nos que fatos são complexos de elementos no mundo, capazes de serem, de algum modo, isomorficamente representados pelos seus pensamentos, os quais, quando isso acontece, são chamados de verdadeiros.[33] No que se segue irei adotar a concepção correspondencial da verdade em minha revisão dos sentidos fregeanos em termos de regras semântico-cognitivas para ver até onde isso nos poderá levar.

O pensamento como a própria regra de verificação
Em consonância com a nossa reconstrução pensamentos também devem poder ser parafraseados em termos de regras semânticas. Se o sentido dos constituintes da frase são regras, então o sentido da frase deve ser uma combinação dessas regras, como sugere a sua dependência da sintaxe da frase. Mas se o pensamento é uma combinação de regras ou, se quisermos, considerando que uma combinação de regras é uma regra, uma regra resultante dessa combinação, então a propriedade do pensamento de ser o portador da verdade ou da falsidade é uma propriedade dessa regra ou combinação de regras. A combinação de regras que constitui o pensamento deve ter a propriedade de ter um valor-verdade. Mas o que torna esse sentido-pensamento-regra verdadeiro ou falso? A resposta é: a sua efetiva aplicabilidade ao fato, a sua satisfação, o seu preenchimento pelo fato. O sentido-pensamento-regra expresso pela frase será verdadeiro se esse pensamento-regra for aplicável ao fato e falso se ele não for a ele aplicável. Se a frase não possuir um sentido-pensamento-regra que possa ser ao menos aplicável, então ela não poderá por definição ter sentido.
 Chegamos aqui, por outro caminho, ao famoso princípio da verificação. Esse princípio foi sugerido pela primeira vez por Wittgenstein aos membros do Círculo de Viena no final de década de 1920.[34] Segundo o princípio da verificação, o sentido cognitivo da frase assertiva é a sua regra (método, procedimento) de verificação. Se supusermos que o sentido ou conteúdo cognitivo da frase seja a sua regra de verificação, e admitirmos que o sentido da frase é o pensamento por ela expresso, então esse pensamento obviamente nada mais é do que a própria regra de verificação da frase. Como o sentido-pensamento expreesso pela frase deve ser uma combinação de regras semântico-cognitivas, o mesmo podemos dizer da regra de verificação, que no caso da frase predicativa singular nada mais deve ser do que uma combinação da regra de identificação do objeto (sentido do termo singular) com a regra de caracterização do predicado (sentido do termo predicativo), uma conclusão que, em outro contexto, já havia sido chegada por Ernst Tugendhat.
     A identificação que pode ser especulativamente proposta entre sentido-pensamento e regra de verificação da frase é corroborada pela sugestão fregeana de que o critério para identificarmos aquilo que pertence ao pensamento é ter alguma função no estabelecimento de sua verdade. Sendo assim, então o sentido-pensamento fregeano que a frase exprime é o mesmo que o significado cognitivo identificado pelo verificacionista com a regra (procedimento, método) que permite o reconhecimento da verdade da frase, o que costuma redundar para Wittgenstein em um ramificado de procedimentos verificacionais avaliáveis, baseados em uma diversidade hierarquizada de configurações criteriais.[35]
     Voltemos agora à relação entre pensamento e valor-verdade. Se o pensamento é o portador da verdade e ele é a regra de verificação, então é a própria regra de verificação que é o portador da verdade (não em casos concretos de sua aplicação, obviamente, mas na abstração deles, como regra type). E como o que torna o pensamento verdadeiro (assumindo a teoria correspondencial) é a sua correspondência com o fato, o que torna a regra de verificação verdadeira deve ser a correspondência das configurações criteriais por ela demandadas com aquilo que às satisfaz e ou as preenche e, em última análise, com o fato (ou os fatos) no mundo. Mas isso é o mesmo que dizer que a regra de verificação é verdadeira quando essa regra é efetivamente aplicável (ou seja, demonstradamente aplicável e não aplicável apenas em princípio), ou seja, quando as configurações criteriais cuja satisfação ela demanda são satisfeitas. Assim, o pensamento será considerado verdadeiro quando a regra de verificação que o constitui se demonstrar aplicável; e ele será considerado falso quando a regra de verificação que o constitui não se demonstrar aplicável. Daí ser possível também dizer que a efetiva (demonstrada, garantida, contínua) aplicabilidade da regra de verificação (enquanto o fato existir) é o mesmo que a verdade do pensamento, e que, por outro lado, a efetiva (demonstrada, garantida, contínua) inaplicabilidade da regra de verificação (dado à inexistência do fato) é o mesmo que a falsidade do pensamento.
     Note-se que sob esse entendimento o fato não deixa de ser uma combinação de elementos dados no mundo. Por sua vez, parece razoável pensar que essa combinação de elementos constitutiva do fato deve satisfazer a regra verificacional quando ela é correspondente, por isomorfismo estrutural, às combinações de configurações criteriais demandadas pela regra verificacional para que ela se demonstre efetivamente aplicável. O que chamamos de juízo, por sua vez, é o reconhecimento que o sujeito epistêmico faz da efetiva aplicabilidade da regra verificacional, o reconhecimento de que a verificação de um ou de outro modo foi realizada. Por isso dizer “É verdade que p”, “Eu ajuízo que p” ou “Eu afirmo que p” são coisas similares.
     Essas admissões conjecturais sugerem uma inesperada proximidade entre os conceitos de verdade e existência aqui examinados. Pois o conceito de verdade aplicado ao conteúdo de pensamento se demonstra análogo ao conceito de existência aplicado ao conteúdo conceitual. Pois assim como a existência é a efetiva aplicabilidade da regra de caracterização ou identificação de um conteúdo conceitual em certo domínio, a verdade é a efetiva aplicabilidade da regra verificacional constitutiva de um conteúdo de pensamento a um fato. Usando uma terminologia fregeana: assim como a existência é a propriedade de segunda ordem do conceito de sob ele cair um objeto, a verdade deve ser a propriedade de segunda ordem do pensamento de sob ele “cair” o fato que lhe corresponde. A verdade é, pois, o correspondente da existência ao nível da combinação de sentidos que constitui o pensamento. Ou ainda, expressando-nos de um modo um tanto hegeliano: a verdade é a existência do pensamento, enquanto a existência é a verdade do conceito.

O status ontológico do pensamento
Antes de terminarmos é importante notar que para Frege os pensamentos (incluindo os sentidos dos quais são compostos) são entidades platônicas pertencentes a um terceiro reino ontológico, que não é nem psicológico nem físico. Para ele há primeiro um reino de entidades físicas, como os objetos concretos, que são objetivas e reais. Elas são objetivas no sentido de serem intersubjetivamente acessíveis e independentes da vontade: e são reais no sentido de estarem situadas no espaço e no tempo. Há um segundo reino, das entidades psicológicas, dos estados mentais que ele chama de representações (Vorstellungen). Essas entidades são subjetivas e reais. Elas são subjetivas por não serem interpessoalmente acessíveis e geralmente dependerem da vontade. Contudo, nem por isso elas deixam de ser reais, pois se encontram no espaço e no tempo, a saber, nas cabeças dos que as têm. Há, por fim, um terceiro reino, dos pensamentos e dos seus sentidos constitutivos. Esse reino é objetivo e não real. Ele é objetivo porque os pensamentos são intersubjetivamente acessíveis; mesmo assim ele não é real, posto que os pensamentos não se encontran nem no espaço nem no tempo.
     Com efeito, para Frege os pensamentos são atemporais (eternos), imutáveis, para sempre verdadeiros ou falsos, além de não serem criados, mas descobertos por nós. A razão que ele tem para introduzir esse terceiro reino de pensamentos é que pensamentos são comunicáveis e, para serem comunicáveis, eles precisam ser objetivos, ou seja, intersubjetivamente acessíveis. Representações são, ao contrário, estados psicológicos subjetivos, contingentes, variáveis em sua dependência dos objetos. Por isso para Frege a única maneira de explicar como é possível que sejamos capazes de compartilhar de um mesmo pensamento é distingui-lo rigorosamente das representações psicológicas. Sem isso será sempre possível objetar que se os pensamentos estiverem no nível das representações psicológicas, eles poderão sofrer variações de pessoa para pesso. Eles serão como o que Frege chamava de colorações, como é o caso do variável sentimento que uma melodia desperta em pessoas diferentes. Além disso, se fossem representações os pensamentos não possuiriam a estabilidade requerida ao papel de portadores da verdade.
     Apesar disso, muito poucos hoje aceitariam a solução platonista de Frege. Afinal, ela parece comprometer-nos com uma duplicação dos mundos, sem falar das demais dificuldades do platonismo. O preço que Frege estava disposto a pagar para não se incorrer no subjetivismo psicologista parece-nos hoje alto demais.
     Acredito que a dificuldade antevista por Frege na sugestão de que o status ontológico do pensamento como o portador da verdade possa ser de ordem psicológica eram exageradas e que não é difícil garantir a comunicabilidade, a objetividade, a invariabilidade e a estabilidade do pensamento psicologicamente concebido. Para demonstrá-lo quero aplicar uma estratégia muito simples, inspirada no particularismo ontológico dos filósofos do empirismo inglês, segundo o qual o universal não existia para além da similaridade com uma idéia mental.[36] Ora, chamando o pensamento no sentido ambicionado por Frege de algo estável, espacio-temporalmente ilocalizado, portador da verdade... de pensamento-f, e chamando o pensamento como mera ocorrência psicológica de pensamento-p, parece que podemos garantir a comunicabilidade e estabilidade do pensamento-f sem hipostasiá-lo como uma entidade platônica e mesmo sem recorrer a classes de pensamentos-p através da seguinte definição:

Um pensamento-f X (Df.) = um dado pensamento-p X instanciado em alguma mente ou algum outro pensamento-p Y qualquer igual a X, instanciado na mesma mente ou em alguma outra mente qualquer.

     Essa definição reduz o pensamento-f a pensamentos-p, mas sem que ele perca a sua estabilidade, a sua falta de localização espacio-temporal específica e a sua função de portador da verdade. Exemplificando: o pensamento-f expresso na frase “A torre Eiffel é feita de metal” pode ser parafraseado como o pensamento-p que eu tenho em mente ao escrever essa frase, mas também por, digamos, o pensamento-p que você tem em mente ao lê-la, ou ainda, pelo pensamento-p que nós possamos vir a ter em outro momento ou que alguma outra pessoa qualquer tenha. Caracterizado pela disjunção entre pensamentos iguais instanciados em uma mesma mente ou em outra mente qualquer, o pensamento passa a ser considerado na abstração de sua dependência desta ou daquela mente humana específica na qual ele venha a se instanciar. Com isso evitamos recorrer não só a pensamentos ocorrências específicas, mas também a alternativa usual, que seria a de explicar os pensamentos-f em termos de classes de pensamentos-p iguais entre si, o que conduz a petição de princípio, dado que classes são candidatos a entidades abstratas.[37]
    Sob a definição proposta o pensamento-f não deixa de ser psicológico. Ele não é menos psicológico do que qualquer um dos pensamentos-p, posto que ele não é passível de ser considerado na independência de sua instanciação em ao menos uma mente qualquer que o pense. Assim, quando dizemos que temos um mesmo pensamento, o que queremos dizer é apenas que temos conteúdos psicológicos de pensamento instanciáveis que são aptos a serem considerados iguais entre si. Essa seria uma maneira de trazer os pensamentos do domínio das entidades platônicas para o domínio do psicológico, sem um comprometimento com a psicologia transitória dos indivíduos particulares.
     Com efeito, me parece claro que filósofos cometeram e ainda cometem o vicioso erro de ver identidade numérica onde existe apenas identidade qualitativa ou, como prefiro dizer, igualdade. É verdade que podemos falar do número 3 no singular e podemos perguntar pelo significado da palavra ‘chaussure’ usando o artigo definido, mas isso é assim apenas por simplicidade de expressão. O que na verdade temos em mente são ocorrências cognitivas de conceitos iguais do número 3 e ocorrências cognitivas de significados iguais da palavra ‘chaussure’ e nada mais. Podemos falar do pensamento de que 2 + 2 = 4, mas se não estamos nos referindo a uma ocorrência desse pensamento, estamos nos referindo a uma ou a outra ocorrência qualquer, sem levar em consideração ou especificar qual ela seja, sendo essa a razão pela qual falamos no singular do pensamento de que 2 + 2 = 4, e não dos muitos pensamentos iguais de que 2 + 2 = 4. A adoção da definição de pensamento-f (que é facilmente generalizável para conceitos ou sentidos fregeanos) recém-proposta é o máximo em abstração a que podemos chegar sem recairmos em alguma das variadas formas de reificação platonista que infestaram a filosofia em toda a sua história.
     Aqui se levanta, porém, a seguinte dúvida: mas como é possível que a definição psicologicamente dependente do pensamento recém-sugerida seja capaz de garantir a objetividade dos pensamentos-f, o seu acesso intersubjetivo, a sua comunicabilidade? Como vimos se para Frege pensamentos fossem entendidos como representações psicológicas, como é o caso dos pensamentos-p, eles seriam subjetivos, não sendo susceptíveis de serem comparados entre si. Daí a necessidade que Frege sente de admiti-los como pertencentes a um terceiro reino, de pensamentos-f entendidos como entidades não-psicológicas, platônicas. Mas essa conclusão parece precipitada. Não há dúvida que aquilo que Frege chama de representações, os conteúdos mentais psicológicos, podem ser em boa medida expressos pela linguagem e através dela subjetivamente identificados e reidentificados como sendo os mesmos. É verdade que um estado mental que só uma pessoa é capaz de ter, por exemplo, certa aura epiléptica, não é comunicável, a não ser indiretamente, por metáforas. Mas a maioria dos estados mentais, como é o caso de sentimentos, imagens, sensações, são coisas que todos nós somos capazes de ter e que podemos aprender a identificar em nós mesmos, através de indução por exclusão, e, em outras pessoas, através de indução por analogia, baseada em estados físicos intersubjetivos acompanhantes. É verdade que há argumentos filosóficos importantes contra essa resposta tradicional sobre nosso aprendizado do autopsíquico e do heteropsíquico, mas esse é um desses pontos que só filósofos colocam em questão.[38] Vale aqui o que vale para todos os paradoxos. É justo que eles sejam seriamente discutidos por razões heurísticas. Mas não é justo que os fatos bastante certos que por eles são questionados sejam desacreditados sempre que pretendamos filosofar, assim como não é justo acreditar que por causa do paradoxo sorites não existem montes. Se todo o campo da filosofia for coberto de paradoxos e eles forem levados excessivamente a sério, qualquer filosofia sistemática se torna impossível.
     É importante também salientar que não é necessário um modelo ou padrão único que sirva como objeto de consideração intersubjetiva. Não há certamente nenhuma instanciação de pensamento que sirva como um modelo fixo ao qual se precise recorrer. O que fazemos é simplesmente recorrer alternadamente à variedade de modelos que nos são dados geralmente pela memória: a um e depois a outro, que reconhecemos como sendo idêntico ao primeiro, e ainda a outro e assim por diante. Mas nenhum deles existe sem estar sendo psicologicamente instanciado. E a linguagem é o veículo de comunicação que permite a reprodução de igual conteúdo psicológico de pensamento nas mentes dos ouvintes.
     É verdade que pode a primeira vista parecer paradoxal que a linguagem seja capaz de reproduzir em outras mentes e mesmo na própria mente repetidamente o mesmo modelo subjetivo, o mesmo conteúdo de pensamento, a mesma instanciação reconhecível de uma combinação convencionalmente fundada de regras semânticas. Contudo, compare esse caso com o da informação genética, por exemplo, se reproduz idêntica em sucessivos indivíduos biológicos.[39] Por que com as convenções, que devidamente combinadas se instanciariam na constituição de pensamentos-p, e que são aptas a serem sustentadas em sua igualdade através de mecanismos de correção, não poderia acontecer o mesmo? Além disso, erros eventuais estarão sujeitos a mecanismos de correção intersubjetiva ou mesmo intrasubjetiva. Portanto, não há razão para pensarmos que as coisas não devem ser assim quando elas podem dever ser assim.
     Finalmente, podemos aplicar à tese da objetividade do pensamento-f a distinção feita por John Searle entre o que é ontologicamente e o que é epistemicamente objetivo e subjetivo.[40] Esse filósofo notou que possuímos uma tendência muito forte em tomar aquilo que é ontologicamente subjetivo por aquilo que é epistemicamente subjetivo. Contudo, uma coisa pode ser ontologicamente objetiva – por exemplo, a vantagem social da mudança da capital federal do Rio de Janeiro para Brasília – sem deixar de ser epistemologicamente subjetiva – pois não somos capazes de alcançar uma concordência interpessoal acerca disso. Em contrapartida, um fenômeno pode ser ontologicamente subjetivo sem deixar de ser epistemologicamente objetivo – por exemplo, a dor em ponta de faca provocada por um acesso de pancreatite aguda – pois todos (médicos e pacientes) irão concordar sobre a sua natureza e existência. Algo semelhante pode ser dito acerca dos pensamentos-f. Esses conteúdos de pensamento são, em sua natureza ontológica, subjetivos (posto que se não formos plantonistas teremos de admitir que esses conteúdos são sempre redutíveis a eventos psicológicos que se instanciam em alguma mente); mas nem por isso eles deixam de ser epistemologicamente objetivos. Afinal, nós somos intersubjetivamente capazes, tanto de admitir a sua existência quanto de avaliar o seu valor-verdade. Assim, uma frase como “O amor é o amém do universo” (Novalis), nem expressa um pensamento-f nem possui valor-verdade. Ela possui apenas coloração, sendo susceptível apenas a uma apreciação estética com certo grau de subjetividade. Contudo, uma frase como “A torre Eiffel é feita de metal”, exprime um pensamento-f que todos nós reconhecemos como sendo verdadeiro. Esse pensamento, como qualquer outro, é ontologicamente subjetivo, afinal ele ocorre em nossas mentes. Mas nem por isso deixa de ser epistemicamente objetivo no sentido fregeano, posto que tanto ele quanto o seu valor-verdade são plenamente avaliáveis e comunicáveis com base em nossas convenções e em nosso conhecimento dos fatos. Frege não foi aqui uma exceção: ele acreditava que o caráter ontologicamente subjetivo dos conteúdos de pensamento nos compromissaria inevitavelmente com a admissão de sua subjetividade epistêmica. E esse foi um erro seu.


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RECONSIDERANDO O VERIFICACIONISMO


O verificacionismo costuma ser visto hoje como uma relíquia da filosofia da primeira metade do século XX. Afinal, embora inicialmente defendido pelos filósofos do Círculo de Viena, parece que ele cedo se provou incapaz de resistir ao acúmulo de argumentos contrários, tanto de dentro quanto de fora do Círculo. Meu objetivo nesse artigo é mostrar que o princípio da verificabilidade não está tão morto quanto geralmente se acredita. Retornando à metodologia e assunções de Wittgenstein – que afinal foi quem primeiro teve a ideia – meu objetivo é apresentar alguns argumentos em defesa do que pode ser chamado de verificacionismo semântico, que consiste na sugestão de que o conteúdo cognitivo (ou informativo ou descritivo ou factual) de frases declarativas deva ser constituido por suas regras de verificação.

A origem do verificacionismo semântico
Um primeiro ponto a ser lembrado é que, diversamente do que se costuma pensar a idéia de que o significado de um enunciado é o seu modo de verificação não se deve aos filósofos do positivismo lógico. O introdutor do princípio foi Wittgenstein, como os próprios membros do círculo de Viena sempre reconheceram.[41] Com efeito, se consultarmos a obra desse filósofo, veremos que ele já formulava o princípio em suas conversações com Waismann de 1929, mantendo-o em seus escritos na década seguinte. Além disso, não há sequer evidência explícita de que ele tenha mais tarde abandonado o princípio em troca de uma concepção puramente performativa do significado como função do uso, como pensam alguns. Afinal, é perfeitamente admissível que o verificacionismo e a vaga tese posterior de que o significado é função do uso sejam reconciliáveis. Pois pode ser que, como escreveu Moritz Schlick, o melhor intérprete de Wittgenstein no período:

Enunciar o significado de uma sentença equivale a enunciar as regras de acordo com as quais a sentença é usada, e isso é o mesmo que enunciar o modo como ela pode ser verificada. O significado de uma proposição é o método de sua verificação.[42]

     Nessa leitura o significado é o modo de uso, que são regras de uso, o que inclui regras cognitivas, as quais, em se tratando de frases enunciativas, seriam regras de verificação.
     É sempre bom consultarmos o que disse o verdadeiro autor de uma idéia. Se compararmos o verificacionismo wittgensteiniano com o verificacionismo do Círculo de Viena, perceberemos que há contrastes marcantes. Um primeiro deles é que Wittgenstein não estava preocupado em utilizar esse princípio como uma arma para o combate à metafísica, como queriam os membros do círculo. O objetivo maior teria sido o de alcançar uma Übersicht pela elucidação de um princípio central, constituidor da função semântica de nossa linguagem representacional.
     Outra diferença marcante é que Wittgenstein não se preocupou em precisar seu princípio por meios formais, diversamente da maior parte dos membros do Círculo, particularmente Ayer a Carnap. Não estou objetando contra isso. O que me parece, contudo, é que um trabalho nessa direção precisaria ser antes respaldado por uma consideração suficientemente detida de como a linguagem natural realmente funciona, sendo provável que a desconsideração disso tenha precipitado distorções que acabaram por tornar o princípio aparentemente inviável.
     Uma vez dito isso quero começar examinando algumas considerações de Wittgenstein sobre o princípio da verificação. Depois disso irei examinar algumas famosas objeções ao princípio, no intuito de demonstrar que elas são mais frágeis do que aparentam.

Verificacionismo wittgensteiniano
Eis algumas das declarações de Wittgenstein apresentando o princípio da verificabilidade:

Uma frase (Satz) que não se deixa verificar de modo algum não tem nenhum sentido (Sinn).[43]
São duas frases verdadeiras ou falsas sob as mesmas condições, então elas têm o mesmo sentido (mesmo que elas nos pareçam diferentes).
Determino sob que condições uma frase pode ser verdadeira ou falsa, então determino desse modo o sentido da frase. (Esse é o fundamento de nossas funções de verdade.)[44]
Para saber o sentido de uma frase, preciso conhecer um procedimento muito bem definido para saber se a frase é verificada.[45]
O método de verificação não é um meio, um veículo, mas o próprio sentido. Determino sob quais condições uma frase deve ser verdadeira ou falsa, assim determino o sentido da frase.[46]
O sentido de uma frase é o método de sua verificação.[47]

     O que chama atenção em declarações como essas é o seu caráter fortemente intuitivo. Elas parecem expor lugares comuns acerca de nosso uso linguístico, corroborando a sugestão wittgensteiniana de que teses filosóficas são triviais por explicitarem aquilo que todos nós sempre soubemos. Tais enunciados do princípio seriam, aliás, o que Wittgenstein chama de “frases gramaticais”, no caso enunciados explicitadores de regras que estão no fundamento das práticas linguísticas constitutivas de nossa linguagem factual.
    Há alguns pontos adicionais a serem notados. Um primeiro é que a regra de verificação deve constituir a porção do conteúdo de uma sentença declarativa que tem sido chamada de sentido ou conteúdo cognitivo ou descritivo ou informativo ou factual. Trata-se daquilo que Frege chamou de pensamento (Gedanke), que pode ser considerado o portador de um valor-verdade.
     Um segundo ponto que devo notar é que se o pensamento, o conteúdo cognitivo expresso pela frase, é o portador da verdade, e se o pensamento é a regra de verificação da frase, então, obviamente, a regra de verificação é o portador da verdade. Assim, dizer que uma frase declarativa é verdadeira é uma maneira indireta de se dizer que o pensamento que ela veicula é verdadeiro, o que, por sua vez, é dizer que a sua regra de verificação, que é o pensamento, é verdadeira. Mais além, dizer que a regra de verificação é verdadeira nada mais é do que dizer que ela é efetivamente aplicável. Por outro lado, dizer que o pensamento, o conteúdo cognitivo, é falso, é dizer que a regra de verificação que o constitui não é efetivamente aplicável. Isso tem ao menos uma consequência interessante, pois quer dizer que a regra de verificação vem associada tanto à verdade quanto à falsidade do pensamento que constitui ou da frase que exprime, não sendo necessário recorrer a uma regra de falsificação.
     Aquilo a que a regra de verificação se aplica é o fazedor da verdade, que podemos chamar de fato. Considere a frase “Frege era barbudo”. Aqui a regra de verificação se aplica a um fato no mundo, logo a frase é verdadeira. Considere agora o enunciado “Russell era barbudo”: aqui a regra de verificação não se aplica a nenhum fato no mundo, logo a frase é falsa. (Por ser assim parece que não existem propriamente fatos negativos: a frase “Russell não era barbudo” não se aplica ao fato negativo de ele não usar barba. Pois “Russell não era barbudo”  quer dizer o mesmo que “É falso que Russell era barbudo”, o que, por sua vez, deve querer dizer o mesmo que “A regra de verificação para o enunciado ‘Russell era barbudo’ não se aplica a um fato que a satisfaça”, ou seja, que o fato positivo de Russell ser barbudo não existe.)
     Outro ponto, acentuado por Wittgenstein, é que geralmente há uma variedade de maneiras de se verificar (falsificar) um enunciado, cada maneira constituindo um diferente aspecto do seu significado. Como ele notou:

A consideração do modo como o significado de uma sentença é explicado torna clara a conexão entre significado e verificação. Ler que Cambridge ganhou a corrida de botes, o que verifica “Cambridge venceu”, obviamente não é o significado, mas é conectado com ele. “Cambridge venceu” não é a disjunção ‘eu vi a corrida ou eu li o resultado ou...’ É mais complicado. Mas se excluirmos qualquer um dos meios de verificar o enunciado, nós alteraremos o seu significado. Seria uma infração de nossa gramática se nós excluíssemos da verificação algo que sempre acompanhou o significado. E se excluíssemos todos os meios de verificação, isso destruiria o significado. É claro que nem toda espécie de verificação é realmente usada para verificar “Cambridge venceu”, nem qualquer verificação proverá o significado. As diferentes verificações do vencer a corrida de botes ocupam diferentes lugares na gramática de “ter vencido a corrida de botes”.[48]

     Usando o vocabulário wittgensteiniano podemos dizer que a regra verificacional se aplica quando temos a cognição, a tomada de consciência de um fato. Essa cognição pode ser direta, pela satisfação de constelações criteriais de algum modo constitutivas do fato, ou indireta, pela satisfação de critérios que nos permitam inferir esse mesmo fato. A regra de verificação de um enunciado é como uma árvore cujas ramificações são sub-regras capazes de verificar o enunciado sob perspectivas as mais diversas. A passagem de Wittgenstein nos convida a fazer uma investigação pragmática precisa e detalhada da estrutura das regras de verificação em diferentes espécies de enunciados. Esse é um empreendimento importante que não foi pelo que me consta tentado. No que se segue quero limitar-me, porém, a responder às principais objeções ao princípio da verificabilidade assim entendido.
    
A objeção da inverificabilidade do próprio princípio
A primeira e mais notória objeção ao princípio da verificabilidade é que ele é autodestrutivo. O argumento é o seguinte. O princípio da verificabilidade deve ser tautológico ou sintético. Tautológico, ou seja, analítico,[49] ele não pode ser, pois nesse caso ele seria não-informativo. Mas ele nos parece claramente informativo. Além disso, enunciados analíticos são auto-evidentes e a sua negação é incoerente, o que não parece ser o caso do princípio da verificabilidade. Por conseguinte, ele é sintético. Mas se é sintético, então ele precisa ser destituído de sentido, posto que quando tentamos aplicar o princípio da verificabilidade a ele mesmo, descobrimos que ele é inverificável. Como conseqüência, o princípio é destituído de significado pelos seus próprios standards...
     Positivistas lógicos tentaram contornar essa objeção respondendo que o princípio da verificabilidade de fato não tem valor-verdade, pois ele não passa de uma recomendação metodológica, de uma prescrição, de uma proposta.[50] A. J. Ayer defendeu essa idéia desafiando os seus ouvintes a apresentarem uma opção mais convincente... Todavia, um ouvinte de outra convicção poderia responder que simplesmente não sente a necessidade de aceitar nada nem de optar por coisa alguma... Na verdade, a resposta de Ayer não parece apenas ad hoc. Ela vai contra a sugestão wittgensteiniana de que aquilo que estamos fazendo é tão somente analisar as intuições subjacentes à nossa linguagem natural em busca de princípios gerais nela embutidos. Por isso, impor à nossa linguagem uma regra metodológica que lhe seja alheia seria arbitrário e mesmo confusivo como meio de esclarecer o significado.
     Diversamente disso, minha sugestão é manter o insight original de Wittgenstein de que com tal princípio deveria exprimir nosso entendimento do que é efetivamente caucionado pela linguagem cotidiana, de modo a formar uma frase gramatical expressiva de uma condição que precisa ser satisfeita pela totalidade de nossa linguagem factual. Ora, uma vez que admitimos que o princípio faz explícitas intuições lingüísticas pré-existentes, tornamo-nos autorizados a pensar que ele é analítico, ou seja, que ele consiste na afirmação de uma sinonimidade entre as expressões ‘significado ou conteúdo cognitivo de uma sentença declarativa’ e ‘modo como o o seu valor-verdade é estabelecido’. Assim, tomando p como uma sentença declarativa qualquer, podemos definir o significado cognitivo de p através da seguinte proposição analítico-conceitual:

(Df.) Conteúdo cognitivo de p = a regra de verificação para p.

    Contra tal sugestão se poderia insistir em objetar que, sendo analítico, o princípio de verificabilidade deveria ser não-informativo, devendo a sua negação ser incoerente, o que não parece ser o caso. Em busca de uma resposta gostaria de começar remontando a uma sugestão que pode ser encontrada em John Locke. Esse filósofo distinguiu entre conhecimento sensitivo (sintético ou empírico) e relações de idéias (verdades analíticas); as últimas, por sua vez, foram distinguidas como provendo conhecimento intuitivo ou demonstrativo.[51] As frases “Vermelho não é verde” e “Três é maior que dois” exprimem para ele relações de idéias intuitivas, pois são auto-evidentes e a sua negação é claramente contraditória. Mas nem todas as frases analíticas são intuitivas. A frase “A soma dos três ângulos de um triângulo é igual a dois ângulos retos” exprime conhecimento demonstrativo, mas nem por isso deixa de exprimir uma relação de idéias, sendo, pois, uma frase analítica. O conhecimento demonstrativo é o que se baseia em demonstrações cujas premissas são constituidas por conhecimento intuitivo, ou seja, por verdades analíticas intuitivas. Por isso ele não pode ser realmente informativo, ainda que aparente sê-lo. A questão é: por que o próprio princípio da verificabilidade não poderia ser uma relação de ideias demonstrativa expressa por uma frase analítica?
     Contra essa sugestão, a objeção mais imediata é a de que o princípio da verificabilidade não pode ser demonstrativo no mesmo sentido de um teorema da geometria ou de uma demonstração em lógica. Afinal, em casos como os teoremas da geometria, é fácil explicitar novamente os caminhos já pré-determinados que conduziram a sua demonstração. Mas não há um caminho similar para se demonstrar o princípio da verificabilidade.
     A resposta surge quando comparamos o princípio da verificabilidade com enunciados que tal como ele nunca foram demonstrados e que não parecem à primeira vista demonstráveis, mas que através de análise acabam por se revelar verdades demonstrativas encobertas. Isso acontece, por exemplo, com enunciados complexos da linguagem ordinária, cuja verdade necessária não se revela de imediato, mas que a uma análise acabam por demonstrar-se tautologias analíticas. Eis um conhecido exemplo:

Uma mesma superfície não pode ser vermelha e verde (ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto).

Esse enunciado não é analiticamente intuitivo. Na verdade ele já foi visto e até hoje é visto como um exemplo standard do que poderia ser um juízo sintético a priori.[52] Mas se considerarmos que é intuitivamente (analiticamente) verdadeiro que (i) cores podem ocupar superfícies, que (ii) duas cores diferentes não podem ocupar a mesma superfície e que (iii) vermelho e verde são cores diferentes, parece daí resultar o caráter analítico do enunciado de que uma mesma superfície não pode ser vermelha e verde. Eis como esse argumento pode ser melhor organizado:

1        Duas coisas diferentes não podem ocupar um mesmo lugar ao mesmo tempo.
2        Uma superfície delimita um lugar.
3        (1,2) Duas coisas diferentes não podem ocupar uma mesma superfície ao mesmo tempo.
4        Cores são coisas que ocupam superfícies.
5        (3,4) Duas cores diferentes não podem ocupar uma mesma superfície ao mesmo tempo.
6        Vermelho e verde são cores diferentes.
7        (5,6) O vermelho e o verde não podem ocupar uma mesma superfície ao mesmo tempo.

     Parece-me claro que premissas 1, 2, 4 e 6 são (se pensadas no contexto adequado) intuitivamente analíticas. Por conseguinte, a conclusão também deve ser analítica, ainda que não pareça.
     A sugestão que quero fazer é a de que também o princípio da verificabilidade seja uma verdade analítica demonstrativa encoberta não-trivial, podendo ter o seu caráter auto-evidente esclarecido através de elucidação de seus pressupostos. Eis uma tentativa de chegar a isso:

1.     Sentidos (significados) são regras ou combinações de regras semânticas.
2.     Conteúdos cognitivos são espécies de sentidos.
3.     (1,2) Conteúdos cognitivos são regras ou combinações de regras semânticas.
4.     Enunciados expressam conteúdos cognitivos (sentidos descritivos, factuais, representacionais).
5.     (3,4) Os conteúdos cognitivos dos enunciados são regras ou combinações de regras semânticas.
6.     Regras cognitivas são regras criteriais (baseadas em critérios de aplicação).
7.     (5,6) O conteúdo cognitivo de um enunciado depende de regras cognitivas que são também criteriais, ou seja: regras cognitivo-criteriais.
8.     O conteúdo cognitivo de um enunciado depende dos modos de determinação de sua verdade.
9.     Os modos de determinação da verdade do enunciado são constituidos por meio de regras cognitivo-criteriais.
10. (7,8,9) O conteúdo cognitivo do enunciado depende de regras criteriais que são modos de determinação de sua verdade.
11. As regras cognitivo-criteriais determinadoras da verdade do enunciado constituem aquilo que chamamos de sua regra de verificação.
12. (10,11) O sentido epistêmico do enunciado é constituido por sua regra de verificação.

     Para mim, ao menos, as premissas 1, 2, 4, 6, 8, 9, 11 soam mais claramente analíticas do que 10. Com efeito, elas são realmente analíticas se pensarmos que os sentidos devem ser obviamente regras ou combinações de regras, se considerarmos que enunciados têm obviamente sentidos cognitivos dependentes de critérios, sendo as suas regras de significação regras cognitivo-criteriais, as quais não podem ser outras que não as regras determinadoras do valor-verdade desses enunciados... os quais denominamos regras de verificação. Muitos filósofos da linguagem discordarão. Mas como não posso me estender mais nesse argumento, prefiro evadir-me na escusa daquele personagem de Borges que, não tendo mais como sair-se, finalizou dizendo: “São as vossas impurezas que vos proibem de reconhecer o esplendor da verdade”.

A objeção do holismo verificacional
Uma objeção sofisticada é a proveniente da generalização da tese de Duheim feita por W. V-O. Quine. Segundo Quine, “nossos enunciados sobre o mundo externo não fazem frente à experiência sensível individualmente, mas em um corpo corporativo”.[53] A implicação anti-verificacionista disso é clara: como o que é verificado é todo um sistema de enunciados, e nunca um enunciado isoladamente considerado, não faz sentido pensar que o enunciado tem uma regra de verificação distintiva ou intrínseca, que possa ser identificada com o significado que a ele atribuimos.
     Em meu juízo, se tomada de maneira suficientemente abstrata, a idéia de que nenhum enunciado se verifica independentemente de outros enunciados do sistema é correta (ficando em aberto quais e quantos); ela constitui o que poderíamos chamar de um holismo formal ou estrutural. Mas a conclusão insinuada por Quine de que a admissão do holismo destrói o verificacionismo nada tem de segura, pois ela demanda que a admissão de um holismo formal implique em um holismo verificacional, ou seja, relativo aos procedimentos verificacionais concretos e às regras de verificação neles envolvidas. Mas isso é precisamente o que nunca acontece.
     Vejamos a questão mais de perto. A tese do holismo verificacional é inspirada no fato bem conhecido dos filósofos da ciência, de que enunciados observacionais sempre dependem da verdade de assunções ou hipóteses auxiliares para poderem ser verdadeiros. Isso é correto in abstracto; afinal, há uma maior ou menor interdependência entre nossas crenças, que não podem existir em isolamento. Contudo, se desse holismo formal ou abstrato se segue um holismo verificacional é outra questão. Em meu juízo, a tese de Quine é equívoca porque embora um sistema de enunciados no final das contas deva se confrontar como um todo com a realidade, os seus enunciados não se confrontam nem conjuntivamente nem simultaneamente com a realidade.
     Um exemplo bem conhecido pode esclarecer o que quero dizer. Sabemos hoje que Galileu descobriu a verdade do enunciado: (1) “Júpiter tem luas” pela observação telescópica. Seus contemporâneos, porém, desconfiavam dos resultados da observação telescópica. O aparelho poderia estar enfeitiçado etc. Mas filósofos da ciência hoje notam que eles não estavam de todo destituídos de razão. Pois uma assunção auxiliar para a aceitação da verdade do enunciado “Júpiter tem luas” é que o telescópio seja um instrumento confiável. Ao aperfeiçoar o telescópio Galileu certamente conhecia a lei da ampliação do telescópio, segundo a qual o poder de ampliação desse aparelho resulta do seu comprimento focal dividido pela distância focal da ocular. Mas para que essa assunção auxiliar fosse garantida, faltava ainda no tempo em que Galileu construiu o seu telescópio, a comprovação de outras assunções auxiliares, como as que constituem as leis da óptica.[54] Considere, por exemplo, a fundamental lei da refração, segundo a qual sen i / sen r = n2/n1. Essa lei só foi estabelecida em 1626 por Snell, enquanto as observações telescópicas de Galileu foram feitas em 1610. Ignorando as muitas outras hipóteses auxiliares também assumidas, a verificação feita por Galileu de que o planeta Júpiter tem luas pode ser apresentada como resultado do seguinte argumento indutivo:

1.     Observação telescópica de quatro astros orbitando Júpiter.
2.     (Lei da ampliação do telescópio)
3.     ((sen i / sen r = n2/n1))                       .                                                         
4.     Conclusão: O planeta Júpiter tem luas.

     Embora a premissa 3 tenha faltado para Galileu, ela reforça secundariamente o argumento. A falta da premissa 2 enfraqueceria ainda mais o argumento. Da consideração da inclusão dessas e de outras premissas constitutivas de hipóteses auxiliares comprovadas, o defensor do holismo verificacional conclui que 4 não possui uma regra de verificação independente, constitutiva de seu conteúdo cognitivo.
     Mas há problemas com esse raciocínio! Primeiro, precisamos notar que esses enunciados não são conjuntivamente verificados: a inferência da conclusão 4 com base em 1 em boa medida pressupõe uma anterior verificação da premissa 2, que por sua vez em alguma medida pressupõe a verificação da premissa 3 (o que é indicado pelos parênteses). Depois, esses enunciados não foram verificados simultaneamente: o enunciado 4 foi verificado como conseqüência direta da verificação do enunciado perceptual 1, que se realizou pela observação diária que Galileu fez das variações das posições dos quatro astros alinhados ao redor de Júpiter... Contudo, isso não se deu simultaneamente à verificação dos enunciados 2 e 3. Ele foi posterior à verificação do enunciado 2 e (para nós) posterior também à verificação do enunciado 3, dos quais também depende a força indutiva da conclusão verificacional. Contudo, por serem pressupostas e anteriores, torna-se claro que as verificações de 2 e 3 podem ser distinguidas da verificação de 4 por 1. O procedimento verificacional do enunciado 4 se restringe ao requerimento da verdade do enunciado 1.
     Generalizando: se chamamos o enunciado a ser verificado de P, o enunciado observacional de O, e as hipóteses auxiliares de A, a estrutura de raciocíno própria do procedimento verificacional não é

     O
     A1 + A2... + An
     Logo P

Mas sim:

     O
     (assumindo a prévia verificação de A1 + A2... + An)
     Logo P

     Essa pressuposição de uma verificação prévia (maior ou menor) das hipóteses auxiliares pressupostas é o que faz toda a diferença, pois nos permite separar a regra de verificação de P, que associa P diretamente às observações associadas a O, das regras de verificação das hipóteses auxiliares, que são assumidas como já tendo sido aplicadas.
     Além disso, podemos claramente distinguir aquilo que verifica cada hipótese auxiliar. Por exemplo: a lei da ampliação do telescópio pode ser verificada através de simples medições empíricas; e a lei da refração de Snell foi estabelecida com base em medições empíricas da relação entre variações do ângulo de incidência da luz e a densidade dos meios. Assim, embora seja verdade que em um nível formal e abstrato a verificação de um enunciado dependa da verificação de outros enunciados, ao nível dos procedimentos cognitivos concretos, a verificação dos enunciados auxiliares já vem pressuposta, o que nos permite isolar o procedimento ou regra verificacional inerente ao próprio enunciado em questão e identificá-lo com aquilo que estamos querendo dizer com ele. Ou seja: como os diferentes enunciados auxiliares devem ser verificados em separado e anteriormente ao procedimento que verifica o enunciado, somos capazes de distinguir e individuar o procedimento em questão, a sua regra de verificação, o que torna o holismo formal inofensivo quando considerado como crítica ao verificacionismo semântico. Por confundir a estrutura formal envolvida com o procedimento verificacional instanciador da própria regra verificacional, o argumento de Quine produz a impressão equívoca de que a verificação enquanto tal deva ser um procedimento holístico e que por isso o significado do enunciado não possa ser identificado com uma regra de verificação.
     Finalmente, como cada enunciado tem um sentido que lhe é próprio, torna-se outra vez perfeitamente razoável identificar o sentido do enunciado com o seu modo de verificação, posto que ambos são individuados pelo enunciado e não pelo sistema de enunciados. A conclusão inescapável é que o holismo verificacional não se sustenta, pois a simples admissão do holismo formal, isto é, do fato dos enunciados estarem sempre em alguma medida inferencialmente enovelados uns nos outros, não é suficiente para nos fazer concluir que as suas regras verificacionais não possam ser distinguidas umas das outras de modo a serem identificadas com os significados representacionais de seus respectivos enunciados.
     O exame do que acontece concretamente quando um enunciado é verificado nos mostra que mesmo assumindo um holismo formal, as regras ou procedimentos de verificação são distinguiveis umas das outras na mesma medida dos significados dos enunciados correspondentes – uma conclusão que apenas sugere a esperada correlação entre o significado como conteúdo cognitivo do enunciado e o seu modo de verificação.

O problema da assimetria existencial-universal
Outra objeção é a de que o princípio da verificabilidade só se aplica conclusivamente a frases existenciais, mas não a frases universais. Para verificarmos uma frase existencial como “Algumas peças de cobre se expandem ao serem aquecidas”, basta identificarmos uma peça de cobre que se expande ao ser aquecida; mas para verificarmos conclusivamente uma frase universal como “Todas as peças de cobre se expandem ao serem aquecidas”, precisaríamos vasculhar o universo inteiro, inclusive em seu futuro e em seu passado, o que é impossível. É verdade que a universalidade absoluta é uma ficção e que, quando falamos em frases universais, estamos sempre tendo em vista certo universo de discurso. Mas ainda assim o problema permanece. Pois como o próprio caso da expansão do cobre exemplifica, o universo de discurso costuma ser muito mais amplo do que tudo o que podemos efetivamente experienciar, impossibilitando uma verificação conclusiva. Assim sendo e também pelo fato de que as leis científicas costumam ter a forma de enunciados universais, ocorreu a alguns se perguntar se não seria melhor admitirmos que o sentido cognitivo das frases universais é constituido por regras de falsificação ao invés de regras de verificação; seria essa a resposta correta?[55]
      Penso que não. O problema é que, como já foi observado no início, não parece existir uma regra de falsificação do enunciado, assim como certamente não existe uma força desassertiva do pensamento, nem algo como uma regra de desidentificação do nome ou uma regra de desaplicação do predicado. Podemos, por exemplo, falsificar o enunciado “Todos os corvos são pretos” com a verificação do enunciado “Esse corvo é albino”. A regra de verificação desse último enunciado é tal que, se aplicada, falsifica o enunciado “Todos os corvos são pretos”. Mas se o significado do enunciado universal fosse uma regra capaz de falsificá-lo, e a regra de verificação do enunciado “Esse corvo é albino” é, quando aplicada, aquilo que falsifica o enunciado “Todos os corvos são pretos”, então parece que devemos admitir que o enunciado "Todos os corvos são pretos"  é sinônimo de “Esse corvo é albino” (ou que o último seja ao menos parte do sentido do primeiro). Mas isso é absurdo: a regra de verificação para corvos albinos não tem nada a ver com o significado da afirmação de que todos os corvos são pretos.
     Parece, pois, que devemos admitir que o significado do enunciado universal seja realmente a sua regra de verificação. Mas nesse caso parece inevitável o retorno do problema da inconclusividade da verificação desses enunciados. Não é necessário, porém, que seja assim. Minha sugestão é a de que a objeção da inconclusividade é falha, emergindo do fato de que há um sério engano em nosso reconhecimento usual da forma lógica dos enunciados universais. Basta um breve exame para mostrar que eles são simultaneamente probabilistas e conclusivos. Considere outra vez a frase:

     O cobre se expande ao ser aquecido.

 A sua forma não é:

Afirmo que é absolutamente certo que todas as peças de cobre se expandem ao serem aquecidas,

onde o ‘absolutamente certo’ significa ‘sem possibilidade de erro’. Essa forma seria apropriada para verdades formais como

      Afirmo que é absolutamente certo que 2 + 3 = 5,

 pois aqui não pode haver erro (exceto erro procedimental, o que deixamos fora de consideração). Mas essa forma não é apropriada a verdades empíricas sobre as quais não vige a certeza lógica resultante das próprias convenções conceituais adotadas. A forma lógica da frase em questão é outra. Ela é a da certeza prática expressa por

Afirmo que é praticamente certo que toda peça de cobre se expande ao ser aquecida,

onde ‘praticamente certo’ significa ‘com uma probabilidade suficientemente elevada para que a possibilidade de erro possa ser negligenciada’. Se aceitarmos essa paráfrase, uma frase como “O cobre se expande ao ser aquecido” se torna conclusivamente verificável, pois podemos claramente encontrar evidências indutivas protegidas por razões teóricas que tornem de modo conclusivo praticamente certo que todas as peças de cobre se expandem ao serem aquecidas. Em suma: a forma lógica de um enunciado universal não é “├ todo S é P” (usando o sinal fregeano de asserção), mas:

     ├ é praticamente certo que todo S é P,

e enunciados dessa forma são conclusivamente verificáveis. Essa é mais uma razão para concluirmos que não há nada de errado em identificarmos o significado da frase universal com a sua regra de verificação.

A objeção da indireticidade
Outra objeção comum é a de que a regra de verificação de frases com conteúdo empírico exige tomarmos como ponto de partida observações diretas e intersubjetivamente possíveis dos fatos. Contudo, muitos enunciados não dependem da observação direta para serem verdadeiros, como é o caso de “A massa do elétron é de 9,109 vezes 10 Kgs elevado à trigésima primeira potência negativa”. Isso nos força a admitir que muitas regras de verificação são indiretas. Como escreveu W. G. Lycan[56], se não admitirmos isso seremos conduzidos a um instrumentalismo grotesco, no qual aquilo que é real será reduzido ao que é intersubjetivamente observado, não existindo mais coisas como eléctrons e suas massas... Mas se, por outro lado, admitirmos que há verificações indiretas, como decidir quais são as observações diretas e quais as indiretas? Não se trata de uma dessas distinções desesperadamente confusas?
     Outra vez, os problemas só emergem se embarcarmos na estreita canoa formalista do positivismo lógico e sairmos por aí atropelando a linguagem com exigências inadequadas. Nossas frases assertivas são proferidas em práticas lingüísticas, em jogos de linguagem. Por conseguinte, o critério para se distinguir a observação direta da observação indireta deve ser sempre relativo à prática lingüística que estamos tomando como modelo. Podemos ser confundidos pelo fato de que nas (i) práticas linguísticas observacionais cotidianas a verificação direta costuma ser considerada aquela resultante da observação virtualmente interpessoal de objetos sólidos, opacos e de tamanho médio, suficientemente próximos, sob iluminação adequada, por observadores em condições normais e com os sentidos desarmados... É assim que a presença do computador, da mesa e da cadeira, são verificadas. Por ser a forma mais usual de observação, essas práticas tendem a ser vistas como um modelo fundamental para a observação direta, a ser contrastado com, digamos, a observação indireta através de sintomas perceptualmente acessíveis, através de instrumentos óticos, através de espelhos etc. Mas seria um erro infeliz usar esse contraste para avaliar o que acontece em outras práticas linguísticas.
     Para contrastar quero considerar primeiro (ii) a prática linguística do bacteriologista. Nessa prática o que está em causa é a descrição de bactérias vistas ao microscópio. Nela ver bactérias ao microscópio é o modelo da observação e verificação direta. Mas o bacteriologista pode dizer que verificou indiretamente a presença de um vírus devido a alterações que ele constatou nas células bacterianas que ele viu ao microscópio, usando como modelo de observação direta a observação microscópica. Ninguém dirá que as verificações do bacteriologista são todas indiretas, a não ser que tenha em mente o modelo de observação das práticas observacionais cotidianas, o que não seria nada usual. Mas até isso é possível dizer, contanto que esteja claro o modelo de comparação que estamos usando.
     Consideremos agora (iii) a prática linguística da paleontologia. Nela a descoberta de restos fósseis será uma maneira direta de se verificar a existência desses seres em um passado remoto, posto que a observação ao vivo é descartada. Por comparação e contraste com esse modelo, o paleontólogo pode falar de verificações indiretas. Assim, se ele sugere terem vivido hominídeos em certo local apenas por ter encontrados lesões provocadas por instrumentos em ossadas fósseis de animais, essa constatação poderá ser considerada resultante de uma verificação indireta na prática paleontológica, em contraste com o encontro de restos fossilizados de hominídeos.  Claro que na prática linguística da paleontologia – tanto quanto na prática linguística da bacteriologia – qualquer de suas verificações poderá ser dita indireta se comparada com as verificações que cotidianamente fazemos de objetos opacos de tamanho médio próximos a nós (modelo da prática (i)). Contudo, essa ambiguidade não costuma ser problemática, a menos que o contexto deixe dúvidas sobre o modelo de comparação que está sendo usado.
     Se a prática lingüística for (iv) a de descrever sentimentos, a verificação de uma frase pelo próprio falante será dita direta, ainda que subjetiva, enquanto que a determinação da verdade por outros, com base no comportamento, será geralmente tida (por não-behavioristas) como indireta. Não há aqui uma maneira fácil de comparar com a prática de observação de objetos físicos de tamanho médio para considerar qual delas é a mais direta, visto que elas pertencem a domínios verificacionais muito diversos.
     A conclusão é a de que não há nenhuma dificuldade real em se distinguir entre verificações diretas e indiretas, conquanto tenhamos clareza sobre a prática lingüística no interior da qual essa verificação está sendo considerada, ou seja, sobre o modelo de comparação escolhido. Basta que os falantes compartilhem entre si os pressupostos da prática lingüística em relação a qual o proferimento é avaliado e estejam cientes do modelo de comparação empregado para se tornarem capazes de alcançar acordo sobre se a verificação/observação é direta ou indireta.

Contra-exemplos empíricos
Outra espécie de objeção diz respeito a enunciados que possuem sentido, mas que não parecem possuir regra de verificação. Em meu juízo, esse tipo de objeção demanda consideração caso a caso.
     Considere, para começar, o enunciado “João era corajoso”, em uma circunstância na qual João morreu sem ter tido nenhuma oportunidade de se demonstrar corajoso, digamos, pouco após o nascimento. Se adicionarmos ao exemplo o pressuposto de que o único meio de verificar se João era corajoso seria pela observação de seu comportamento, esse enunciado se torna logicamente inverificável. Sendo assim, segundo o princípio da verificação esse enunciado não tem significado. Contudo, ele parece ser perfeitamente significativo!
     A resposta é que o enunciado “João era corajoso” nas circunstâncias consideradas apenas aparenta ter significado. Ele pertence ao conjunto dos enunciados que aparentam ter sentido cognitivo, mas não tem. No caso, trata-se de uma frase que possui um sentido gramatical, dado pela combinação do nome próprio não vazio com um predicado. Mas não há critério para aplicarmos ou não o predicado. Assim, o enunciado não tem função na linguagem e nada é capaz de dizer. Ele faz parte do conjunto de enunciados tais como “O universo duplicou de tamanho essa noite” e “O mundo inteiro surgiu cinco minutos atrás”. Esses enunciados apenas aparentam ter algum sentido representacional, pois possuem sentido gramatical e são capazes de sugerir imagens e produzir ilações em nossas mentes. Mas a rigor eles nada dizem.
     Wittgenstein considerou um caso paralelo em Sobre a Certeza. Considere a constatação “Você está diante de mim agora” feita ao acaso, em circunstâncias normais, por uma pessoa que se encontra diante de outra. Ele sugeriu que tal frase apenas aparenta ter sentido, dado que somos capazes de imaginar situações nas quais ela teria algum uso, alguma função na linguagem, por exemplo, uma situação em que estivesse tão escuro que fosse difícil ao interlocutor identificar o falante.[57] O mesmo se dá com a frase “João era corajoso”. Somos facilmente capazes de imaginar situações contrafactuais na quais ele teria ou não teria demonstrado coragem, preenchendo-lhe assim de significado. Nas circunstâncias supostas, porém, o enunciado não possui o menor sentido.
     O que dizer de enunciados sobre o passado ou sobre o futuro? Aqui também é necessário um exame caso a caso. Digamos que alguém afirme: “O Homem de Java viveu há cerca de 1,8 milhões de anos”. Esse enunciado foi plenamente verificado pelo crânio encontrado e por um seguro procedimento de datação. A verificação observacional direta de acontecimentos passados é fisicamente e praticamente impossível, mas ela não é parte da regra de verificação cuja aplicação nos garante a verdade do enunciado em questão. Ela não pertence ao que queremos dizer com a frase.
     Muito diferente é o caso de frases sobre o passado como “Sobre essa pedra pousou uma águia há exatamente dez mil anos” ou “Napoleão espirrou mais de 30 vezes enquanto esteve na Rússia”, ditas em situações nas quais não há nenhum meio prático de se verificar. Nesses casos a verificabilidade é, como se diz, apenas lógica; tal verificação não é praticamente realizável e pelo quanto sabemos não é sequer fisicamente realizável (não podemos voltar ao passado). Mas é difícil admitir que enunciados empíricos cuja verificabilidade é apenas lógica sejam verificáveis no sentido próprio do termo, no sentido de possuirem um sentido cognitivo ou representacional. Pode ser que a distinção entre verificabilidade lógica e empírica seja uma distinção entre níveis de verificabilidade que se pressupõem, correspondendo a níveis de significação. Mas se a verificabilidade de um enunciado pretensamente empírico for apenas lógica, ele será carente de conteúdo cognitivo. Não sabemos o que fazer com ele. Ele não é capaz de cumprir com a função própria de um enunciado empírico, que é a de representar um estado de coisas real ou possível.
     Algo semelhante pode ser dito de enunciados sobre o futuro, com a diferença de que a verificação direta é fisicamente possível. O proferimento “Daqui a 7 dias irá chover” é indiretamente verificável pela metereologia (que verifica conclusivamente o enunciado “Daqui a sete dias (provavelmente) irá chover”), mas será diretamente verificável em uma semana. O enunciado “Daqui a cerca de onze bilhões de anos (provavelmente) o sol irá se expandir e engolirá Mercúrio” pode ser ao menos indiretamente verificado com base no que sabemos do destino de estrelas como o sol. Já para uma frase como “O primeiro bebê a nascer em Montes Claros em 2040 será do sexo feminino” temos uma regra de verificação que só poderá ser aplicada no futuro e de forma direta, o que nem por isso a invalida enquanto tal. Esses enunciados não são apenas logicamente, mas também fisicamente e em certa medida praticamente verificáveis; o primeiro indiretamente e o segundo diretamente, mas em um tempo futuro. Vemos que não há uma fórmula geral e única para o procedimento verificacional. Parece que a espécie de regra de verificação exigida varia com o enunciado em sua inserção na prática linguística na qual ele é realizado, sendo geralmente a confusão entre casos diversos, pertencentes a práticas diversas, aquilo que pode levar-nos a crer que existem enunciados que possuem sentido ou conteúdo cognitivo, mas que apesar disso são inverificáveis.

Contra-exemplos formais
É possível estender a aplicação da tese verificacionista aos enunciados formais da lógica, da matemática e da geometria. Nesse caso a regra verificacional é constituido pelos procedimentos (combinações de regras) formais que demonstram a sua verdade, acrescentando-lhe sentido representacional dentro do sistema formal no qual é considerado. A principal diferença com relação à verificação empírica é que no caso da verificação formal, dispor da regra de verificação já é o mesmo que aplicá-la, posto que os critérios a serem satisfeitos são os próprios axiomas já estabelecidos pelo sistema.
     Um muito falado contra-exemplo a essa sugestão é a conjectura de Goldbach. Essa conjectura costuma ser enunciada como

g = Todo número inteiro par acima de dois resulta da soma de dois números primos.

A objeção é a de que essa conjectura possui significado mesmo que nunca se tenha conseguido prová-la, mesmo que o procedimento verificacional formal para g não tenha sido ainda encontrado. Logo, o significado de f não pode ser uma regra de verificação!
     A resposta a esse argumento é simples demais e advém da observação de que a conjectura de Goldbach não passa de mera conjectura. Ora, o que é uma conjectura? Não é uma afirmação, um teorema provado, mas o reconhecimento da plausibilidade de uma proposição. Assim, a verdadeira forma da conjectura de Goldbach é:

     É plausível que g.

Mas “É plausível que g”, melhor dizendo, “[Afirmo que] é plausível que g”, ou ainda (usando o sinal fregeano da asserção) “├ é plausível que g”, é algo diferente de

     Afirmo que g

 ou “├ g”, que é aquilo que poderíamos dizer se quisessemos enunciar o teorema de Goldbach, ou seja, a conjectura provada. Ora, a regra de verificação do reconhecimento do enunciado de plausibilidade é bem menos exigente do que a regra de verificação capaz de demonstrar g. Se nosso caso fosse o de “Afirmo que g”, a saber, uma afirmação ou tese ou teorema Goldbach, a regra de verificação exigida seria realmente o procedimento de prova do teorema. Mas nosso caso é

     [Afirmo que] é plausível que g,

no qual a regra de verificação consiste tão somente em um procedimento verificacional capaz de sugerir que g possa ser provada. Ora, esse procedimento verificacional, essa regra, de fato existe. Ela consiste simplesmente em considerar exemplos de números pares aleatoriamente dados, como 2, 4, 8 e verificar se eles podem resultar na soma de dois números primos, como (respectivamente) 1 + 1, 3 + 1, 5 + 3. E essa regra verificacional não só existe como tem sido aplicada até hoje, sem exceção, a todos os números inteiros pares considerados. Essa é a razão que realmente temos para sustentar a conjectura de Goldbach. Se uma exceção tivesse sido encontrada a conjectura ruiria; ela teria sido provada falsa, pois “├ ~g” é incompatível com

     [Afirmo que] é plausível que g.

     Assim, a conjectura é verificável e tem sido verificada. É realmente plausível que g seja o caso. O que não é verificável nem foi verificado é a afirmação de g, o teorema. Essa afirmação não faz realmente sentido, não possui conteúdo semântico, posto que ainda não dispomos de um procedimento matemático que a verifique. O erro consiste na confusão de uma suposição com uma afirmação, de uma conjectura com um teorema.
     Note-se que a conjectura de Goldbach, como afirmação de plausibilidade, tanto pode ser demonstrada verdadeira como também falsa. Ela é considerada verdadeira porque tem obtido comprovação constante. Ela será falsa se for encontrado um contra-exemplo: um número par acima de 2 que não resulte da soma de dois primos. A conjectura será falseada se for encontrado um caso de inaplicabilidade da regra verificacional que nos manda buscar sempre a soma de dois números primos de modo a resultar no número par em questão.
     Um caso contrastante é o do último teorema de Fermat. Eis como ele costuma ser formulado:

 f = não existem três números positivos x, y e z que satisfazem a equação “xⁿ + yⁿ = zⁿ” se n for superior a 2.

     Esse teorema já havia sido parcialmente demonstrado até que em 1995 Andrew Wiles conseguiu encontrar uma demonstração completa. Alguém poderia aqui objetar que mesmo antes de sua demonstração f já era chamado de “o teorema de Fermat” e que, portanto, fazia sentido como teorema mesmo sem que tivéssemos uma demonstração...
     Mas essa seria uma objeção ingênua. Pois com ela esquecemos que ‘o teorema de Fermat’ é uma denominação fantasiosa. Chamamos f de teorema equivocamente, apenas devido ao fato de que antes de sua morte Fermat escreveu que tinha uma prova para ele, mas que não podia colocá-la no papel, já que a margem de seu caderno era muito estreita para cabê-la. (Hoje sabemos, aliás, que Fermat não deve ter escrito isso a sério, visto que a matemática da época não lhe provia de meios para demonstrar a sua conjectura.) Seja como for, a verdade é que f não passava de uma conjectura da forma

     [Afirmo que] é plausível que f,

até que Wiles a demonstrou, só depois disso tornando-se realmente um teorema. Assim, antes de 1995 todo o sentido ou conteúdo cognitivo que podia ser dado a f era na verdade “[Afirmo que] é plausível que f”, uma conjectura que era demonstrada pelo fato de que nunca foram encontrados os números x, y e z capazes de satisfazer a equação. Já o sentido ou conteúdo cognitivo de f, melhor dizendo, “Afirmo que f” ou “├ f” (que muito poucos realmente conhecem) deve incluir a demostração encontrada por Wiles, que nada mais é do que a aplicação de uma extraordinariamente complexa combinação verificacional de regras. (Naturalmente, não podemos cair no erro de confundir o significado gramatical de f com o seu sentido cognitivo. Qualquer identidade absurda, mesmo “Cesar é um número primo”, tem um sentido gramatical.)
     Há muito mais a ser considerado sobre essas questões. Espero, contudo, que essas poucas observações sejam suficientes para convencê-lo de que o princípio da verificabilidade tem plenas condições de ser reabilitado, especialmente se for aproximado através de uma metodologia que não viole a tecitura sutil da linguagem natural.



REFERÊNCIAS:
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– 3 –
COMO OS NOMES PRÓPRIOS REALMENTE REFEREM


Qual é o mecanismo pelo qual nomes próprios como Aristóteles, Paris, Vênus etc. são capazes de designar seus portadores? Segundo a tradicional teoria do agregado de descrições, que foi sugerida nos escritos de Frege, Russell e Wittgenstein, e que encontra a sua exposição última em um artigo de John Searle,[58] o que alguém tem em mente com um nome próprio de maneira a ser capaz de usá-lo referencialmente é exprimível por um subconjunto indefinido de um conjunto aberto de descrições co-referenciais (minimamente, um subconjunto contendo uma única descrição).[59] Assim, um nome próprio como ‘Aristóteles’ pode vir no lugar de descrições definidas (geralmente iniciadas com um artigo definido) como ‘o estagirita’, ‘o autor da Ética a Nicômano’, ‘o autor da Metafísica’, ‘o discípulo de Platão’, ‘o fundador do Liceu’, ‘o tutor de Alexandre’.
     Para Saul Kripke, um problema com as teorias descritivistas é que, embora um nome próprio se aplique necessariamente ao seu portador em qualquer circunstância na qual ele exista, esse nome pode ser aplicado ao seu portador sem que nenhuma das descrições definidas a ele usualmente associadas necessariamente se aplique.[60] Assim, podemos imaginar um mundo possível no qual Aristóteles existiu, mas morreu ainda criança, não tendo sido discípulo de Platão e nem escrito nenhuma das obras a ele atribuídas. E também podemos imaginar um mundo possível no qual Aristóteles existiu, mas não nasceu em Estagira e sim em Roma, trezentos anos mais tarde. Fica assim claro que nenhuma das descrições que associamos ao nome próprio se aplica necessariamente. Além do mais, Kripke notou que uma pessoa pode usar um nome próprio referencialmente, mesmo tendo em mente uma única descrição, que pode ser indefinida ou até mesmo incorreta. Assim, uma pessoa pode se referir a Feynman, dele sabendo apenas que foi um cientista norte-americano, e alguém pode perfeitamente se referir a Einstein pensando incorretamente que ele foi o inventor da bomba atômica. Considere ainda o caso de nomes de personagens semificcionais, como Robin Hood. Sabemos que deve ter existido alguém que esteve na origem desse personagem, mas nada sabemos sobre ele, nem mesmo se foi realmente um fora da lei ou se ele chamava Robin Hood! Em nenhum desses casos a descrição adquire um papel relevante.
     A solução encontrada por Kripke, Keith Donnellan, Michael Devitt e outros, foi externalista e causal. Esses filósofos concluíram que aquilo que suporta a referência de um nome próprio é uma cadeia causal-histórica externa, que para Kripke começa com a primeira denominação do objeto através do nome, o seu “batismo”. Se eu profiro o nome ‘Aristóteles’ e esse for o último elo de uma imensamente longa e complexa cadeia causal-histórica que começou com o batismo de Aristóteles em 384 a.C. em Estagira, isso é suficiente para eu me referir a Aristóteles. Descrições podem acompanhar o meu uso do nome ‘Aristóteles’, mas a sua função será meramente auxiliar. Embora essa hipótese possa a primeira vista parecer fantástica, há muito ela se tornou a nova ortodoxia.

Dois tipos fundamentais de descrições
A resposta internalista que eu desejo sugerir aqui consiste na defesa de uma forma mais sofisticada de descritivismo. Ela se resume na descoberta de uma meta-regra cuja função é a de selecionar elementos do agregado de descrições, provendo-lhe de uma estrutura valorativa adequada. É só quando o descritivismo é acrescido dessa meta-regra, exprimível na forma de uma meta-descrição, que ele ganha o poder explicativo que merece, tornando a hipótese causal-histórica dispensável como meio de explicar a referência.
     Para chegarmos onde queremos precisamos primeiramente distinguir as descrições fundamentais das descrições auxiliares. As descrições fundamentais expressam critérios primários de identificação, enquanto as descrições auxiliares várias apenas nos remetem às descrições fundamentais na busca do portador do nome, merecendo nesse aspecto serem descartadas.
     Esse ponto pode ser primeiramente mostrado através de exemplos de descrições tipicamente auxiliares. Considere o caso de descrições definidas como ‘o tutor de Alexandre’, ‘o fundador do Liceu’, ‘o maior discípulo de Platão’, todas elas concernentes a Aristóteles. Elas são descrições definidas usuais, mas perfeitamente dispensáveis: afinal, Aristóteles continuaria sendo ele mesmo, ainda que não tivesse sido nada disso. Outro caso é o de descrições definidas pouco usuais e dispensáveis como, no que concerne a Aristóteles, ‘o neto de Achaeon’, ‘o amante de Herphylis’ e ‘a pessoa que viajou com Teofrasto à ilha de Lesbos’. Um terceiro caso é o de descrições definidas como ‘o estagirita’ e ‘o mestre dos que sabem’ com respeito a Aristóteles. Essas descrições tem função expressiva ou metafórica, comprindo com um papel mnemônico. Mas parece certo que como tais elas pouco fazem para caucionar a identificação do objeto referido. Finalmente, existem descrições que são adventícias e temporárias, como a usada pelo aluno que só sabe dizer de Aristóteles que ele foi ‘o filósofo mencionado pelo professor’. Chamo a todas essas descrições de auxiliares porque, como veremos, apesar de nos orientarem na identificação do portador do nome e apesar de constituírem parte secundária de seu conteúdo informativo, elas terminam sendo prescindíveis.
     Minha sugestão é a de que as descrições fundamentais para a referência do nome próprio são de outro tipo e que as formas tradicionais da teoria do agregado são enganosas, em parte por seus proponentes terem sido desviados do que é relevante ao escolherem como exemplos descrições auxiliares, como ‘o tutor de Alexandre e o fundador do Liceu’ para Aristóteles (Frege) e ‘a criança retirada do Nilo pela filha do faraó’ para Moisés (Wittgenstein).
     Minha proposta é a de que as descrições realmente fundamentais são expressões lingüísticas de duas espécies de regras identificadoras do objeto, que são:

A. REGRA LOCALIZADORA: que estabelece a localização e carreira espacio-temporal do portador do nome próprio,
B. REGRA CARACTERIZADORA: que estabelece uma caracteriza-ção daquilo que consideramos como mais relevante no portador do nome próprio, de modo a justificar nossa aplicação do mesmo.

     Assim, para um nome próprio como ‘Aristóteles’ a descrição ‘a pessoa nascida em Estagira em 384 a.C., que viveu grande parte da sua vida em Atenas e que faleceu em Chalcis em 322 a.C.’ exprime resumidamente nossa regra localizadora de Aristóteles no espaço e no tempo. Já a descrição que permite caracterizar Aristóteles por aquilo que nele consideramos importante de modo a justificar que ele seja identificado através desse nome próprio pode ser resumida como ‘o autor do conteúdo relevante do opus aristotélico’.
    Mas o que justifica minha aposta nas regras localizadora e caracterizadora como sendo as regras-descrições fundamentais? A resposta consiste simplesmente no apelo às intuições oferecidas por nossa linguagem natural. Em atenção a isso J. L. Austin, o filósofo da linguagem ordinária, aconselhava-nos o uso dos melhores dicionários como um método para distinguirmos distinções semânticas que pudessem importar ou não importar filosoficamente. Como nomes próprios raramente são dicionarizados falta-nos esse recurso. Mas como eles são muitas vezes enciclopedizados, essa falta é sobejamente compensada quando procuramos as condições de referência de nomes próprios oferecidas em enciclopédias. Com efeito, as enciclopédias geralmente explicam o que os nomes próprios querem dizer partindo das descrições fundamentais e não de descrições auxiliares. Eis o que encontro sobre o nome ‘Aristóteles’ em meu Penguin Dictionary of Philosophy, que escolho por ser o mais conciso:

(384 - 322 a.C.) Nascido em Estagira no norte da Grécia. Aristóteles produziu o mais completo e poderoso sistema filosófico da antiguidade. (Segue-se uma breve exposição da vida de Aristóteles, seguida de um resumo das principais obras...)

     Essa descrição concentra-se nos critérios identificadores dos tipos A e B. Se consultarmos a elucidação lexical de outros nomes próprios, não só de pessoas, mas também de coisas, como ‘Taj Mahal’, ‘Paris’, ‘China’ e ‘Rio Amazonas’, encontraremos resultados semelhantes.
     Para tornar mais claro o caráter fundamental das descrições localizadora e caracterizadora, tente imaginar um nome próprio usual sem que suas descrições fundamentais tenham aplicação alguma. Imagine, por exemplo, um Aristóteles que nunca teve nada a ver com a filosofia ou com a ciência, que não nasceu na Grécia antiga e que teve uma localização, carreira e origem espacio-temporal completamente diversa daquela tida pelo Aristóteles filósofo. Imagine, glosando um exemplo de John Searle, que a pessoa chamada pelo nome ‘Aristóteles’ tenha sido apenas um vendedor de peixes veneziano que viveu na Renascença tardia e que nunca teve nada a ver com a filosofia... Certamente não o reconheceremos como sendo o nosso Aristóteles, mas alguma outra pessoa com o mesmo nome! [61]
     Essa observação se complementa com outra: a de que na completa ausência de aplicação das descrições fundamentais as descrições auxiliares deixam de ser úteis. Para que esse ponto se evidencie tente imaginar que as descrições auxiliares que geralmente associamos a Aristóteles se apliquem ao nosso vendedor de peixes veneziano: descobrimos que ele ensinou alguém chamado Alexandre, que ele fundou um Liceu e foi chamado de ‘o mestre dos que sabem’. Nenhuma dessas estranhas coincidências seria capaz de nos fazer admitir que o vendedor de peixes seja realmente aquela pessoa a que pretendemos nos referir com o nome ‘Aristóteles’. Afinal, o Alexandre que ele ensinou não pode ter sido o maior conquistador de todos os tempos, não é possível que o vendedor de peixes iletrado tenha verdadeiramente fundado o Liceu aristotélico, nem que o apelido ‘o mestre dos que sabem’ seja o mesmo que foi usado por Dante na Divina Comédia. Pode ser que se descubra então que esse Aristóteles vendedor de peixes foi um fanfarrão que se acreditava sábio, que o Alexandre que ele ensinou foi um pescador, que o Liceu foi o nome que as pessoas deram ao local onde ele reunia as pessoas para contar as suas estórias, e que a descrição ‘o mestre dos que sabem’ tenha sido ironicamente usada por seus conhecidos... Mesmo que todas as descrições auxiliares fossem aplicáveis, na falta da aplicação das descrições fundamentais elas não seriam capazes de produzir mais do que uma sensação de estranha coincidência, de persiflagem do real. A conclusão parece ser a seguinte: descrições auxiliares só serão capazes de contribuir para a referência se forem articuladas dentro de um contexto definido pelas próprias descrições fundamentais para as quais elas nos direcionam, tornando-se inúteis na ausência disso.

A regra de identificação do nome próprio
Uma vez que encontramos as descrições fundamentais, a questão seguinte é saber como elas são exigidas para a aplicação de um nome próprio qualquer.
     Uma primeira consideração a ser feita é que para a identificação do portador do nome próprio a satisfação de “A & B”, ou seja, da conjunção das condições, é desnecessária. Há razões conclusivas para se pensar assim. A primeira é que há nomes próprios que constitutivamente possuem apenas uma regra caracterizadora. Considere o nome ‘Universo’. A descrição caracterizadora é ‘tudo o que existe’. Mas pelo próprio fato de ser tudo o que existe (existiu e existirá), o universo não se encontra nem no espaço nem no tempo. Há também nomes próprios que só possuem regra localizadora. Digamos que o centro de um dado círculo seja casualmente denominado ‘Z’. Aqui a localização é o que importa, pois não há outro motivo para a sua consideração.
     Outra razão para se pensar que a conjunção “A & B” é desnecessária vem da consideração de situações contrafactuais. Imagine, pois, um mundo possível m1, muito próximo ao nosso, no qual Aristóteles nasceu em Estagira em 384 a.C., filho de Nicômano, o médico da corte de Felipe, mas que ele morreu de febre aos dezessete anos, em sua viagem para Atenas, não chegando a escrever o opus aristotélico. Nesse caso admitiremos talvez que nosso Aristóteles “em potência” existiu em m1. Nesse caso apenas a regra localizadora é aplicada, mas o nome próprio ‘Aristóteles’ encontra a sua designação. Além disso, podemos conceber um mundo possível m2, também muito próximo ao nosso, no qual Aristóteles viveu em Roma cerca de trezentos anos mais tarde, tendo lá escrito o seu opus. Nesse caso tenderemos a dizer que m2 também teve o seu Aristóteles, embora ele tenha existido em lugar e época diversos. Podemos até mesmo imaginar que os indivíduos aqui imaginados não se chamavam Aristóteles, pois descrições do tipo ‘a pessoa de nome N’ também são auxiliares (se em um mundo possível o autor do opus aristotélico se chamasse Pitacus, reconheceríamos Pitacus como sendo o nosso Aristóteles).
     Do fato de que as condições A e B não são isoladamente necessárias podemos concluir que nem a descrição localizadora nem a descrição caracterizadora são essenciais, se por essencial se entende algo que é necessário. Podemos, no entanto, conceber que a satisfação de uma disjunção “A ou B” das regras-descrições fundamentais seja uma condição minimamente capaz de dotar os nomes próprios de referência. O que efetivamente não parece possível, contudo, é que possamos imaginar que um nome próprio se aplique em um mundo possível em que “~A & ~B” seja o caso, a dizer, em que nenhuma das regras-descrições fundamentais se aplique. Esse é o caso do exemplo já considerado de Searle, em que ele imagina um especialista em Aristóteles que veio nos dizer que descobriu que Aristóteles não foi nem grego nem filósofo, mas um obscuro vendedor de peixes veneziano que viveu na renascença tardia... O mesmo aconteceria se alguém nos dissesse que Aristóteles foi, na verdade, um armador grego que viveu no século XX, foi amante de Maria Callas e se casou com Jackeline. Afinal, Aristóteles Onassis não satisfaz nem a descrição localizadora nem a descrição caracterizadora para o estagirita.
     Nesse ponto pode ser objetado que as condições A e B não precisam em si mesmas ser inteiramente satisfeitas. Um nome próprio pode se aplicar ao seu portador mesmo quando as descrições fundamentais se aplicam apenas parcialmente ou quando uma só se aplica e mesmo assim se aplica apenas parcialmente! Afinal, no mundo m1, no qual Aristóteles nasceu em Estagira em 384 a.C., mas morreu aos dezessete anos, não só a condição caracterizadora não está sendo satisfeita, mas a condição localizadora está sendo apenas parcialmente satisfeita, já que ele não teve a carreira espacio-temporal esperada: ele não viveu em Atenas, não visitou Lesbos e nem morreu em Chalcis em 322 a.C. Igualmente, no mundo possível m2, em que Aristóteles viveu em Roma mais de duzentos anos depois, podemos conceber que ele tenha escrito apenas a Ética a Nicômano, a Metafísica e alguns outros trabalhos menores. Se não houver nenhum Aristóteles grego para competir com ele, nós tenderemos a admitir Aristóteles existiu realmente em m2, mesmo que grande parte da condição B não esteja sendo satisfeita e coisa alguma da condição A tenha sido satisfeita. É fácil, porém, lidar com essa objeção. Basta exigir satisfação suficiente e não mais completa do termo ou dos termos da disjunção. Se o Aristóteles de m1 morreu logo após o nascimento e se o Aristóteles de m2 apenas escreveu alguma obra que é apenas improvavelmente atribuída a Aristóteles, começaremos a duvidar de que a pessoa em questão tenha sido nosso Aristóteles.
     Finalmente, é necessário considerar o caso do mundo possível no qual existem dois ou mais objetos que satisfazem as condições fundamentais. Nesse caso o verdadeiro objeto de referência do nome próprio será aquele que tiver satisfeito as descrições fundamentais de modo mais completo. Se no mundo m3 além do Aristóteles de Estagira tivesse existido um filósofo romano com o nome de Aristóteles que tivesse escrito o opus Aristotélico pouco antes da conquista da Grécia pelos romanos, nós veríamos nisso uma inexplicável coincidência. Mas preferiríamos considerar o Aristóteles de Estagira como sendo o nosso Aristóteles, uma vez que ele satisfaz a condição de localização, além da condição de caracterização.
     Juntando as condições fundamentais e as condições adicionais recém-consideradas estamos em condições de estabelecer o que parece ser a forma de qualquer regra de identificação de nome próprio. Ela é estabelecida pelo que chamo de uma regra meta-descritiva, uma regra de regras, posto que as descrições pertencentes ao agregado também são expressões de regras. Essa regra meta-descritiva, expressa por uma meta-descrição, tem a função de organizar os agregados de regras-descrições de qualquer nome próprio eventualmente dado. Ela pode ser apresentada como uma regra constituída por três condições, que chamaremos de (i) a condição de significação, (ii) a condição de suficiência e (iii) a condição de predominância. Ei-la:

RMD:
Um nome próprio N se aplica a um objeto da classe C
         see
(i)                     se condição A para N e/ou a condição B para N for(em) satisfeitas pelo objeto,
(ii)                   se a satisfação dessa ou dessas condição/condições por por esse objeto for suficiente,
(iii)            se não há nenhum outro objeto da classe C que chegue a satisfazê-la(s) na mesma ou em maior medida.

     Substituindo as variáveis pelos dados e descrições localizadora e caracterizadora de um nome próprio qualquer, nós estabelecemos o que pode ser chamado de a regra de identificação (RI) para esse nome. Uma regra que estabelece as condições necessárias e suficientes para a sua aplicação.
     Assim, se RMD for aplicada ao nome ‘Aristóteles’ teremos a seguinte regra de identificação para esse nome próprio:

RI-Aristóteles:
O nome próprio ‘Aristóteles’ se aplica a seres humanos em um mundo possível qualquer see nesse mundo existiu um ser humano que nasceu em Estagira em 384 a.C., viveu grande parte de sua vida em Atenas e morreu em Chalcis em 322 a.C. e/ou ele foi o autor das grandes idéias contidas no opus aristotélico, satisfazendo essa condição (ou essas condições) suficientemente e mais do que qualquer outro ser humano.
                                
     Essa regra de identificação para o nome próprio ‘Aristóteles’ é intuitiva. Se a aplicarmos a regra ao caso de um filósofo árabe medieval com o pseudônimo ‘Aristóteles’, que em um mundo possível m4 muito próximo ao nosso escreveu grande parte do opus aristotélico, veremos que essa pessoa satisfaz unicamente e suficientemente a condição B, mas não a condição A, o que já basta para que ela satisfaça a regra de identificação para Aristóteles. Contudo, se o mundo possível for m5, que difere de m4 apenas por ter existido nele também um outro Aristóteles, nascido em Estagira em 383 a.C., filho do médico Nicômano, mas falecido jovem, pouco após sua chegada a Atenas, onde foi enviado para aprender filosofia com Platão, não saberíamos mais ao certo o que dizer. Ou seja: se a medida da satisfação dos objetos concorrentes for aproximadamente a mesma pode não haver como decidir, o que significa não teremos como aplicar a regra, devendo concluir que Aristóteles não existe, posto que na lógica dos conflitos criteriais 1 + 1 = 0.
     Casos como esse recordam o paradoxo do navio de Teseu, bem conhecido nos manuais de filosofia. Digamos que esse navio tenha sido batizado com o nome de ‘Calibdus’. Como é sabido, no curso dos anos Teseu repôs pouco a pouco as partes do seu navio até que, no final, todas elas foram substituídas. Contudo, alguém decidiu então recondicionar as partes antigas e com elas construir outro navio igual ao primeiro. Digamos que então alguém pergunte: “Qual dos dois navios é Calibdus?” O paradoxal aqui é que não sabemos bem o que responder. A primeira vista pode parecer que ambos são o navio de Teseu. Mas isso seria contraditório, pois por definição um termo singular não pode se referir a mais de um objeto. Minha proposta é a de que a questão de saber qual dos navios é Calibdus é indecidível devido a um conflito criterial que se dá entre as duas regras-descrições fundamentais para esse nome. O primeiro navio satisfaz uma regra localizadora, que nos diz que o navio de Teseu é aquele que foi construído em um lugar e tempo específicos, tendo então seguido uma determinada carreira espaço-temporal. A segunda regra, satisfeita pelo segundo navio, é caracterizadora. Ela nos diz que o navio de Teseu é aquele que foi construído com certo material. Não temos, por isso, como decidir.
     Nesse ponto alguém poderá, com razão, objetar que a regra caracterizadora é mais complexa. Ela inclui características funcionais e estruturais que foram preservadas em ambos os navios. Como consequência, parece que o primeiro navio deve ser o Calibdus, pois ele satisfaz mais completamente as regras-descrições fundamentais. Contudo, podemos equilibrar essa diferença aumentando a rapidez da substituição das partes velhas pelas novas, de modo a encurtar a carreira espaço-temporal do objeto até que a substituição das peças se complete. Se toda a seqüência de substituições de partes tiver lugar em apenas três meses, teremos dúvidas. E se ela tiver lugar em uma semana ou em um dia? Nesses casos com certeza consideraremos o segundo navio como sendo o de Teseu e não mais o primeiro, dizendo que ele foi primeiro desmontado e depois remontado em outro lugar.
     Outra questão diz respeito ao nome próprio em sua expressão fonética e morfológica. Imagine um mundo possível em tudo idêntico ao nosso, com exceção do fato de que a pessoa que nasceu em Estagira, que viveu de 384 a 322 a.C., que escreveu o opus aristotélico... se chamava Pitacus. É óbvio que reconheceremos esse Pitacus como o nosso Aristóteles nesse mundo possível. Mas parece que Pitacus não satisfaz RI-Aristóteles. Afinal, ele não se chamava Aristóteles. A resposta é que a palavra ‘Aristóteles’ no definiendum apenas substitui uma classe de possíveis expressões fonéticas e morfológicas de nomes próprios que satisfazem as condições de localização e caracterização. Como já consideramos, a descrição definida ‘a pessoa de nome N’ é apenas uma descrição definida auxiliar, que pode ser abandonada.
     Há nessas respostas um elemento de vaguidade capaz de incomodar alguns. Contudo, a vaguidade, a indeterminação semântica, é um pouco como a indeterminação na física quântica: ela é irredutível. Ela é um elemento geralmente irredutível de nossos conceitos, uma vez que reflete a indeterminação de suas próprias referências.  Ela em nada atrapalha o funcionamento da linguagem, a menos nos contextos onde não é vista como imprecisão. Se quisermos ter uma teoria dos nomes próprios precisaremos abandonar o “preconceito da pureza cristalina” (Wittgenstein) e adotarmos uma teoria que dá conta da indeterminação semântica.
     Falando em preconceito da pureza cristalina, é curioso notar que é possível parafrasear RI-Aristóteles, assim como qualquer outra regra de identificação de nome próprio, usando artifícios da teoria russelliana das descrições. Para tal precisamos primeiro transformar as descrições fundamentais em predicados. Assim, se o predicado ‘…ser humano que nasceu em Estagira em 384 a.C., viveu a maior parte de sua vida ativa em Atenas e morreu em Chalcis em 322 a.C.’ for simbolizado por A, o predicado ‘...autor das grandes ideias do opus aristotélico for simbolizado por B, se o predicado ‘…gostava de cães’ for simbolizado por C, nós poderemos (de modo simplificado) formalizar a sentença “Aristóteles gostava de cães” como:

Ǝx ((Ax ᴗ Bx) & (y) ((Ay ᴗ By) → y = x) & Cx).

     Aqui o requisito de existência é o da disjunção das condições fundamentadoras suficientemente satisfeitas, enquanto o requisito de unicidade substitui o requisito de maior satisfação de x. Essa paráfrase salienta os aspectos formais, mas é imperfeita uma vez que substitui a condição de maior satisfação suficiente das condições fundamentais pela condição derivada de que um único indivíduo satisfaz essas condições suficientemente.

Problemas insolúveis da concepção causal-histórica
Podemos agora nos perguntar se o metadescritivismo não deveria incorporar alguma coisa da concepção causal-histórica, transformando-se em um metadescritivismo causal.[62] Meu ponto de vista é o de que isso é desnecessário. Que geralmente existe uma cadeia causal é um fato que mesmo descritivistas como P. F. Strawson há muito reconheceram. A novidade da concepção causal-histórica é a de que ela ambiciona primariamente explicar a referência dos nomes próprios através dessa cadeia causal. O que eu contesto é precisamente essa ambição, sugerindo que o poder explicativo do recurso à cadeia causal externa, se ela existir, não é capaz de ser primário, mas é derivado da explicação que recorre a descrições expressando regras cognitivas ou pré-cognitivas através das quais o objeto de referência é identificado. Além disso, parece claro que nomes próprios podem ter sentido cognitivo sem que o elemento causal-histórico exista, como o demonstram os muitos exemplos de nomes próprios vazios, como, digamos, ‘Eldorado’. Esse é um nome próprio ordinário. Os espanhóis ouviram dos índios detalhes sobre uma cidade riquíssima, situada em algum lugar ao leste da cordilheira dos Andes, embora nunca a tenham encontrado. Também acontece de nomes próprios possuirem referência sem que tenha sido formada qualquer cadeia causal. Um caso é o de nomes que foram criados antes do aparecimento de seus portadores. ‘Brasilia’, por exemplo, é o nome de uma cidade planejada e nomeada antes de ter sido construída, o que torna impossível que o objeto seja a causa determinante das aplicações iniciais desse nome. Outro caso é o de nomes próprios proferidos sem que haja cadeia causal alguma, mas que foram inferidos. Sabemos, em um exemplo conhecido, que o referente do nome próprio ‘Ramsés VIII’ deve ter existido por volta do século oitavo a. C., pois embora não saibamos nada sobre esse faraó, sabemos algo sobre Ramsés VII e Ramsés IX. Certamente, quando pronuncio o nome ‘Ramsés VIII’ meu proferimento não se encontra no final de uma cadeia causal-histórica...
     Um teste para saber se a incorporação de alguma cadeia causal é necessária à explicação da função referencial dos nomes próprios consiste em considerar se há exemplos de proferimentos em que o falante não é bem sucedido em estabelecer nenhuma vinculação causal entre o nome próprio que usa e a sua referência, embora esse nome próprio seja em geral causalmente vinculado a sua referência. Se por causa disso a referência desaparece é sinal de que ela depende necessáriamente da associação causal. Imagine, pois, que um psicótico em um sanatório anuncie que os extraterrenos irão pousar na cidade de Saratoga, na Califórnia. Ele associa ao nome ‘Saratoga’ ao menos a descrição ‘uma cidade na Califórnia’. De fato, existe uma pequena cidade na Califórnia com esse nome. Mas suponhamos que o nome Saratoga tenha sido invocado em sua mente por ter causalmente ouvido por ele em um documentário sobre a batalha de Saratoga na guerra da independência americana, uma batalha que se deu na costa leste dos EUA. Como a palavra ‘Califórnia’ foi pronunciada logo a seguir, ele entendeu que Saratoga é uma cidade situada na Califórnia... Não há, portanto, nenhuma cadeia causal (ao menos em meu exemplo) relacionando a cidade de Saratoga com o nome ‘Saratoga’ pronunciado pela pessoa. A questão é: a pessoa logrou referir-se ao portador do nome? Embora a linguagem natural não nos forneça uma intuição positiva forte para casos inusitados como esse, a resposta é que podemos dizer que sim, conquanto acrescentemos que a referência se deu por acaso. Podemos dizer que a pessoa foi bem sucedida em se referir à cidade de Saratoga, embora essa referência tenha sido meramente coincidental. Não há, pois, nenhuma intuição lingüística que nos obrigue a introduzir um elemento causal no descritivismo, mesmo sendo matéria de fato que as referências sejam em geral causalmente implicadas.

O significado dos nomes próprios
A solução dada ao problema da referência permite-nos responder ao problema do significado dos nomes próprios, entendendo a palavra ‘significado’ no sentido fregeano de ‘sentido’ (Sinn) ou ‘conteúdo informativo’ (informatives Gehalt) ou ainda (em frases) ‘valor epistêmico’ (Erkenntniswert). Em que ele consiste? Segundo a teoria do agregado, o significado do nome próprio residiria nas regras expressas pelas descrições definidas que ele abrevia. Podemos agora qualificar melhor essa tese. Que regras dão significado a um nome próprio dado? Certamente, a regra meta-descritiva (RMD) não é capaz disso, pois ela é a mesma para cada nome próprio, não permitindo distinguir o significado de um nome próprio do significado de outro nome próprio. Também as regras expressas pelas descrições auxiliares não são capazes de dar o significado de um nome próprio, embora se possa dizer delas que formam suas “franjas” de significação. O significado de um nome próprio deve residir então, centralmente, naquilo que o distingue dos outros nomes próprios, ou seja, ele deve consistir de suas regras-descrições fundamentais, localizadora e caracterizadora. Quem realmente sabe o significado do nome próprio é quem, em maior ou menor medida, domina essas regras, sendo essa pessoa o que chamamos de seu usuário privilegiado. Outras pessoas, como aquele que sabe apenas que Aristóteles foi um pensador grego (descrição indefinida) ou que acredita que ele foi o descobridor da lei da alavanca (descrição errônea, mas convergente) podem ser capazes de inserir o nome ‘Aristóteles’ corretamente no discurso, sabendo mesmo algo de seu sentido, mas não sabem de maneira suficiente o que esse nome significa, o que deveria ser suficiente para a identificação do seu portador, devendo assumir que usuários privilegiados existem e que estes seriam capazes de completar ou corrigir o pouco que eles sabem.
     Essa constatação nos permite admitir que o conhecimento do significado de um nome próprio não precisa ser compartilhado entre cada um dos usuários. Ele pode ser tido apenas pelos usuários privilegiados. Além disso, os usuários privilegiados não precisam individualmente conhecer todo o significado do nome, sendo possível que cada um deles tenha acesso a uma parte diferente do significado. É possível até que parte do conteúdo informativo do nome próprio seja mesmo armazenada fora das mentes humanas, conquanto ela possa ser utilizada por elas, o que demandará um elemento cognitivo-descritivo prévio. A condição a que queremos chamar atenção é apenas a de que o significado conhecido do nome próprio – a sua regra de identificação – não precisa ser conhecido por cada um de seus usuários. Esse significado é propriedade necessária apenas da comunidade lingüística formada pelo conjunto de seus usuários, podendo ser atualizado na soma dos elementos desse conjunto.
    Minha sugestão, pois, é que pessoas que só conseguem associar ao nome descrições auxiliares ou genéricas ou mesmo insuficientemente corretas, só são capazes de se referir ao objeto de um modo dependente ou insuficiente, por se fiarem na existência de usuários privilegiados do nome. Para o nome Aristóteles esses usuários são especialistas, conhecedores da história da filosofia ou da cultura. Só eles, em conjunto ou isoladamente, são capazes de se referir a esse filósofo de modo independente ou suficiente, por associarem seu nome a descrições fundamentais. Há aqui um equivalente ao que Putnam chamou de divisão do trabalho lingüístico, só que essa divisão possui caráter potencialmente ou atualmente cognitivo, sendo inteiramente compatível com o descritivismo.
     Tendo isso em mente, em situações nas quais os usuários privilegiados do nome próprio desaparecessem e com eles os próprios meios de se obter o conhecimento das descrições fundamentadoras, o significado do nome próprio também se perderia. Imagine, pois, que após uma catástrofe natural restasse apenas uma comunidade de nativos em algum lugar do mundo, que esses nativos sejam capazes de falar inglês, mas que nada saibam da cultura norte-americana. Digamos que um deles encontre em uma folha de papel a única referência restante a Feynman no mundo inteiro, a frase “Richard Feynman foi um grande conhecedor de Tannu Tuva”. Claro que nós mesmos somos capazes de saber que ao pensar essa descrição ele se refere insuficientemente ao criador da eletrodinâmica quântica (basta digitarmos no Google ‘Richard Feynman’ e ‘Tannu Tuva’). Mas não é esse o ponto que desejo considerar. O que desejo é apontar para o fato de que esses nativos, em sua sociedade, não serão capazes de fazer nada com a descrição encontrada, posto que as condições últimas de referência se tornaram irrecuperáveis para eles: a comunidade lingüística à qual eles pertencem não possui as regras-descrições fundamentais para a identificação do portador do nome Richard Feynman, não possuindo, portanto, a regra de identificação para esse nome próprio. Como resultado, eles próprios não serão capazes de fazer coisa alguma com esse nome.
     Essas sugestões permitem-nos responder aos contraexemplos de Kripke ao descritivismo, segundo os quais podemos nos referir a Feynman através de uma descrição indefinida e a Einstein através de uma descrição errônea. Minha sugestão é que essas pessoas são capazes de fazer uma referência incompleta, um gesto em direção à referência, e que isso muitas vezes é tudo o que precisamos. Mas para que tal aconteça é preciso ao menos duas coisas. Primeiro, é preciso que a descrição que a pessoa associa ao nome próprio seja convergente, entendendo por descrição convergente aquela capaz de identificar ao menos a classe C a que pertence o portador do nome. Se alguém crê que Feynman foi um grande cientista, essa descrição indefinida é convergente, pois já contém informação sobre Feynman (um homem, um cientista).  Se alguém crê que Einstein foi o inventor da bomba atômica, mesmo que essa descrição seja errônea, ela nem por isso deixa de ser convergente, pois ela já implica que Einstein foi um ser humano e que ele foi um cientista, o que é verdadeiro.  O mesmo não ocorreria se as descrições forem divergentes, por exemplo, se alguém acreditar que Feynman é o nome de uma marca de perfume ou que Einstein é o nome de uma pedra preciosa. Aqui os portadores dos nomes não pertencem à classe identificada.
     A segunda condição é a de que a pessoa possua conhecimento tácito do mecanismo de referência dos nomes próprios, da regra meta-descritiva. Com isso ela sabe ao menos que aquilo que sabe das descrições fundamentais exigidas é insuficiente. Com essas duas condições satisfeitas, com o pouco saber convergente que lhe está disponível, com a consciência que ela tem de sua própria falta de conhecimento, a pessoa já será capaz de inserir o nome próprio adequadamente no discurso, em contextos que reconhece como sendo suficientemente vagos, como tantas vezes acontece. Essa é a razão pela qual alguém pode, em um certo sentido (insuficiente) da palavra, se referir a Feynman sabendo apenas que ele foi um grande cientista e a Einstein acreditando que ele foi o inventor da bomba atômica. Na verdade ele está inserindo o nome corretamente no discurso de modo a fazer uma referência por si mesma insuficiente, adventícia, posto que em última análise dependente da comunidade lingüística, a qual possui recursos para completar a referência.

Porque nomes próprios são designadores rígidos
A solução sugerida também permite responder à objeção de que a teoria do agregado não dá conta da propriedade do nome próprio de ser um designador rígido, que é mais intuitivamente definida como sendo a propriedade que ele tem de se aplicar a um mesmo objeto em qualquer mundo possível no qual esse objeto exista.[63] Para encontrarmos a resposta basta considerarmos atentamente as regras de identificação dos nomes próprios resultantes da aplicação de RMD. No caso do nome próprio ‘Aristóteles’ a regra estabelece uma identidade entre o nome próprio e uma descrição complexa, que é a seguinte:

o ser humano que satisfaz suficientemente e mais do que qualquer outro as condições de ter nascido em Estagira em 384 a.C., ter vivido a maior parte de sua vida em Atenas... e/ou de ter sido o autor das grandes ideias do opus aristotélico.

A identidade é analítica ou necessária, valendo para todos os mundos possíveis. A descrição aqui apresentada, que exprime a regra de identificação para Aristóteles, é por sua vez um designador rígido: ‘o ser humano que satisfaz suficientemente e mais do que... o autor das grandes ideias do opus aristotélico’ aplica-se em todos os mundos possíveis nos quais Aristóteles existe, pois não há como conceber a sua existência sem conceber a aplicabilidade dessa regra.
     Certamente, haverá mundos possíveis nos quais não saberemos se a regra de identificação para um nome próprio é minimamente satisfeita ou não (digamos que em um desses mundos, na corte de Felipe em Estagira em 384 a.C., tenha nascido um feto anencefálico chamado Aristóteles, filho do médico da corte, mas que ele tenha morrido dias após o nascimento... e que ninguém jamais tenha escrito o opus aristotélico). Mas isso sugere apenas que a semântica dos mundos possíveis deve ser reescrita de modo a dar lugar a casos indecidíveis. Para dar conta disso o designador rígido precisa ser redefinido como sendo aquele que se aplica a todos os mundos possíveis nos quais o objeto definidamente existe.
     Com isso fica fácil explicar porque nomes próprios são designadores rígidos do ponto de vista do descritivismo. É que as regras de identificação dos nomes próprios, quando expressas por descrições, originam descrições rígidas, aplicáveis em todos os mundos possíveis nos quais esse objeto definidamente existe. A descrição definida acima exprime também um critério definitório de aplicação do nome próprio, ou seja, a condição necessária e suficiente para a sua aplicação. Dizer que Aristóteles definidamente existe em um mundo possível é o mesmo que dizer que a regra de identificação para esse nome próprio é efetivamente aplicável nesse mundo, pois é a aplicabilidade da regra semântico-conceitual de um nome próprio em um mundo possível aquilo mesmo que entendemos pela existência do seu objeto de referência nesse mundo.

Porque descrições definidas são designadores flácidos
A introdução de regras de identificação para nomes próprios como resultado da aplicação de RMD nos permite explicar não só porque nomes próprios são designadores rígidos, mas porque as descrições definidas que a eles associamos são em geral designadores flácidos, ou seja, designadores que se referem a objetos diferentes em diferentes mundos possíveis. Considere a descrição definida ‘o fundador do Liceu’. Podemos conceber um mundo possível no qual o nome ‘Aristóteles’ se aplica a Aristóteles, que nele existiu, mas no qual a descrição ‘o fundador do Liceu’ se aplica a outra pessoa, digamos, ao seu discípulo Teofrasto, que nesse mundo foi quem realmente fundou o Liceu. E também podemos conceber um mundo possível em que o nome ‘Aristóteles’ se aplica a Aristóteles, que nele existiu, mas no qual a descrição ‘o fundador do Liceu’ não se aplica, pois nesse mundo nenhum Liceu foi fundado. Por que é assim?
     A resposta encontra-se à mão. Sabemos que nenhuma das descrições do agregado, mesmo as descrições fundamentais, se encontra necessariamente vinculada à aplicação do nome próprio, caso o objeto a ser referido pelo nome próprio exista. O que necessariamente se encontra vinculado à aplicação do nome próprio, caso a sua referência exista, é apenas a regra de identificação do nome próprio, que como um todo estabelece o que chamo, seguindo Wittgenstein, de o critério definitório para a sua aplicação. O critério definitório ou primário é aquele que, uma vez dado, garante a existência daquilo de que é critério. Ele se distingue do sintoma ou critério secundário, que uma vez dado apenas torna provável a existência daquilo de que é critério.[64] O contraste entre a descrição que esprime a regra de identificação do nome próprio e as descrições constitutivas do agregado por ele abreviado é feito pela distinção entre critério definitório ou primário e sintoma ou critério secundário. Sempre que a descrição da regra de identificação é satisfeita, sempre que o objeto existe, por nos prover de um critério definitório a regra garante a aplicação do nome próprio a esse objeto. Ora, isso o torna o nome próprion um designador rígido, posto que aplicável em qualquer mundo possível no qual seu objeto de referência exista. Mas quanto a qualquer das descrições do agregado, mesmo as descrições fundamentais (tomadas isoladamente), a sua aplicação consiste na satisfação de sintomas, de critérios secundários meramente probabilizadores da presença do objeto. Assim, a satisfação das descrições definidas associadas ao nome próprio, sejam elas quais forem, apenas probabiliza a aplicação do nome próprio, o que as impede de serem aplicadas em todos os mundos possíveis nos quais o objeto referido pelo nome existe. O resultado disso é que as descrições do agregado são flácidas, posto que podem se aplicar a outros objetos, que não o referente do nome próprio em outros mundos possíveis, ou simplesmente a nenhum objeto, mesmo em um mundo possível no qual o objeto referido pelo nome próprio exista e vice-versa. Aliás, as descrições do agregado não precisam se aplicar não só em outros mundos possíveis (em situações contra-factuais), mas até mesmo ao nosso próprio mundo, uma vez que podemos estar errados em nosso conhecimento dos dados a ele concernentes. Pode ser descoberto, por exemplo, que Aristóteles não foi realmente amante de Herphylis.
     A evidência a favor da explicação acima apresentada é que a oposição nome próprio rígido vs. descrição definida flácida se mantém apenas aonde as descrições vem associadas a nomes próprios e as suas aplicabilidades podem contrastar. Isso nos permite prever que descrições definidas que não se encontram associadas a nomes próprios, especialmente quando são fundamentais, devem funcionar como designadores rígidos. Considere, por exemplo, a descrição ‘o terceiro regimento de cavalaria de Sintra’. Ela exprime as regras de localização e caracterização do regimento, que por sua vez não possui um nome próprio. Por ser assim ela se nos apresenta como uma descrição definida rígida, aplicando-se em qualquer mundo possível no qual esse regimento exista, mesmo que composto por diferentes cavaleiros e cavalos. Ela é rígida porque exprime uma regra de identificação que não está associada a nenhum nome próprio, não podendo por isso em nenhum mundo possível haver divergência entre o objeto de aplicação dessa regra e o objeto de aplicação de um nome próprio ao qual ela esteja associada. Outros exemplos de descrições naturalmente rígidas são: ‘o assassinato do arquiduque Ferdinand em Sarajevo em 1914’, ‘o ponto mais oriental da América Latina’ e ‘a última idade do gelo’, que designam respectivamente um evento, um local e um processo. Elas se aplicarão em qualquer mundo possível no qual alguém assassinou o arquiduque em 1914 (mesmo que o arquiduque seja outro e que o assassino não seja Gravilo Princeps), em qualquer mundo possível no qual exista alguma América Latina com algum ponto mais oriental (mesmo que ele esteja na Terra do Fogo e não em João Pessoa), e em qualquer mundo no qual tenha havido uma última Idade do Gelo (mesmo que ela tenha terminado há 60.000 anos e não há 10.000 anos).

Respostas a contraexemplos
A teoria meta-descritivista dos nomes próprios recém esboçada permite respostas mais convincentes aos contraexemplos levantados contra o descritivismo. Responderei aqui apenas aos mais influentes.
     Consideremos primeiro o caso inicialmente mencionado de nomes semificcionais, como Robin Hood. Kripke sugeriu que esses nomes demonstram a verdade da concepção causal-histórica, pois embora não tenhamos descrições definidas capazes de identificar seus portadores, sabemos que eles se referem a algum objeto que foi a fonte causal desses nomes.
     Nossa resposta começa com a constatação de que nomes semi-ficcionais abreviam dois tipos de descrições: as não-ficcionais, que servem para identificar o objeto que realmente originou causalmente o uso do nome; as ficcionais, que foram adições imaginativas posteriores, nada tendo a ver com o objeto originador do nome. Embora alguma coisa das descrições não-ficcionais seja sabida (sabemos que Robin Hood teria sido um justiceiro que viveu na Inglaterra no período medieval) em geral não sabemos distinguir quais são as descrições ficcionais e quais são as não-ficcionais, nem a extensão disso.
     Imagine agora que uma das muitas teorias já propostas sobre quem teria sido Robin Hood seja demostrada. Suponhamos que documentos sejam descobertos comprovando a teoria de L. V. D. Owen, de acordo com a qual o Robin Hood histórico foi um fora da lei chamado Hobbehod que viveu na primeira metade do século XI em Yorkshire. Nesse caso ao menos nossa descrição caracterizadora de Robin Hood como um fora da lei seria confirmada e complementada, enquanto nossa descrição localizadora de Robin Hood como tendo vivido no período medieval na Inglaterra teria sido confirmada e precisada. O nome próprio teria a sua referência real comprovada com base em descrições e não no elemento causal, mesmo que este também exista.
     Suponhamos agora, para prover um contraexemplo à explicação causal-histórica, que se descubra que o nome Robin Hood não tenha sido invocado por um ser humano na mente do primeiro escritor medieval a usar o nome, mas por outro ser vivo, qual seja, pelo seu bravo cão perdigueiro de nome Robin, que costumava acompanhá-lo em suas incursões na floresta de Sherwood... Nesse caso não diremos que o nome próprio Robin Hood se refere ao cão de caça do escritor, mas que esse nome não possui referência alguma, pois ele é na verdade um nome completamente ficcional. Nossa teoria oferece uma explicação para o que acontece: não se trata somente do fato de que o cão não satisfaz coisa alguma da regra de caracterização que temos para Robin Hood, mas, essencialmente do fato de que nossa regra de identificação para Hobin Hood se aplica à classe C dos seres humanos e não à classe dos canídeos. Se considerarmos agora a teoria causal-histórica, parece que por meio dela devemos reconhecer o nome ‘Robin Hood’ como permanecendo semificcional por se referir ao cão do escritor medieval. Afinal, há uma cadeia causal-histórica que começou com o cão batizado com o nome de Robin... Essa é, porém, uma conclusão absurda.[65]
     Outro famoso contraexemplo de Kripke é o de um falante que associa ao nome do matemático Kurt Gödel a descrição ‘o inventor da prova da incompletude’. Imagine, escreve ele, que se descubra que essa prova foi na verdade descoberta por Schmidt, que morreu em Viena em circunstâncias misteriosas, e que o seu amigo Gödel tenha roubado a prova e publicado em seu próprio nome. Nesse caso, se nomes fossem abreviações de descrições, pensa Kripke, uma vez informada disso a pessoa deveria admitir que Gödel é Schmidt, pois é a Schmidt que devemos agora associar a descrição. Mas isso é contraintuitivo, pois a pessoa continuará certa de que Gödel é Gödel e não Schmidt, mesmo sabendo que Gödel foi um falsário que não descobriu nenhuma prova da incompletude.[66]
     A resposta que a versão meta-descritivista da teoria do agregado dá ao exemplo em questão é, diversamente do esperado, perfeitamente intuitiva. O usuário privilegiado do nome ‘Gödel’ o reconhece por satisfazer a regra de localização (A) de ter nascido em Brünn em 1906, estudado em Viena, emigrado para os EUA e trabalhado em Princeton, onde faleceu em 1978, e por satisfazer a regra de caracterização (B) de ter sido um grande matemático que descobriu o teorema da incompletude, além de ter feito muitas outras contribuições menores. Assim, mesmo que Gödel deixe de satisfazer parte (digamos 2/3) da regra de caracterização, ele continua satisfazendo integralmente a regra de localização, satisfazendo, pois, RI para ‘Gödel’ bem mais do que RI para ‘Schmidt’. Eis porque Gödel não pode ser Schmidt!
     Quanto à pessoa que associa ao nome ‘Gödel’ somente a descrição ‘o inventor da prova da incompletude’, como falante competente ela tacitamente conhece a forma da regra de identificação para nomes próprios e, por conhecê-la, ela sabe que a regra que essa descrição exprime é muito incompleta, apenas parte da regra caracterizadora, recusando-se por isso a aceitar que Gödel é Schmidt enquanto não obtiver maiores informações.
    Uma curiosidade acerca do exemplo é que, como ao menos parte de uma das duas descrições fundamentais identificadoras de Gödel é satisfeita por Schmidt, é possível dizer que este último passa a herdar alguma coisa do significado do nome ‘Gödel’, mesmo que não ganhe a sua referência. E isso realmente acontece. Digamos que um lógico, revoltado pela notícia acerca do roubo do teorema e com pena de Schmidt, lance a exclamação “Schmidt é quem foi o verdadeiro Gödel!” Essa é uma frase verdadeira se for entendida como uma hipérbole. E a razão pela qual ela é verdadeira é dada por nossa versão da teoria descritivista, a qual prevê que o nome Schmidt herda alguma coisa relevante do significado do nome ‘Gödel’.
     Há, por fim, uma maneira de fazer com que Gödel seja realmente Schmidt, muito embora ela dê a Kripke o bolo sem o direito de comê-lo. Imagine que bem no início da estória Schmidt, por alguma razão, tivesse assassinado o jovem Gödel e assumido a sua identidade. Schmidt, que era muito melhor lógico que Gödel, descobriu então incompletude da aritmética, casou-se com Adele, fugiu para os EUA pela Transiberiana em 1940, tornou-se professor em Princeton e faleceu em 1978, de modo que aquele sujeito de calças curtas junto a Einstein na famosa foto de ambos era ele mesmo, o falsário Schmidt. Nesse caso não há dúvida de que Gödel é Schmidt. E o metadescritivismo explica: ele é Schmidt porque as regras-descrições caracterizadora e localizadora, com exceção das descrições relativas à infância, são as de Schmidt e não as da criança que uma vez foi chamada de Gödel, a qual há muito deixou de existir.
     Uma última objeção de Kripke que quero aqui considerar consiste na sugestão de que o nome próprio for definido como abreviação de uma descrição definida e formos tentar explicá-la, nós teremos de recorrer outra vez ao nome próprio, caindo em um círculo vicioso. Assim, se associo o nome próprio ‘Einstein’ à descrição ‘o criador da teoria da relatividade’, ao dizer o que é a teoria da relatividade terei de dizer que ela foi a teoria criada por Einstein.
     À luz de um descritivismo mais complexo essa objeção perde seu poder de convicção. A descrição ‘o autor da teoria da relatividade’ contém o principal da descrição caracterizadora, da razão pela qual nos lembramos de Einstein. Mas é perfeitamente possível explicar a teoria da relatividade sem mencionar o nome ‘Einstein’. O mesmo também acontece com a descrição localizadora para esse nome: ‘a pessoa nascida em 1879 em Ulm, que estudou em Zurique, lecionou em Berlin e, a partir de 1933 se tornou professor em Princeton, onde faleceu em 1953’. Nenhuma circularidade. Certamente, nosso aprendizado do sentido, do conteúdo informativo de um nome próprio não é imediato, mas progressivo, razão pela qual recorremos outras vezes ao nome próprio sempre que pedimos um detalhamento da explicação. É a esse “mistério” da recursividade do definiendum no aprofundamento do definiens que apela a objeção de Kripke.
     Quero, por fim, analisar rapidamente um contra-exemplo proposto por Keith Donnellan.[67] Imagine, escreve ele, que se descubra que Tales não foi na verdade nenhum filósofo, mas um sábio cavador de poços, que cansado de sua profissão uma vez dissera: “Quem me dera se tudo fosse água para eu não ter de cavar esses malditos poços”, tendo essa frase passado equivocamente a Herótodo, a Aristóteles e a outros como veículo da idéia atribuída ao filósofo Tales, segundo a qual a água é o princípio de tudo. Digamos também que a ideia de que tudo é água tenha sido sustentada por um eremita que viveu tão remotamente que nem ele nem suas doutrinas tenham qualquer conexão histórica conosco. Mesmo assim nós não diremos que Tales foi o eremita. A teoria causal-histórica possui uma maneira de explicar isso. Segundo ela é assim porque foi o cavador de poços Tales quem se encontrava no princípio da cadeia causal-histórica e não o eremita. Mas segundo a teoria descritivista o eremita é quem deveria ser Tales, pois é ele quem satisfaz a descrição – um resultado contraintuitivo.
     A resposta que a teoria metadescritivista aqui proposta irá oferecer parte da constatação de que em certos casos a descrição da história causal simplesmente faz parte da descrição caracterizadora. Esse é precisamente o caso de Tales, pois o que mais nos importa na formação da regra caracterizadora para Tales é o seu lugar e influência na origem da filosofia ocidental. A descrição caracterizadora de Tales não se poderia resumir à ridícula afirmação de que tudo é água per se, pois se um filósofo de uma época mais próxima à nossa escrevesse isso ele seria tido como incompetente. A descrição caracterizadora de Tales só importa para nós por incluir a história causal. Podemos resumi-la como: ‘a pessoa que originou a doxografia encontrada em Herótodo, Aristóteles e outros, que a descreve como o primeiro filósofo grego, a defender que a água é o princípio de todas as coisas, que tudo é vivo, que tudo é um etc.’ Quanto à regra localizadora, sabemos que foi “o milesiano que viveu provavelmente de 624 a 547-8 a.C...” Em vista disso, se retornarmos ao exemplo de Donnellan, concluiremos que o eremita não pode ter sido Tales. Primeiro porque não satisfaz a descrição localizadora. Depois porque ele não satisfaz a descrição caracterizadora, mesmo que satisfaça alguma coisa dela. Assim, mesmo que Tales tenha sido um cavador de poços milesiano que viveu de 624 a 547-8 a.C., ele satisfaz as regras fundamentadoras muito mais completamente do que o eremita. Afora isso é preciso notar que dependendo dos detalhes que forem adicionados ou subtraídos ao exemplo dado, as nossas intuições podem se alterar, levando-nos tanto à conclusão de que nenhum Tales realmente existiu quanto, eventualmente, à conclusão de que Tales na verdade foi o eremita.
     Acredito que para quem não quiser se curvar ao argumento de autoridade que secretamente rege a discussão filosófica, para quem for capaz de pensar por si mesmo na independência da imensa influência imposta pela nova ortodoxia causal-externalista já de há muito vigente, não será difícil admitir que a teoria dos nomes próprios aqui esboçada é a mais auspiciosa.


REFERÊNCIAS:
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O CONCEITO DE ÁGUA


Este último artigo contém uma refutação do argumento da Terra Gêmea de Putnam, conhecido por conduzir à conclusão de que o significado está “fora da cabeça”, além de uma breve refutação da sugestão de Kripke de que “Água é H2O” exprime uma identidade necessária e a posteriori. Essas refutações baseiam-se no desenvolvimento de uma análise neofregeana e neodescritivista mais elaborada do conceito de água. É com ela que começaremos.

O descritivismo como deve ser
Para começar, consideremos a concepção descritivista ou neo-fregeana tradicional do significado da palavra ‘água’. Ela explica o significado ou conteúdo informativo em termos de um sentido ou modo de apresentação (Art des Gegebenseins) fregeano. Por ser assim, para o descritivista tradicional o sentido da palavra ‘água’ deve ser expresso linguisticamente na forma de descrições de propriedades fenomenais como as de transparência, falta de gosto e de odor etc. Esse sentido ou modo de apresentação, por sua vez, determinaria a referência e a extensão, tal como Frege sugeriu.[68]
     Essa maneira de ver contrasta com a concepção causal-externalista advogada por Hilary Putnam, segundo a qual o significado relevante da palavra ‘água’ não é aquilo que se instancia internamente em nossas cabeças na forma do que ele chamou de estereótipos, mas algo externo, determinado pela microestrutura essencial H2O compartilhada pelos volumes líquidos que formam a extensão do conceito.
     Uma primeira coisa a ser notada contra a maneira de ver tradicionalmente e quase que perversamente atribuida ao descritivismo é que o descritivista não tem obrigação alguma de restringir-se a meras descrições de superfície de propriedades fenomenais perceptíveis, como a de ser um líquido transparente, inodoro e insípido, no caso da água. Como bem o percebeu Avrum Stroll, descrições também podem ser de ordem funcional ou dinâmica.[69] Elas podem denotar processos temporais como, por exemplo, ‘um composto que reage com oxigênio e ferro produzindo oxidação’. Mas se é assim, então precisamos notar que também não há razão alguma para excluir a própria microestrutura essencial de uma substância do alcançe das descrições. Uma expressão como ‘composto químico com dois átomos de hidrogênio e um átomo de oxigênio’ não é menos descritiva do que a expressão ‘líquido transparente e inodoro que serve para beber’. Que tudo isso faz parte do conteúdo cognitivo-informativo expresso pela palavra ‘água’ é atestado de forma inquestionável por modernos dicionários nas mais diversas línguas. Assim, só para dar um exemplo, o melhor dicionário da língua portuguesa, o Houaiss, nos diz que a água é:

1. Substância (H2O) líquida e incolor, inodora e insípida, essencial à vida da maior parte dos organismos e excelente solvente para muitas outras substâncias; óxido de hidrogênio 2. (hidrol.) a parte líquida que cobre 70% da superficie terrestre sob a forma de lagos, mares e rios.

Descrições como essa cobrem propriedades superficiais e profundas, funcionais ou não. Se quisermos defender um descritivismo consequente devemos admitir o ponto suficientemente óbvio de que aquilo que as definições de qualquer dicionário moderno tentam fazer é sumarizar descritivamente o significado da palavra ‘água’. Tais descrições, por sua vez, são expressões resumidas das convenções constitutivas do conteúdo cognitivo, informacional ou epistêmico da palavra.

Evolução do conceito de água e sua regra de caracterização
Se a concepção descritivista que acabo de introduzir for correta, então deve ter acontecido com o conceito de água o que aconteceu com muitos outros. O conceito de água – o significado dessa palavra[70] – sofreu um crescimento histórico resultante do acréscimo de convenções constitutivas, sendo interessante investigá-lo. Comecemos, pois, com o homem das cavernas.[71] Como ele teria entendido o seu termo para designar aquilo que chamamos de ‘água’? Certamente, ao menos isso ele sabia:

Água = líquido transparente, sem gosto e inodoro, que aplaca a sede e apaga o fogo, cai das núvens sob a forma de chuva e enche os rios, lagos e mares.

     Esse é o único significado da palavra água que se identifica com o significado que Kripke e Putnam sugeriram que o descritivista defende que ela tem. Mas é preciso reconhecer que isso aconteceu já há muito tempo... A maioria de nossos conceitos sofre em sua história alterações semânticas bem conhecidas dos linguístas e a palavra ‘água’ não é exceção. No curso de vários milhares de anos, o significado, o conteúdo semântico dos termos correspondentes à palavra ‘água’ em diferentes línguas tem gradativamente sofrido alterações, geralmente sob a forma de acréscimos. Aos poucos lhe foram sendo adicionadas descrições de propriedades disposicionais mais complexas. Eis algumas delas, que já se haviam adicionado às já mencionadas uns três séculos atrás, na Europa:

Água = líquido que é um bom solvente, que não se mistura com óleos, que é mal condutor de eletricidade quando em estado puro, mas que a conduz muito bem quando misturado com sais, que reage em contato com o ferro produzindo ferrugem...

     Tais descrições são funcionais ou dinâmicas, dizendo respeito a disposições que envolvem algum experimento. O núcleo de sentido que inclui as descrições já conhecidas pelo homem das cavernas, adicionadas ao que o senso comum informado já nos dizia por volta de 1700, constitui o que eu gostaria de chamar de o sentido popular da palavra ‘água’.
     Mas a evolução desse conceito não parou por aí. Entre 1760 e 1830 deu-se uma revolução em nosso entendimento do conceito de água.[72] Em 1768 Lavoisier colocou hidrogênio e oxigênio em uma garrafa e aqueceu a mistura. O resultado foi uma explosão que liberou gás e água. Através dessa e de outras experiências ele acabou por concluir que a água é composta de duas porções de hidrogênio e uma de oxigênio. Em 1781 Cavendish fez na Inglaterra uma experiência similar usando fagulhas elétricas. Em 1783 Lavoisier conseguiu realizar o procedimento inverso, decompondo a água em oxigênio e hidrogênio. Em 1811 Avogadro estabeleceu a composição atômica da água como sendo HO1/2, um resultado que foi corrigido por Berzelius, que finalmente estabeleceu a fórmula H2O em 1821... Com o passar do tempo, mais e mais detalhes da microestrutura foram sendo descobertos, como o de que a água é um composto dipolar que tende a formar estruturas isoméricas quando em estado líquido, o que determina propriedades macrofísicas, como a da alta tensão superficial.
     As adições ao significado da palavra ‘água’ resultantes da investigação científica de sua microestrutura subjacente fizeram surgir então descrições microestruturais centradas na idéia de que:

     Água = composto químico constituido de dois átomos de hidrogênio e
     um átomo de oxigênio (além de ser um composto dipolar etc).

     Pode ser que essa descrição da microestrutura já constitua tudo o que realmente importa. Mas suspeito que o quadro mais completo não seja tão simples. Afinal, parece que faz parte de um conhecimento mais satisfatório de que água é H2O sabermos que 2H2 + O2 → 2H2O. Além disso, parece que o químico não deixa de enriquecer o conhecimento do conteúdo informativo envolvido ao aprender que a ferrugem se forma pelo contato do ferro com a água pela equação geral “2Fe + O2 + 2H2O → 2Fe(OH)2”, ainda que essa seja mais propriamente uma contribuição para o entendimento da constituição de 2Fe(OH)2 (ferrugem), assim como a fórmula anterior o foi para o entendimento da constituição de H2O. Também parece que as descrições de superfície de experiências científicas (como as de Lavoisieur, Cavendish, Avogadro e muitos outros) fazem parte do que os químicos devem saber para entenderem que a água seja composta de H2O. Além disso, o conhecimento da microestrutura é o que permite entender propriedades fenomenais da água, como as de ter alta tensão superficial e de ser um solvente universal. Nesse caso, parece que nosso entendimento da composição química se complementa através de uma grande variedade de relações inferenciais que nos permitem derivar o micro do macro representado por eventos de superfície e vice-versa. Parece que quando nos referimos à água como o composto de estrutura química H2O, estamos nos referindo de forma abreviada às múltiplas descrições que apontam para a fórmula química como o elemento inferencial central na constituição daquilo que os especialistas – os químicos – são capazes de ter em mente com o termo. Trata-se aqui da água como sinônimo do que os químicos chamam de ‘hidróxido de hidrogênio’, ‘óxido de hidrogênio’, ‘monóxido de dihidrogênio’ etc. Chamo a esse núcleo de significação, centrado na descrição microestrutural do composto, de sentido científico da palavra ‘água’, em contraposição ao seu núcleo de significação popular mencionado anteriormente.[73]
     Aqui surge a questão. Em que medida a introdução dessas relações entre a estrutura química e outros fenômenos faz realmente parte do sentido da palavra ‘água’? Uma resposta aparece quando fazemos um paralelo entre esse caso e o caso das propriedades fenomenais macroestruturais da água consideradas no início. A água é fenomenalmente, em primeiro lugar, um líquido transparente, inodoro e insípido... Mas a isso já havíamos juntado descrições de relações inferenciais: ela serve para aplacar a sede, para lavar, para apagar o fogo... Mais tarde aprendemos que em contato prolongado com o ferro ela produzia ferrugem. Se admitimos que no sentido popular tudo isso passou a fazer parte do significado da palavra ‘água’ (como os dicionários insistem em afirmar), devemos concluir que também deve ser assim quando tratamos do significado científico da palavra – de água como ‘hidróxido de hidrogênio’ – devendo o conhecimento das reações químicas e experiências relacionando macro e micro e vice-versa ter a ver com o conhecimento do inteiro conteúdo informativo (significado) que pode ser visado através da palavra, tal como ele é conhecido por usuários privilegiados como é o caso dos especialistas (o que pode ser mais detalhadamente constatado se consultarmos léxicos e enciclopédias).
     A objeção a essa sugestão não se deixa esperar: o número de relações inferenciais é indeterminadamente amplo. Parece que se admitirmos isso corremos o risco de recair em uma espécie indesejável de holismo semântico radical, segundo o qual qualquer coisa pode significar qualquer outra, o que é equivalente a dizer que nada significa nada. Contudo, é possível responder que as descrições funcionais relativas a vínculos inferenciais externos à fórmula química da água ou à sua descrição fenomenal contribuem para o significado da palavra ‘água’ apenas na medida em que estão mais próximas dos núcleos descritivos microfísico e macrofísico, e que a contribuição para o significado diminui gradativamente com o afastamento desses centros, na medida em que elas passam a contribuir mais para o significado dos outros termos relacionados. Eis porque saber que 2H2 + O2 → 2H2O é mais central para o entendimento do significado da expressão ‘hidróxido de hidrogênio’ do que para saber o sentido da palavra ‘oxigênio’. Eis porque saber que 2Fe + O2 + 2H2O → 2Fe(OH)2 é mais central para o entendimento do significado de 2Fe(OH)2, ou seja, da expressão ‘hidróxido de ferro’ (ferrugem) do que para o entendimento da expressão ‘hidróxido de hidrogênio’. Isso nos dá algum insight sobre como as descrições que relacionam uma variedade de palavras conceituais distribuem proporcionalmente as suas contribuições para o conteúdo de significação dessas palavras sem que para tal os seus significados acabem por se dissipar na vacuidade de um holismo semântico radical.
      Finalmente, gostaria de sugerir que, dentro de uma concepção descritivista consequente, o sentido ou significado – o conteúdo informativo – da palavra ‘água’, se entendido em sua maior amplitude, que é abarcada quando a palavra é usada em contextos suficientemente genéricos, não-restritivos ou topicamente neutros, seja constituido hoje em dia pelo conjunto dos dois núcleos – o popular e o científico – de significação da palavra. Assim, no proferimento “O livro A biografia da água procura dizer tudo sobre esse conceito”, a palavra ‘água’ aparece em seu contexto de maior amplitude, querendo dizer tudo o que ela pode querer dizer. É isso a meu ver o que os dicionários modernos buscam sumarizar e que se encontra menos sintéticamente exposto em léxicos e enciclopédias.

Uma regra geral de caracterização
Em conformidade com o que dissemos, é possível definir o conceito genérico de água – que contém os elementos de significação recém-considerados – como sendo constituido por uma regra de caracterização ou de aplicação. Essa regra nos permite aplicar a palavra ‘água’ a tudo aquilo a que efetivamente somos capazes de aplicar, sem a impressão de a estarmos usando impropriamente. Aqui vai uma sugestão:

     RC-água:
Podemos designar um volume líquido x com a palavra ‘água’
see
o núcleo popular de significação para a palavra 'água' e/ou o seu núcleo científico estiver(em) sendo suficientemente satisfeito(s) pelo volume líquido x e mais do que qualquer outro conceito que com ele(s) conflite.

     Note-se que com essa regra conceitual introduzimos uma distinção sutil entre o conceito e o significado, o sentido ou conteúdo cognitivo. O sentido é constituído pelas regras-descrições do núcleo semântico científico e popular. O conceito é algo mais: ele é a regra caracterizadora como um todo, que contém esses sentidos. Dessa maneira espero poder fazer juz à semelhança e diferença sutis que sentimos haver entre o sentido e o conceito.
     Por meio de RC-água também somos capazes de dar ao conceito de água a sua mais genérica aplicação, que tanto serve a líquidos que satisfazem apenas ao núcleo popular quanto a líquidos que satisfazem apenas ao núcleo científico. Por meio dessa regra podemos distinguir a água de outros volumes líquidos que satisfazem parte da condição de significação (o núcleo popular ou o núcleo científico) para o conceito de água, como o de álcool, que com exceção da transparência, não satisfaz nem o núcleo popular nem o núcleo científico do conceito de água, mas satisfaz o núcleo popular (fenomenal) e científico (microestrutural) da regra de caracterização constitutiva do conceito de álcool. O conceito de álcool visivelmente conflita com o de água na satisfação de alguns critérios semânticos, pois se a maior parte de um volume líquido for água e uma pequena parte for álcool, nós diremos que se trata de água com álcool, mas não que a água é feita de álcool, pelo fato de que os critérios de RC-água são mais completamente aplicáveis. O mesmo não aconteceria se tivermos dois conceitos que satisfazem a regra, mas que não entram em competição. Por exemplo: o conceito de gelo e o conceito de hidróxido de hidrogênio (H2O) não conflitam entre si: gelo é hidróxido de hidrogênio em estado sólido, sendo parte de sua regra de caracterização satisfeita pela constituição molecular H2O. Por conseguinte, podemos dizer que o gelo é feito, é constituído, de hidróxido de hidrogênio. É verdade que a regra que estou sugerindo é vaga, mas isso é assim devido à inescapável vaguidade de nossos conceitos em geral.

Divisão do trabalho cognitivo
Aqui poderia surgir a velha objeção externalista de que em geral sabemos muito pouco das descrições constitutivas do significado da palavra ‘água’. A maioria de nós muito pouco sabe, por exemplo, de seu núcleo científico, exceto que se trata de H2O (mas o que é exatamente H2O poucos sabem).
     A resposta a essa objeção de ignorância do significado passa pela observação prévia de que, com efeito, em muitos casos nosso conhecimento do significado como sentido fregeano – como conteúdo informativo – é realmente muito limitado. Todos nós conhecemos bastante bem o significado de palavras triviais como ‘sapato’, ‘mesa’, ‘pedra’. Mas quando usamos termos com conotações científicas ou técnicas cujos detalhes não precisam ser considerados no discurso ordinário, nosso conhecimento do significado costuma se tornar incompleto no sentido de se permanecer superficial, aspectual, fragmentário. Contudo, na medida em que somos cientes disso, não surgem problemas. O conhecimento do significado que precisamos ter para inserir tais termos corretamente no discurso é em geral muito pequeno, ao menos em contextos pouco exigentes, que são os mais comuns. Sempre que fazemos usamos um termo com conhecimento limitado ou insuficiente de seu significado, nós deferimos um conhecimento muito mais completo do significado a outras pessoas; aquelas que por uma ou outra razão poderiam ser chamadas de usuários privilegiados do termo. O resultado é que o sentido completo do termo é geralmente constituído, senão por aquilo que cada usuário privilegiado sabe, ao menos pelo conjunto das coisas que os diversos usuários privilegiados do termo sabem no interior de uma comunidade linguística. (Considere, por exemplo, a expressão ‘teoria das cordas’: quantos sabem o que isso em todos os detalhes significa? Tanto quanto estou informado, nem mesmo os teóricos das cordas). Com essas considerações quero fazer apelo ao que gostaria de chamar de uma divisão cognitiva do trabalho da linguagem. Trata-se de uma distribuição do conhecimento do significado entre os falantes, a qual é entendida sob uma perspectiva internalista – uma idéia que já havia sido esboçada por um descritivista clássico como John Locke[74] e que foi redescoberta por Hilary Putnam sob um entendimento externalista.[75]
     O mesmo se dá ao que parece com a palavra ‘água’: não obstante o fato de essa palavra poder ter como conteúdo de significação os conjuntos nucleados das descrições superficiais e profundas recém-mencionadas, não é preciso que cada falante tenha em mente ambos os conjuntos, nem que os conheça em grandes detalhes, para dar sentido à palavra em um proferimento, ou seja, para inseri-la corretamente no discurso de maneira a fazer-se entender e provocar respostas adequadas. Ele pode simplesmente ter em mente apenas aquilo que todos nós sabemos, como a descrição ‘líquido transparente, inodoro, insípido’ ou a descrição ‘liquido constituído de H2O’, o que já basta para a comunicação. Em outros casos a pessoa pode ter apenas uma vaga noção do significado da expressão conceitual e ainda assim ser capaz de inseri-la corretamente em discursos com propósitos suficientemente genéricos, confiando na existência de usuários privilegiados capazes de completar o conteúdo de significação do termo. Com efeito, é até mesmo possível que a pessoa associe um termo geral a uma descrição incorreta, conquanto ela seja convergente, ou seja, conquanto ela inclua a sua referência em uma classe (um genus proximus) ao qual ela realmente pertence. Assim, se alguém pensa que 'baleia' é o nome de um peixe grande do mar, essa descrição é incorreta, mas ainda assim convergente, pois já classifica a referência corretamente como um animal marinho, permitindo ao falante se referir a baleias no sentido de ser capaz de inserir corretamente a palavra no discurso usual. O que não é possível é que a pessoa não saiba realmente nada sobre o sentido do termo, ou que associe a ele descrições que não são apenas incorretas, mas que são divergentes com relação às que exprimem o sentido original por nos fazerem classificar incorretamente aquilo a que se referem, rejeitando as suas notas mais gerais. Esse é o caso da criança que pensa que o termo de espécie natural ‘baleia’ designa uma montanha na serra das Cajazeiras – uma descrição errônea e divergente.[76] Nesse caso a criança não será capaz de inserir corretamente a palavra no discurso nem de se referir a baleias. Finalmente, um pressuposto indispensável é que a pessoa conheça os limites do que sabe: ela precisa ter pelo menos um conhecimento tácito da estrutura geral das regras caracterizadoras de conceitos, sua função sintática etc.

Contextos de interesse e sentidos de aplicação
O ponto crucial para o qual gostaria de chamar atenção é que aquilo que as pessoas têm em mente ao usar a palavra ‘água’ pode sofrer oscilações contextuais. Ou seja: o que se queremos dizer quando usamos certas palavras pode variar com o contexto de interesses envolvido, que defino como sendo o contexto das intenções e circunstâncias pragmáticas envolvidas na interação comunicativa. Com a variação desse contexto varia o que queremos dizer com certas palavras, o valor cognitivo que com elas pretendemos veicular, elevando-se o valor dos aspectos do significado que para algum propósito nos interessa. Quanto à palavra ‘água’, nós vemos isso acontecer claramente quando o contexto enfatiza um dos dois núcleos semânticos há pouco mencionados.
     Mais circunstanciadamente, podemos dizer que há primeiro contextos de interesse genéricos, não restritivos ou topicamente neutros, nos quais somos autorizados a ter em mente apenas a satisfação suficiente de:

(A) uma disjunção entre os dois núcleos de significado da palavra 'água' – o popular e o científico.

     Esse é o caso no qual aplicamos RC-‘água’. Esse é o uso mais genérico que podemos conceber para a palavra ‘água’, aquele cujos critérios são os mais liberais. Nesse sentido poderíamos dizer que um líquido transparente, insípido, inodoro, que aplacasse a sede e apagasse o fogo... mas que possuisse estrutura química XYZ, seria água, e do mesmo modo poderíamos dizer que um líquido com constituição química H2O, mas que se apresentasse fenomenalmente como um óleo escuro, venenoso e inflamável, também não deixaria de ser água.
     Não obstante, o que importa é notar que há contextos de interesse que chamo de “Bs”, nos quais é demandado que tenhamos em mente apenas um dos núcleos ao neles usarmos a palavra.
     Considere, para exemplificar, o contexto de uma comunidade de pescadores onde tudo o que as pessoas almejam é cavar um poço de modo a obter água doce para beber e para lavar. Aqui o contexto de interesse é popular. Nesse caso, o que importa se reduz a

(B1) o núcleo popular de significação da palavra.

As pessoas chamarão de água o líquido que tiver as propriedades de superfície da água, sem se preocupar se a sua composição química é a de hidróxido de hidrogênio ou não, conquanto ele sirva adequadamente às funções por elas esperadas da água, como as de aplacar a sede e lavar. Se for descoberto que o líquido que os pescadores tiram do poço tem uma estrutura química diferente de H2O (sob o suposto de que estar assegurada nenhuma alteração nos efeitos práticos, incluindo nenhum dano à saúde), eles não encontrarão razão alguma para deixar de usar a palavra ‘água’ na denominação do líquido por eles usado.
     Agora imagine, por contraste, que algumas pessoas estejam fazendo experimentos em um laboratório de química com o objetivo de decompor amostras de água através de métodos como o da eletrólise. Nesse caso, o que elas têm em mente é:

     (B2) o núcleo de significação científico da palavra.

     Aqui o contexto de interessesse é o científico. Tudo o que for hidróxido de hidrogênio será para essas pessoas água, independentemente das propriedades de superfície que a amostra tiver. Pois elas querem usar a palavra ‘água’ no sentido daquilo cuja estrutura química essencial é H2O. Se um líquido oleoso, escuro, venenoso e inflamável se evidencia como possuindo – contra todas as apostas – a estrutura química H2O, eles não hesitarão em chamá-lo de água, mesmo querendo saber por que mágica ele não demonstra as propriedades superficiais da água.

A fantasia da Terra Gêmea: respostas conflitantes
Quero agora fazer uma primeira aplicação da recém-exposta análise neodescritivista do conceito de água, usando-a para explicar, sob uma perspectiva inteiramente internalista, o que acontece na famosa fantasia da Terra Gêmea sugerida por Hilary Putnam.[77] De acordo com essa fantasia existe uma Terra Gêmea que é idêntica à nossa em tudo, exceto pelo fato de que nela o líquido transparente e inodoro que aplaca a sede e apaga o fogo tem uma estrutura química XYZ e não H2O. Nesse caso, se em 1750, pouco antes da descoberta da microestrutura da água, Oscar apontasse para um copo D’água e dissesse “Isso é água”, ele estaria se referindo a um líquido constituido por H2O. Mas o seu Doppelgänger da Terra Gêmea, o Oscar-gêmeo, ao dizer “Isso é água” estaria se referindo a XYZ e não a H2O. Com base nisso, Putnam faz o seguinte raciocínio. Como Oscar e Oscar-gêmeo em 1750 tinham em suas cabeças apenas descrições de superfície, as quais eram exatamente as mesmas, e como eles estavam realmente se referindo a coisas de naturezas diferentes e com extensões diferentes, o significado da palavra ‘água’ (what they meant with the word) não poderia estar em suas cabeças, mas fora delas! O significado possui, portanto, um componente extensional fundamental, que é externo e determinado pela estrutura química essencial do volume líquido apontado, o qual possui identidade-L (microestrutural) com os outros volumes líquidos de aparência similar. A isso pode ser acrescentado que a causa real e objetiva dos proferimentos de fato possui uma natureza essencial diversa: em um caso ela é H2O, no outro XYZ.
     Críticos de Putnam como A. J. Ayer, Eddy Zemach e D. H. Mellor, que preferiram se manter fiéis a uma posição descritivista ou neo-fregeana tradicional, sugeriram que a pretensa intuição semântica da fantasia putnamiana é incorreta.[78] Oscar e Oscar Gêmeo não estavam apontando para coisas diversas. Eles estavam apontando para a mesma espécie de coisa – o mesmo líquido transparente, insípido, inodoro etc. E a prova disso é que o significado da palavra ‘água’ para eles já se mostra inteiramente expresso nas descrições de superfície (as descrições que Putnam chamou de estereótipos).
     Stroll, que compartilha dessa opinião, imagina uma situação em que desde 1750 tivesse havido comércio entre as pessoas da Terra e as da Terra Gêmea, e que grandes quantidades de água fossem transportadas da Terra para a Terra Gêmea e vice-versa, sem que as estruturas moleculares do líquido em questão chegassem a ser descobertas. Ora, se um dia forem, afinal, descobertas as diferenças nas estruturas químicas, as pessoas não irão concluir que a água da Terra Gêmea não é água. Elas concluirão apenas que é água de um outro tipo!
     Se seguirmos a intuição dos descritivistas neo-fregeanos, o problema de Putnam não chega a se colocar. Oscar e Oscar-gêmeo estavam apontando para a mesma espécie de referência porque tinham os mesmos sentidos determinadores da referência em suas cabeças. E a extensão seria também a mesma, cobrindo tanto a água da Terra como a da Terra Gêmea. Assim, não havendo desacordo algum entre o significado e os estados psicológicos dos Oscares, os significados podem ser considerados como estando sempre em suas cabeças.
     Não obstante, é importante perceber que ambas as alternativas explicativas – a de Putnam e a de seus críticos – são intuitivamente fortes, o que gera um dilema incômodo, tanto para os defensores do externalismo semântico quanto para os internalistas neo-fregeanos tradicionais. Nenhum dos dois grupos encontra meios de acomodar as intuições contraditórias.

A solução do conflito
É nesse ponto que entra o meu argumento. Ele se vale da análise neo-descritivista aprimorada do conceito de água proposta nesse artigo, além do velho princípio fregeano de que o sentido determina a referência. O argumento baseia-se na observação de que na verdade existe uma dupla interpretação possível para a referência feita pelos Oscares: a interpretação do ponto de vista deles e a interpretação do ponto de vista nosso. A primeira dá conta da intuição dos neo-fregeanos, enquanto a segunda dá conta da intuição dos putnamianos. O resultado vantajoso de semelhante análise é que conseguimos alcançar uma acomodação satisfatória entre as duas intuições conflitantes.
     Consideremos primeiro a interpretação do ponto de vista dos Oscares. Nesse caso, aquilo que queremos levar em consideração é o significado da palavra ‘água’ tal como ele era conhecido pelas pessoas em 1750. Nesse caso devemos dar razão aos fregeanos. Pois a descrição que exprimia o significado da palavra ‘água’ era por essa época apenas a de um líquido transparente, sem gosto e inodoro, que aplacava a sede e apagava o fogo e que enchia os rios, lagos e mares, sendo um bom solvente que não se misturava com óleos etc.[79] Ou seja: descrições fenomenais e disposicionais e nada mais. Nesse caso o contexto de interesses envolvido era inevitavelmente popular. Nesse caso interessamo-nos por considerar apenas o núcleo de sentido popular da palavra ‘água’, que é exatamente o mesmo tanto para Oscar quanto para o Oscar Gêmeo, que mantinham as mesmas descrições, o mesmo significado em suas cabeças. Mas como nesse caso tanto Oscar quanto Oscar Gêmeo estavam se referindo à mesma espécie de coisa com uma única e mesma extensão, que envolve todo o líquido aquoso de ambas as terras, a igualdade do que eles tinham em suas cabeças é perfeitamente compatível com a idéia fregeana de que o significado determina a referência e a extensão.
     Quanto à possível objeção de que a causa objetiva última dos proferimentos são as microestruturas H2O num caso e XYZ no outro, aqui isso pouco importa, pois no contexto de interesses popular vigente em 1750 as pessoas estavam perfeitamente e inteiramente autorizadas a dizer que aquilo que realmente causou as diferentes impressões sensíveis foi o conjunto das manifestações fenomenais constitutivas da superfície da água (líquido transparente, inodoro, insípido...), as quais eram as mesmas tanto aqui quanto na Terra Gêmea. Não há uma razão a priori para se privilegiar o discurso causal em termos moleculares sobre o discurso causal em termos das características macrofísicas, exceto quando nada se sabe acerca das primeiras.
     Há, todavia, uma segunda maneira descritivista de analisar o que Oscar e Oscar Gêmeo estavam dizendo, que é a de interpretar a questão da referência feita pelos Oscares sob nosso próprio ponto de vista. Essa interpretação corresponde exatamente à intuição seguida por Putnam, embora ele não a analisasse nesses termos. Ela vem a tona quando nos interessamos em colocar em pauta o núcleo de significado científico da palavra ‘água’, que só mais tarde veio a ser descoberto. Nesse caso, obviamente, diremos que Oscar estava se referindo ao líquido com microestrutura H2O, enquanto Oscar Gêmeo estava se referindo ao líquido com microestrutura XYZ. E nesse caso diremos que ambos os líquidos possuiam extensões muito diferentes, o primeiro se restringindo aos volumes de água da Terra e o segundo aos volumes de água da Terra Gêmea. Mas há aqui um ponto crucial que tem passado despercebido. É que no caso em questão estamos considerando o significado da palavra ‘água’ usada por Oscar e Oscar Gêmeo tal como ele é conhecido por nós mesmos hoje, mas não como ele era conhecido pelos Oscares em 1750, que não se encontravam em condições de acessar a idéia de uma fórmula química, nem mesmo se eles fossem químicos. Ora, mas se é assim, o que nós realmente estamos considerando não deve ser o que os próprios Oscares tinham em suas cabeças, como pretende Putnam, mas simplemente o que nós mesmos temos hoje em nossas cabeças ao nos referirmos às referências dos Oscares! Mas o que nós temos em nossas cabeças ao pensarmos no proferimento “Isso é um copo d’água” dito por Oscar é claramente diferente do que nós temos em nossas cabeças ao pensarmos “Isso é um copo d’água” dito pelo Oscar-Gêmeo. No primeiro caso incluímos o conceito de H2O no conteúdo do proferimento, enquanto no segundo incluímos o conceito de XYZ (a assim chamada água-gêmea), o que faz com que o correlacionamento entre a variação do que é encontrado no mundo real e a variação do que acontece nas cabeças dos intérpretes da frase seja preservado. Ora, isso permite que os significados em questão sejam considerados como estando em nossas cabeças e determinando, a partir delas, ao modo fregeano, as referências e extensões correspondentes.
     O que filósofos como Putnam deixaram de perceber é que tudo o que fazemos é projetar os nossos próprios sentidos descritivos da palavra ‘água’ nos proferimentos dos Oscares, usando-os como instrumentos indexicais para a nossa própria determinação de suas diferentes referências e extensões, as quais são, em última instância, fregeanamente determinadas pelos diferentes sentidos da palavra ‘água’ que temos em nossas próprias cabeças.
     O que essa dupla aplicação de nossas intuições de senso comum sugere é o inverso do famoso coloquialismo de Putnam. Ela é: “Divida-se o bolo como quiser, o significado permanecerá na cabeça!” Com efeito, a conclusão a que chegamos é que a resposta neo-descritivista que sugerimos para a questão do significado da palavra ‘água’ tem maior poder explicativo do que a resposta de Putnam, pois tanto explica a sua intuição de que os Oscares estavam se referindo a coisas diferentes, como também explica a intuição dos neofregeanos tradicionais, segundo os quais os Oscares estavam se referindo à mesma coisa com a mesma extensão.
     O que fiz até agora foi apenas desenvolver uma elucidação natural e a meu ver bastante convincente de idéias neo-descritivistas e neo-fregeanas, para então aplicá-las à fantasia da Terra Gêmea, considerando-a do ponto de vista de quem realmente avalia a referência. Trata-se de uma explicação tão simples e razoável que a ausência de sua consideração na literatura chega a ser curiosa. Uma vez, porém, que ela é admitida, tudo se deixa explicar sem maiores comoções. Não é só o conflito entre intuições que se explica pela escolha de diferentes sujeitos e modos de avaliação dos proferimentos dos Oscares. Agora nós não precisamos mais nos afastar da idéia demasiado plausível de que o significado é determinado por regras convencionalmente fundadas[80] – um afastamento que seria inevitável se o significado fosse alguma coisa externa, a pairar de algum modo fora das cabeças. Além disso, não precisamos mais ser forçados a concluir contra-intuitivamente que talvez não saibamos ainda ou talvez não venhamos nunca a conhecer o significado de muitos de nossos termos gerais. E nem somos mais forçados a concluir que os Oscares em 1750 não conheciam realmente o significado da palavra ‘água’ no sentido próprio da palavra, mesmo que eles fossem estranhamente capazes de entender esse significado, usá-lo referencialmente e comunicá-lo uns aos outros.[81]

O status epistêmico do enunciado "Água é H2O"
Outra conseqüência interessante diz respeito à nossa análise da frase de identidade “Água é H2O”. Segundo a análise kripkiana essa frase possui um status epistêmico especial: ela exprime uma verdade necessária e a posteriori. É a posteriori porque foi descoberta pela ciência; é necessária porque ‘água’ e ‘H2O’ são designadores rígidos, aplicáveis à mesma substância em qualquer mundo possível.[82] Nossa análise do que queremos dizer com a palavra 'água' demonstra que não é assim.
     Como parece ter ficado claro, o conceito de água pode adquirir ao menos três sentidos (A), (B1) e (B2). A frase “Água é H2O” entendida como uma frase de identidade é falsa nos sentidos (A) e (B1), pois no sentido (A) a disjunção dos núcleos de significado popular e científico do termo ‘água’ não pode ser identificada com o seu núcleo científico mais restrito (ou com o conceito de H2O), enquanto no sentido (B1) o núcleo de significado popular do termo ‘água’ é obviamente diferente do seu núcleo científico (ou H2O). Apenas no caso de o ‘é’ ser entendido mais naturalmente como um ‘é’ de constituição, e não mais de identidade, podemos dizer que no sentido popular da palavra ‘água’ (B1) a frase “A água é (constituida de) H2O” é verdadeira. Mas essa é uma verdade contingente a posteriori, pois o líquido transparente, inodoro e insípido que chamamos de água poderia ser constituido de outra coisa. Não obstante, a frase “Água é H2O” pode ser interpretada como uma frase de identidade verdadeira no contexto de interesse que envolve (B2), onde o ‘é’ pode ser substituído por ‘é o mesmo que’. Contudo, nesse caso não teremos uma verdade necessária a posteriori. Pois aqui a palavra ‘água’ é usada no sentido de ‘hidróxido de hidrogênio’ e o que estamos realmente querendo dizer é:

Hidróxido de hidrogênio é (o mesmo que) H2O.

Mas como ‘hidróxido de hidrogênio’ é por definição H2O, o que estamos de fato afirmando é “H2O = H2O”, ou seja, uma tautologia analítica e não uma identidade descoberta a posteriori. Concluimos, pois, que em nenhum dos sentidos considerados a frase “Água é H2O” expressa uma verdade necessária a posteriori, se é que isso existe.


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[1] Sobre a espinhosa questão de como traduzir ‘Bedeutung’, ver Michael Beaney (ed.): The Frege Reader, p. 36 ss.
[2] Para uma interpretação dessa espécie ver Ernst Tugendhat: “Die Bedeutung des AusdrucksBedeutung’ bei Frege”, Philosophische Aufsätze, p. 231.
[3] Procurando na literatura vejo que esse ponto já foi percebido por W. Kneale e M. Kneale em The Development of Logic, p. 495.
[4] Ver a introdução da distinção em Gottlob Frege, “Funktion und Begriff”, p. 14 (paginação original).
[5] Max Textor: Frege on Sense and Reference, p. 134.
[6] Michael Dummett: Frege: Philosophy of Language, p. 92.
[7] Penso que a consciência de algo não significa a consciência da regra, pois é a própria regra que produz em nós a consciência de algo. A consciência da regra, por sua vez, exige mais do que isso. Ela exige uma metacognição, ou seja, consciência reflexiva. Quando isso não acontece, a regra permanece sendo cognitiva, mas implícita. Considere, por exemplo, nossa regra de caracterização de cadeiras. De seu uso resulta o nosso reconhecimento dessa peça do mobiliário. Mas não precisamos para isso reconhecer a regra de caracterização que nos diz: “Se o critério de um objeto com encosto feito para uma pessoa sentar for satisfeito então ele deve ser uma cadeira”.
[8] Ver comentários de Edmund Runggaldier sobre a interpretação de Dummett em seu livro Zeichen und Bezeichnetes: sprachphilosophische Untersuchungen zum Problem der Referenz, p. 91 ss.
[9] Esse entendimento se deve principalmente a Michael Dummett. Mas orientações semelhantes podem ser encontradas em autores como P. F. Strawson e Ernst Tugendhat, com origens no último Wittgenstein.
[10]  O fato de serem pré-reflexivas não significa que não sejam cognitivas: elas podem ser cognitivas de modo irrefletido, por exemplo, por nunca terem sido objeto de uma reflexão metacognitiva que as tornasse conscientes.
[11] G. Frege: “Über Sinn und Bedeutung“, p. 28 (paginação original).
[12] A teoria dos tropos foi introduzida em 1953 pelo filósofo australiano D. C. Williams em seu artigo “The Elements of Being”, tendo desde então suscitado crescente interesse.
[13] Sugiro essa caracterização dos universais de modo a contornar o usual recurso a classes de tropos iguais entre si; esse recurso é problemático já que classes são geralmente entendidas como universais, produzindo petição de princípio.
[14] Embora carecendo de desenvolvimento adequado, uma sugestão semelhante foi feita por Paul Simons em “Particulars in Particular Clothing: Three Trope Theories of Substance”, pp. 553-575.
[15] Aristóteles: Categorias, sec. 5.
[16]  Ernst Tugendhat usou a expressão Verwendungsregel (regra de aplicação) para nomear a regra de designação do predicado. Ver E. Tugendhat: Logisch-Semantische Propädeutik, cap. 13.
[17] Essa dependência que a aplicação da regra predicativa tem de uma prévia aplicação da regra de identificação do termo singular foi apontada por Ernst Tugendhat em sua análise das condições de verdade da frase predicativa singular: “‘Fa’ é exatamente então verdadeira se, na medida em que a regra de identificação de ‘a’ foi seguida, com base no resultado do seguimento dessa regra, ‘F’ for aplicável de acordo com a sua regra de aplicação”. E. Tugendhat: Logisch-Semantische Propedeutik, p. 235.
[18] Gottlob Frege: Die Grundlagen der Arithmetik, sec. 53.
[19] Bertrand Russell: “The Philosophy of Logical Atomism”, pp. 232, 250-54. Essa posição sustentada por Russell e Frege tem sido disputada por muitos filósofos contemporâneos, que preferem considerar a existência como uma predicação de primeira ordem. As razões disso me parecem contornáveis. João Branquinho, por exemplo, sugere que só podemos analisar uma frase como “Há coisas que não existem” se admitirmos que predicados de existência são de primeira ordem, enquanto quantificadores significam apenas uma atribuição de “ser” no sentido meinonguiano. Assim, a simbolização da frase acima seria ∑x(~Ǝx), onde ∑ quer dizer ‘há’ (ver “Existência”, in Enciclopédia de Termos Lógico-Filosóficos, eds. J. Branquinho, D. Murcho e N. G. Gomes, p. 300). Mas a frase acima também poderia ser analisada ao modo fregeano. Podemos traduzi-la como “Existem coisas na mente que não existem na realidade externa”. Nesse caso, sendo M = ‘...na mente’ e R = ‘...na realidade externa’, é possível simbolizar tal sentença como “(x)(y)(Ǝx(Mx) & ~Ǝy(Ry) & (x = y))”. Tal discussão, porém, foge aos limites do presente texto.
[20] Ver J. R. Searle: “The Unity of Proposition”, p. 176.
[21] Ver J. R. Searle: Intentionality, cap. 9.
[22] Ver as avaliações equilibradas de David Braun e Marga Reimer em seus respectivos artigos para a Stanford Encyclopedia of Philosophy.

[23] Contudo, se a afirmação de que o quadrado redondo existe for uma maneira equívoca de dizer que podemos combinar sintaticamente os adjetivos quadrado e redondo, ou seja, uma maneira de dizer que há uma regra sintática aplicável na mera combinação dessas palavras, então fará sentido dizer que ele existe. Mas nesse caso o que estamos tentando dizer será corretamente expresso pela frase metalingüística: “A expressão ‘o quadrado redondo’ é dada no domínio do que é gramaticamente construível”. Aqui o apelo meinongiano ao Sosein se reduz à afirmação de uma trivialidade sintática.

[24] A. Kenny: Frege: An Introduction to the Founder of Analytic Philosophy, p. 133.
[25]  P. F. Strawson: “Truth”. Essa posição foi mais tarde abandonada por Strawson. Ver “Reply to John Searle”, p. 402.
[26]  J. R. Searle: “Truth: A Reconsideration of Strawson’s Views”.
[27] J. L. Austin: “Unfair to Facts”.
[28] Ver C. F. Costa: “Fatos empíricos”, p. 122 ss.
[29] Como nota Tyler Burge em “Sinning against Frege”, “a palavra ‘pensamento’ é o melhor substituto de ‘proposição’ por sua naturalidade semântica dentro do escopo apropriado à filosofia linguística”, in T. Burge: Truths, Thoughts, Reason: Essays on Frege, pp. 227-8.
[30] G. Frege: “Der Gedanke”, p. 64 (paginação original).
[31] C. F. Costa: “O verdadeiro portador da verdade“, in Cartografias conceituais: uma abordagem da filosofia contemporânea.
[32] Fatos! Fatos! Fatos!’, exclama o pesquisador da natureza, quando ele quer proclamar a necessidade de uma fundamentação segura da ciência. O que é um fato? Um fato é um pensamento que é verdadeiro.” Gottlob Frege: “Der Gedanke”, p. 74.
[33] Embora a teoria pictorial do pensamento, tal como apresentada por Wittgenstiein no Tractatus, seja indefensável, o seu insight fundamental, de que a representação não é concebível sem alguma espécie de isomorfismo estrutural possível entre o que representa (o pensamento) e o que é representado (o fato), parece-me incontornável. Se rejeitarmos qualquer forma de isomorfismo, então ficaremos para todo o sempre impossibilitados de explicar a representação. Para uma breve defesa da teoria correspondencial, ver C. F. Costa: “A verdadeira teoria da verdade”, in Paisagens conceituais: ensaios filosóficos, cap. 1.
[34] No próximo capítulo argumentarei no sentido de demonstrar que o princípio da verificação, tal como o entendemos aqui, nada tem de implausível.
[35] Ver Ludwig Wittgenstein: Wittgenstein’s Lectures, Cambridge 1932-1935, p. 29.
[36]  Mesmo sem aceitar o imagismo de Berkeley, a idéia básica é exemplarmente expressa na seguinte passagem sua: “...uma idéia, que se considerada em si mesma é particular, torna-se geral ao ser feita para representar ou estar no lugar de todas as outras idéias particulares do mesmo tipo. (...) uma linha particular torna-se geral por ser tornada um signo, de modo que o nome linha, que considerado absolutamente é particular, ao ser um signo é tornado geral”. George Berkeley: Principles of Human Knowledge, introdução, seção 12. Ver também David Hume: A Treatise of Human Nature, livro I, parte 1, seção VII.
[37] Sob essa definição o pensamento, para existir, precisa sofrer sempre alguma instanciação mental, o que explica porque não faço nessse livro uma distinção categorial erntre a cognição concreta e o fato semântico dela abstraído.
[38] Refiro-me aqui principalmente ao famoso argumento da linguagem privada proposto por Wittgenstein, segundo o qual não é possível construir regras para a referência de expressões cujos correlatos empíricos são estados mentais, posto que não há como corrigir tais regras publicamente e regras publicamente incorrigíveis não se distinguem de impressões de regras (Investigações Filosóficas, parte I, sec. 258).
     A dificuldade básica com esse argumento origina-se da constatação de que regras privadamente instituidas só serão incorrigíveis se forem logicamente incorrigíveis, pois regras incorrigíveis por razões práticas são perfeitamente concebíveis (pense, por exemplo, nas regras inventadas por Robinson Cruzoé em sua ilha). Contudo, é questionável se as regras de uma linguagem privada (como parece ser a nossa própria linguagem fenomenal) são logicamente incorrigíveis, pois isso depende da vigência de um princípio da incompartilhabilidade lógica dos estados mentais (na opinião de Frege, por exemplo, se penetrássemos nas mentes de outras pessoas teríamos nossas próprias experiências de suas experiências e nunca as suas próprias experiências enquanto tais, donde não estaríamos realmente verificando os seus estados mentais.). Há razões, contudo, para pensar que tal princípio da incompartilhabilidade lógica do mental seja falso. Basta para tal admitir que o estado mental do qual se tem a experiência seja logicamente separável do sujeito (ou da consciência) que o tem, pois nesse caso será possível que dois sujeitos possam compartilhar de um mesmo conteúdo experiencial. É essa idéia inconcebível? Parece que não. Afinal é natural, por exemplo, imaginar um computador A lendo diretamente um programa instalado no computador B, ao invés de ter de copiá-lo para só então poder lê-lo em si mesmo). Para uma crítica mais detalhada ao argumento da linguagem privada, complementada por uma demonstração da razoabilidade de uma versão mais elaborada do tradicional argumento da analogia para outras mentes, ver C. F. Costa “Linguagem privada e o heteropsíquico”, em Paisagens conceituais: ensaios filosóficos.
[39] As próprias mutações são acidentes cuja probabilidade de incidência precisaria ser evolucionariamente calibrada. Só espécies cujos organismos seriam capazes de sofrer mutação em quantidades adequadas seriam capazes de se preservar. Uma espécie fixa, sem mutações, é algo provavelmente possível, mas que não possuiria a flexibilidade necessária à sobrevivência de seus membros.
[40]  John R. Searle: Mind, Language, and Society, pp. 43-45.
[41] Como nota Hans-Johann Glock em seu Wittgenstein-Lexikon: “o princípio foi primeiramente defendido pelo círculo de Viena, mas seus membros o atribuem a Wittgenstein, que o expôs a Waismann em conversações”, p. 354.
[42] M. Schlick: Gesammelte Aufsätze, p. 340
[43] F. Waismann (ed.): Wittgenstein und der Wienner Kreis, p. 245.
[44] F. Waismann (ed.): Wittgenstein und der Wienner Kreis, p. 244.
[45] F. Waismann (ed.): Wittgenstein und er Wienner Kreis, p. 47.
[46] F. Waismann (ed.): Wittgenstein und der Wienner Kreis p. 244.
[47] F. Waismann (ed.): Wittgenstein und der Wienner Kreis, pp. 226, 227.
[48] Wittgenstein’s Lectures, Cambridge 1932-5, p. 29.
[49] Entendo uma proposição analítica como sendo aquela cuja verdade decorre da combinação dos sentidos de suas expressões constitutivas. Quine (em “Two Dogmas of Empiricism”) rejeitou o conceito de analiticidade por este se basear no conceito demasiado vago de significado. Contudo, a vaguidade em si mesma não é um defeito, a menos que seja confundida com imprecisão. Vago ou não, o conceito de analiticidade cumpre aqui com a sua função de produzir uma definição perfeitamente inteligível e em si mesma irretocável (R. G. Swinburne: “Analyticity, Necessity and Apriority”, p. 228; ver também H. P. Grice e P. F. Strawson em “In Defense of a Dogma”).
     Também parece falaciosa a rejeição de Quine à sua própria tentativa de definir analiticidade através de sinonimidade e necessidade, em razão da excessiva proximidade semântica entre os vários conceitos envolvidos (significado, sinonimidade, necessidade...), o que produz, segundo ele, uma quase-circularidade na definição. Afinal, em nossas definições é natural e mesmo indispensável que os conceitos usados pertençam a um mesmo campo semântico. Cadeira, por exemplo, se define como ‘banco com encosto para uma pessoa’, mas tanto o conceito de cadeira, como o de banco e o de encosto pertencem ao domínio da carpintaria e nem por isso essa definição é quase-circular.
[50] Essa posição foi aceita ou defendida por Rudolf Carnap, Hans Reichembach e A. J. Ayer (ver C. J. Misak: Verificationism: Its History and Prospects, pp. 79-80).
[51]  John Locke: An Essay Concerning Human Understanding, livro IV, cap. II, § 7.
[52]  Ver, por exemplo, Laurence Bonjour: In Defense of Pure Reason, p. 100 ss.
[53] W. V-O. Quine: “Two Dogmas of the Empiricism”, p. 41.
[54]  Merrilee Salmon: Introduction to Logic and Critical Thinking, p. 276.
[55] Ver C. G. Hempel: “Problems and Changes in the Empiricist Criterion of Meaning”, Revenue Internationale de Philosophie 11, 1950, 41-63.
[56] W. G. Lycan: Philosophy of Language: A Contemporary Introduction, pp. 121-122.
[57] Ver Wittgenstein: Über Gewissheit, sec. 10.
[58]  J. R. Searle: “Proper Names”.
[59] Essa é a formulação sinóptica da versão searleana apresentada por Susan Haack em Philosophy of Logics, p. 58.
[60] Ver Saul Kripke: Naming and Necessity cap. II. As outras objeções de Kripke se encontram todas no mesmo livro. Para uma resposta relevante, curiosamente passada em silêncio pelos defensores da concepção causal-histórica, ver J. R. Searle: Intentionality: an Essay in the Philosophy of Mind, cap. 9.
[61] J. R. Searle: “Proper Names and Descriptions”, p. 490.
[62] Em uma primeira versão das idéias aqui desenvolvidas tentei equivocamente incorporar um elemento causal ao metadescritivismo. Ver C. F. Costa: “A Meta-Descriptivist Theory of Proper Names”.
[63] O próprio Kripke oscila entre essa definição e a definição segundo a qual o designador rígido é o que se aplica em todos os mundos possíveis, inclusive naqueles nos quais o objeto não existe. Mas parece claro que no último caso a maioria dos nomes próprios deixaria de ser designadores rígidos, posto que nenhum nome próprio irá referir em um mundo possível no qual o seu objeto de aplicação não existe.
[64] Essa é uma maneira de interpretar o que Wittgenstein escreve sobre a distinção entre critério e sintoma. Ver L. Wittgenstein, The Blue and the Brown Books, p. 24 ss.
[65] Imagine que o ser vivo que acompanhasse o escritor medieval à caça fosse outra pessoa, um amigo chamado Hode, que lhe inspirou a estória de Robin Hood. Pela concepção causal, a pessoa batizada com o nome ‘Hode’ seria o verdadeiro Robin Hood, pois é a causa do uso do nome semificcional, o que é escassamente intuitivo. Pela teoria proposta, porém, a resposta irá depender de detalhes adicionais, no caso, se Hode satisfaz suficientemente a condição de predominância e se ele satisfaz a condição de predominância em contraste com o objeto meramente imaginado pelo escritor medieval. Assim, se Hode realizou certos atos de bravura e compaixão, parece que há razões para concluir que Hode foi o Robin Hood originário.
[66] Saul Kripke: Naming and Necessity, pp. 83-84.
[67] Keith S. Donnellan: “Proper Names and Identifying Descriptions”, pp. 373-375.
[68] O descritivista neo-fregeano provavelmente discordará de Frege quanto à questão do status ontológico dos conteúdos informativos constitutivos do significado. Para Frege os sentidos e suas conjugações em pensamentos precisam ser entidades abstratas, platônicas, de modo a ter a sua comunicabilidade, garantida. Contudo, para o neo-fregeano contemporâneo esse é um preço ontológico alto demais. A reação mais natural é a de localizar esses conteúdos de informação em nossas cabeças, na forma de instanciações cognitivas de convenções ou de suas combinações, dado que o fundamento convencional dessas instanciações tornaria esse conteúdo informativo instanciado intrinsecamente capaz de ser comunicado.
[69] Ver Avrum Stroll: Sketches and Landscapes: Philosophy by Examples, cap. 2.
[70] Falo do significado ou conceito de água, que pouco se altera mesmo sendo expresso por uma variedade de palavras em diferentes línguas e épocas.
[71] Se acharem esse apelo demasiado fantasioso sugiro pensarem no homem da idade do bronze ou então em alguma tribo indígena não contactada.
[72] A história da descoberta da composição química da água é complexa e controversa, de modo que o que apresentarei aqui será um breve sumário. Ver, por exemplo, Philip Ball: A Biography of Water (California: University of California Press 2001), cap. 5

[73] Vale notar que se entendido em um sentido suficientemente amplo, o descritivismo é capaz de incluir o que é indicado pelo rótulo genérico de inferencialismo semântico. Com efeito, as descrições que associamos a um termo podem muito bem explicitar qualquer coisa constitutiva do seu conteúdo inferencial específico. Sobre o inferencialismo, ver Robert Brandom: Articulating Reasons: An Introduction to Inferentialism, cap. 1.
[74] John Locke: An Essay Concerning Human Understanding, 2.31.4-5, 2.32.12, 2.29.7, 3.10.22, 3.11.24.
[75] Hilary Putnam: “The Meaning of ‘Meaning’”, in Language and Reality, Philosophical Papers, vol. 2, pp. 227-229.
[76] Esse exemplo é paralelo ao do nome próprio ‘Einstein’ usado como abreviação da descrição errônea ‘o inventor da bomba atômica’ (Kripke). Contudo, essa descrição errônea é ainda assim convergente, pois guarda notas comuns com o portador do nome, que era um cientista e um ser humano. Se o usuário do nome ‘Einstein’ o associasse a uma descrição divergente como, por exemplo, o nome de um famoso diamante, ele seria certamente considerado incapaz de usar a palavra corretamente.

[77] Hilary Putnam: “The Meaning of ‘Meaning’”, in Language and Reality, Philosophical Papers, vol. 2.
[78] A. J. Ayer: Philosophy in the Twentieth Century p. 270. Ver também D. H. Mellor: “Natural Kinds” e Eddy Zemach: “Putnam’s Theory on the Reference of the Substance Terms”.
[79]  Putnam observou que em 1750 e mesmo muito antes já se assumia a existência de uma substância ou essência pura, comum às massas d’água. Contudo, como essa substância comum não podia ser determinada, para o que se queria dizer com a palavra ‘água’ tanto fazia que ela fosse H2O ou XYZ. Além disso, a idéia de uma substância pura subjacente pode ter valido para os químicos pouco antes das descobertas de Lavoisieur. Mas ela não valia muito antes disso, quando seria igualmente razoável imaginar que os volumes de água fossem como os volumes de ar ou urina, que não passam de misturas. Se quisermos, aliás, podemos fazer regredir a fantasia aos Oscares das cavernas, ou aos da Idade do Bronze, que certamente não teriam nem porque nem como postular um substrato único comum ao que chamamos de água.
[80] Uso a expressão ‘regra convencionalmente fundada’ para designer combinações de regras que não são elas próprias convencionais, mas que se baseiam em regras que foram ao menos implicitamente convencionadas.
[81] Como escreveu Putnam “Oscar1 and Oscar2 understood the term ‘water’ differently in 1750” (Mind, Language and Reality, p. 224, grifo meu). Ele foi bem mais cuidadoso em seu livro Representation and Reality, onde tentou responder à objeção de que em 1750 o significado era, afinal, o mesmo. Seu argumento é o de que embora em 1750 os Oscares não pudessem ter critérios explícitos de identificação da substância água, eles sabiam o significado do termo no sentido comum de saberem usá-lo corretamente no discurso (p. 32). Mas o significado não pode ser apartado do uso no discurso, mesmo quando a microestrutura entra em questão. Se fizermos uma experiência hoje com eletrólise usareemos a palavra ‘água’ ao concluir que as porções de hidrogênio e oxigênio resultantes são componentes da água. Assim, é mais coerente dizer que aquilo que os Oscares em 1750 tinham em mente ao usar a palavra ‘água’ era o que Putnam chama de significado como estereótipo, descrições de superfície, enquanto no uso atual dessa palavra nós somos capazes de ir além, mas apenas porque hoje conhecemos as descrições microestruturais. Minha conclusão é que se o externalismo for razoavelmente enfraquecido, ou ele passa a não dizer mais coisa alguma, ou o que ele diz se torna algo completamente trivial, como é o caso da afirmação de que os significados de nossos termos referentes a coisas externas são geralmente originados da experiência de suas referências...
[82] S. Kripke: Meaning and Necessity, pp. 128, 134, 150.




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